Quando indigo é mais que uma cor

Em 29 de setembro de 2016 às 08:00, por Jeferson Garrafa Brasil.

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Gosto de ouvir rádio enquanto dirijo. Mas, dia desses, meio de saco cheio do noticiário político com suas amplas conexões e profundas interações com o código penal, peguei aleatoriamente um CD (sim, ainda estou no tempo do CD) pra ir ouvindo enquanto dirigia.  O CD, mais uma das obras primas do grande Duke Ellington, era o Índigos, relançado em 1986 pela Columbia.  A fonte primária foi o LP de mesmo nome, gravado pela mesma Colúmbia em 1957, e lançado no ano seguinte.

No CD relançado, foi retirada a canção “The Sky Fell Down” e foram incluídas” Night and Day” – o sopro de Paul Gonsalves mandando ver no sax tenor – e “All The Thing´s You Are”. Esta, com o próprio Duke Ellington solando ao piano. Não me perguntem os critérios pra essa mexida no repertório, pois não os conheço.  Na verdade, esse “change” não nos tira o prazer de ouvi-lo. E curti-lo. Como estamos em tempos de eleição, se eu fosse votar numa canção do CD, teclava SIM com convicção para minha leitura preferida de “Autumn Leaves/Feuilles Mortes”.  Não sei se esse é o melhor trabalho, mas é o um dos meus preferidos dele –  o grande Duke Ellington.

“Todos os músicos deveriam um dia se reunir e agradecer de joelhos a Duke”. Sabem quem falou isso? O talentoso, criativo e muito marrento Miles Davis que, diga-se, não era de encher a bola de ninguém. Ellington começou a estudar piano ainda na infância, e, é dessa época, que devido suas boas maneiras, recebeu o apelido de Duke. Sua primeira banda foi formada em 1917, quando ele tinha 18 anos, e seus primeiros arranjos foram feitos após sua mudança pra Nova York, onde montou a “The Washingtonians”. Viajou mundo afora tocando jazz, mas sua década de ouro foi a de 1940. Por pura coincidência, foi nesse período que ele contratou o talentosíssimo Billy Strayhorn que, inclusive, é o autor do tema da orquestra, a deliciosa “Take The A Train”. Entre um uísque e outro, sussurram pelas salas enfumaçadas e com pouca luz que tocam jazz por aí, que a primeira vez que a palavra swing foi usada numa música, foi em “It don’t mean a thing (If Ain’t that got swing”). É qualquer coisa como “Isto não significa nada (Se não tiver aquele swing)”. Música dele, do início dos anos 1930. Mas “Solitude” foi seu primeiro e verdadeiro sucesso comercial. Se formos listar as composições de Duke Ellington, não vamos acabar hoje. Pra vocês terem uma idéia, em sua autobiografia, “Music Is My Mistress”, de 1973, ele usou 30 páginas pra relacioná-las. Isso mesmo que você leu: 30 páginas! Coisa pra mais de 6.000 canções.  A orquestra de Ellington foi a mais célebre e poderosa de seu tempo, e só quem rivalizava com ela era a também excepcional orquestra de Count Basie.

Duke Ellington completou 75 anos num leito de hospital e faleceu no dia 24 de maio de 1974.  Seu filho, Mercer Ellington, ainda tentou comandar o grupo, mas, filho de peixe nem sempre peixinho é. Lembram-se do Edinho, filho do Pelé? Pois é.

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sobre o autor

Articulista-Jeferson-BrasilFoi baterista, segundo ele, do sofrível conjunto musical “Os Paqueras”. Jogou basquete, futebol e tênis de quadra. Admite, orgulhosamente, que seus dois irmãos jogavam muito mais. Sua vingança é hoje ser corredor de rua, com sonho de virar maratonista. É cronista bissexto.