Pororocas do Araguari

Em 16 de novembro de 2016 às 08:14, por Henrique Pecinatto.

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Na foz do rio Araguari, região leste do estado do Amapá, irrompe um barulho ensurdecedor após um período de silêncio absoluto, que nem mesmo a fauna local ousava se manifestar. É a pororoca, como diziam os nativos habitantes falantes de tupi acerca deste incomum fenômeno da natureza, que com um “grande estrondo” (este seria o significado do termo pororoca), anuncia a vinda de uma série de ondas que tem a possibilidade de destruir tudo em seu caminho.

Uma batalha entre as águas oceânicas do Atlântico vs o voluptuoso Amazonas, que diariamente disputam uma queda de braços para ver quem é o mais forte. A favor das águas do oceano Atlântico estão diversas forças da natureza, como os ventos alísios, que são ventos que convergem para regiões de baixa pressão, como aquelas próximas as da linha do Equador, caso da foz do rio Amazonas, no Amapá. Outro contribuinte de peso é a dança das águas provocadas pela influência gravitacional da Lua e Sol, em que o nível do mar oscila e depende da configuração entres esses astros.

A favor do Amazonas estão seus afluentes, que o abastecem e o torna (de longe) o rio mais volumoso de nosso planeta.

Perto da foz do rio Amazonas, o Araguari começa a sentir a influência das águas barrentas do Amazonas, tornando-o, dantes com águas escuras, em barrentas. Com um “túnel” de aproximadamente 25 Km de comprimento e 3 Km de largura, sua voluptuosa corrente de águas encontra o oceano Atlântico pouco acima de onde o Amazonas desagua. Entretanto, a quantidade de água que o Araguari (apesar de ser bastante volumoso) despeja no oceano é irrisória perante o Amazonas, mas ele enfrenta com bravura a queda de braço.

Acontece que a natureza escolheu o lugar onde as maiores marés (a dança das águas) são produzidas justamente no litoral Amapaense. Como indicam as previsões, para a superlua cheia que se aproxima, pode-se ter marés em torno de 6,5 m. Estas são as marés de Sizígia, onde o alinhamento Sol-Lua-Terra ou Sol-Terra-Lua (Lua nova e cheia, respectivamente) proporciona uma maior intensidade dos efeitos gravitacionais.

Sob todos esses efeitos acima mencionados, quando o nível do mar se eleva de modo sobrepujante sobre o Araguari, a correnteza se inverte e o fluxo de água passa a ser em direção ao continente. Formam-se as ondas de marés, ou macaréu, ou pororoca, que sobre o raso rio Araguari vai passando e modificando sua forma. Estas ondas de marés possuem variadas durações e alturas.

Infelizmente boa parte do que escrevi sobre o Araguari, o rio que detinha as maiores pororocas, já fazem parte do passado. Por diversos fatores que não foram de ordem natural, a foz do Araguari praticamente desapareceu, e com ela a pororoca. O alento é que outros rios (no próprio Amapá, Pará e Maranhão), mesmo em menor escala, ainda são passíveis de terem este fenômeno observado.

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sobre o autor

Henrique PecinattoAprendiz nível II de Físico, que em minha escala significa "falta muito para entregar a dissertação". 30/49 amazonense e apaixonado por esportes. Um curioso por natureza e da natureza, acha engraçado o caminhar das formigas, e amante de ímãs, mas tem um certo temor de eletrodinâmica.