Por quem doura a praia

Em 15 de junho de 2017 às 08:00, por Otoni Mesquita.

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Inicialmente me perguntaram por que Dourada? Expliquei que quase diariamente, o lugar é iluminado pela luz do pôr-do-sol, com seus tons amarelos e dourados. Vimos o belo sol deitar sobre a mata, revelando inúmeras silhuetas que se divertiam sob sua luz.

Depois, comigo mesmo, refiz a pergunta, parodiando antigo clássico do cinema e perguntei: Por quem doura a praia? Como resposta, eu mesmo recorro a outro clássico que diz: O sol é para todos. Ainda que eu não queira concordar com esta resposta, é preciso lembrar que realmente a luz do sol é regida por um princípio natural, indiferente de quem o recebe. Independentemente de ser amado, ele se entrega completamente, ainda mais tarde, possa vir cobrar com juros e correção. Veremos, talvez.

Quase diariamente, ele surge altivo, é visto e sentido pela maioria, mesmo por aqueles que se aproveitem dele apenas para exibir o brilho de suas moedas, seus barcos ostentosos, seus corpos dourados artificialmente, ou simplesmente usufruem de sua claridade para impressionar ou caçar um par, ainda que por tempo reduzido. Ele se apresenta, mesmo para aqueles, que não são capazes de ouvir e sentir a maior parte das coisas, pois se encontram adormecidos ou nocauteados por condicionamento massivo, perante os aparelhos de TV ou pela sonorização vulgar e ruidosa, muitas vezes, estimulados pelo excesso de álcool e outros estímulos consumistas.

Apesar de se entregar, o sol não é para todos. Ainda que muitos possam dele usufruir. Devo dizer que o sol é daqueles que o amam, daqueles que o sentem e o veem. Ele não se vende para aqueles poderosos, os privilegiados com seus grandes ganhos financeiros, nem se submete ao poder das dinastias, ainda que muito remotas. Ele pertence aos que o amam, aos que a ele se entregam sem esperar nada em troca. É das crianças, sobretudo daquelas que temem o escuro da noite. Aquelas que brincam ao sol como se fizessem parte deles, fazendo de sua luz um alimento de alegria que as conduz pela vida. É do trabalhador, que mesmo não sendo o dono da terra, e muitas vezes, sofrendo sob o calor causticante, é ele que aduba a terra com o seu próprio suor, cuida, planta, rega e colhe, fazendo com que outros enriqueçam com as gotas do seu suor.

Apesar do autoritarismo da engenharia, com seus cortes retos e profundos, mudando a paisagem com seus planos geométricos e contrastante com a natureza. Apesar das ações mercantilistas do comércio e da economia, ignorarem completamente as práticas e a naturalidade do lugar, não conseguem fazer dele, mais um de seus escravos. Tão compenetrados em seu pragmatismo ganancioso, não são capazes de tirar deles a energia necessária e preferem erguem império de produtos nocivos coisas envenenadas.

sobre o autor

Amazonense, artista visual e historiador da cidade. Gosta de literatura, música, cinema e fotografia. Não dirige, mora no centro da cidade. Nada no Nacional e anda pela cidade olhando e fotografando pequenas coisas.

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