A qualidade do ensino de ontem é infinitamente superior à de hoje

Em 23 de janeiro de 2017 às 08:00, por Lúcio Menezes.

compartilhe

Na saída dos colégios, quando as estudantes de Manaus nem sonhavam que a calça desbancaria a saia, elas enrolavam o cós da cintura para expor ainda mais suas pernas (ah, as rótulas da Kariné!). Nessa fase de pernas e rótulas à mostra, eu fiz o Exame de Admissão para o Colégio Brasileiro e Instituto de Educação do Amazonas – IEA. Passei nos dois, escolhi o que primeiro divulgou o resultado.

O clima da nossa cidade sempre foi quente, mas dava para ir à escola a pé sem transpirar tanto e assistir, sem desconforto, aulas em salas com ventiladores de teto.

Preocupado com o flerte do Brasil com o Irã durante os governos do PT e a hipótese de importarem a Sharia – lei islâmica que ampara o apedrejamento – para cá, peço clemência aos ginasianos que se sentirem preteridos, mas não há como citar todos os colégios da Manaus dos anos 1960/70. Vamos lá.

Estudar e formar no Instituto de Educação do Amazonas – IEA, era ter a certeza de estar preparado para enfrentar a concorrência sem medo, tanto que, em 1970, o IEA foi reconhecido como instituto de excelência, especialmente na formação do Magistério (Escola Normalista). Essa excelência era responsável pela aprovação em massa nos exames vestibulares. Em novembro de 2016 o IEA completou 136 anos.

Outro colégio público de elevado conceito era o Colégio D. Pedro II, o popular Colégio Estadual. Seu quadro docente era dos melhores e os “ rachas” futebolísticos  muito concorridos. A maior tentação para os discentes era resistir a travessia da Av. Getúlio Vargas e “gazetar” aulas para assistir as sessões cinematográficas nos Cines Polytheama ou Guarany. Quando as luzes rompiam o escurinho, revelava a imensa caravana e a diversidade de fardas. A minha era calça cáqui com uma listra lateral branca, sapatos pretos e, nos primeiros anos, camisa de pano com botões e o emblema do colégio impresso no bolso lateral esquerdo, depois foi substituída por camisa de meia branca com o emblema no centro do peito.

O Colégio Sólon de Lucena tinha a fama de preparar para o curso de Contabilidade e o Colégio Agrícola formava técnicos para o setor primário. Quem quisesse os cursos superiores em Agronomia ou Zootecnia, teria que prestar vestibular fora de Manaus, especialmente na Rural (UFRJ), no Rio de Janeiro.

A especialidade da Escola Técnica Federal do Amazonas era preparar os futuros engenheiros. E como preparava, uma referência. Lá, ou se estudava ou se estudava.

O Colégio Militar foi um marco, o padrão de ensino era superior a qualquer grade curricular dos colégios de Manaus, enquanto estudávamos regra de três simples, os caras da mesma série já haviam estudado álgebra. Os que não seguiram a carreira militar não tiveram a menor dificuldade em passar no vestibular.

Sim, havia exigência nos colégios particulares, a média mensal para passar sem fazer a prova final, por exemplo, era 7,5. Se ao final do ano não a alcançássemos, éramos obrigados a fazê-la. Uma temeridade, já que englobava a matéria da disciplina dada durante o ano inteiro. Ainda assim, os particulares eram rotulados por alunos dos colégios públicos, como colégios PPP (Papai Pagou Passou).

Ouso dizer que o Colégio Dom Bosco, colégio salesiano e na época uma instituição de ensino exclusiva para homens, era elitizado. Além da formação religiosa, o Dom Bosco tinha um ótimo ensino e mantinha um coral denominado “Canarinhos do Dom Bosco”. Em dias de aparição eles trajavam blusas amarelas com mangas compridas.

O Brasileiro era misto (masculino e feminino) e tinha, no antigo 2º grau, os cursos Pedagógico e Científico. A caderneta de estudante do ginásio era vermelha, do científico verde e do pedagógico azul. Antes da predominância das mochilas havia o “colecionador”, uma pasta de material plástico com o emblema do colégio impresso e um elástico para prender suas abas. Era o sonho de consumo do meu irmão.

Não sei o que se passava por trás dos muros dos colégios N. S. Auxiliadora e Santa Dorotéia, sei que quando as alunas saiam era um “ai Jesus! ”. Elas não eram só as mais bonitas e cobiçadas, eram, supostamente, as filhinhas de papai.

As alunas do Colégio Preciosíssimo Sangue e do Patronato Santa Terezinha guardavam mistérios que até hoje não sei.

Sete anos passaram rápido e havia chegado a minha hora de prestar o vestibular. Todo cuidado era pouco, a cada três respostas erradas, uma certa era anulada, “chutar” era burrice. O cartão para gabaritar era de papelão e continha posições que deveriam ser perfuradas. Fazia-se pressão sobre a letra (opção) escolhida como resposta e o quadradinho dava lugar a um vazado. Se na conferência o vestibulando percebesse que havia perfurado a opção errada, a Inês estava morta, não havia como substituí-lo ou recolocar o quadradinho no lugar.

Em 1970, a então Universidade do Amazonas – UA oferecia 1.300 vagas para todos os cursos que dispunha. Em 1980, saltou para 1.800 vagas. Os cursos mais disputados eram Medicina, Engenharia e Direito, mas Administração estava na moda e, em 1976, enfrentei dez concorrentes para uma vaga. Quando o resultado saiu, a minha vizinha, filha do Dr. Aderson Dutra, então Magnífico Reitor, correu para dizer que o meu nome constava na lista dos aprovados. A considerar minha má reputação estudantil, mamãe não levou fé, achava que a lista era dos não aprovados, que tal? Equívoco desfeito, sua felicidade foi tamanha que parecia que era ela quem havia sido aprovada.

Se não havia disparidade entre o ensino público e privado, a disputa por uma vaga na Universidade era acirradíssima e muitos bons não obtinham sucesso. Se os desafortunados fossem de famílias humildes, esperariam um ano inteiro para tentar outra vez e assim seria até obter sucesso ou desistir. Se filhos de pais ricos fossem, imediatamente embarcariam num avião da Varig, direto para o Rio de Janeiro. As faculdades cariocas particulares preferidas dos amazonenses eram: Celso Lisboa, Nuno Lisboa, Santa Úrsula, Estácio de Sá e Bennett. Não era comum, mas alguns até passavam na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e lá concluíam o curso, os demais ingressam em uma dessas faculdades particulares, cursavam um ou dois semestres e pediam transferência para cá. O requerimento de transferência era submetido a um Conselho da UA que o deliberava positivamente ou não. Dizia-se que a descendência (filial) do postulante tinha um peso considerável na decisão.

Por estarmos a viver sob o Regime Militar, os filhos de milicos que aqui chegavam tinham vagas asseguradas. O policial federal, salvo melhor juízo, não prestava vestibular e esses, em sua maioria, optavam por fazer o curso de Direito. No meio universitário esses caras eram vistos com desconfiança.

A qualidade do ensino de ontem é infinitamente superior à de hoje; a escolha por escola pública ou privada era uma questão pessoal, a qualidade era a mesma; antes da proliferação das Faculdades, Centros e Universidades, ter o curso superior era privilégio de poucos; há um enorme contingente de conterrâneos, hoje doutores, endividados de gratidão eterna para com os conselheiros da UA.  O atual governo ainda não teve tempo para mudanças na “herança maldita” deixada pelos governos petistas,  o lema permanece: “Brasil, pátria deseducadora”.

Comentários

sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.