Postal passado e futuro incerto

Em 28 de março de 2018 às 08:00, por Otoni Mesquita.

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Oi, amiga querida, estou te enviando um cartão postal de minha passagem pelo mundo. Na verdade, já nem sei que cidade é essa ou quanto a conheço.

Escolhi esta imagem por que me fez sentir feliz. Pode ser apenas mais uma vitrine ilusória montada para consumo, em um momento em que o mundo já sofria a duras penas. Mas algumas pessoas estavam animadas em viver e usufruir da vida. Alguns haviam ouvido falar das privações e sofrimentos. Outros queriam apenas usufruir do moderno e civilizado. Não tinham ideia precisa do que se aproximava.

Acreditava no progresso e nos avanços da ciência. Pensavam ter escapado de uma era de trevas, mas estavam enganados.

O tranway ou o bond, o automóvel e a eletricidade já faziam uma diferença considerável na vida das pessoas. Os lugares embelezados sugeriam a existência de um paraíso totalmente controlado pelo homem. Livre dos caprichos da natureza.

A vista era bela e estava sendo servida a quase todos os olhos. As crianças experimentavam uma liberdade nunca dantes permitida. Corriam e gritavam, soltas, ainda que muitas completamente reprimidas e vigiadas por babás de uniformes.

O vento salgado e as tendas listadas de azul, o ruído das ondas do mar, o sol brilhante e o azul intenso do céu. A natureza contrastava com as construções em cores claras. Pareciam uma exposição de bolos de casamento, sem a presença dos noivos.

Colunas brancas e paredes em pasteis abriam passagem para os carros alongados que passavam sob a música animada que se espalhava animando os transeuntes bem vestidos no passeio.

O mundo parecia regido por uma única vontade, pronta pra usufruto dos homens. Mas onde estavam aqueles que haviam trabalhado e serviam essa população de usufruidores? Onde se escondiam os pobres. Certos que muitos estavam ali, misturados em seus uniformes que bem os distinguia como um serviçal. Mas não havia lugar para aqueles que não foram escolhidos pelas vibrações da cornucópia de ouro. Isso não é eterno, mas parece que não se apagará jamais.

Pode durar apenas a temporada de férias. Belas e felizes criaturas devem ter bons sonhos, ou será que tudo isso é apenas a casca e nos seus sonos se encontram em pesadelos. Talvez não tenhamos como saber. Mesmo que tivéssemos como interrogar cada um deles e obtivéssemos respostas sinceras. Não sabiam o que viria. Não tinham como prever o futuro.

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sobre o autor

Amazonense, artista visual e historiador da cidade. Gosta de literatura, música, cinema e fotografia. Não dirige, mora no centro da cidade. Nada no Nacional e anda pela cidade olhando e fotografando pequenas coisas.