Por que a História provoca medo?

Em 23 de agosto de 2016 às 08:00, por Kátia Couto.

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Nos últimos dias dois editoriais publicados um na Folha de São Paulo e outro no Jornal O Estado de São Paulo, intitulados “Formação de quadrilha” (Demetrio Magnoli, 25/06/2016, Folha de São Paulo) e “O lugar de Dilma na História” (Editorial Estadão, 14/06/2016) fazem uma crítica ao coletivo Historiadores pela Democracia que congrega professores historiadores de diferentes correntes teóricas, políticas e ideológicas. São professores reconhecidos nacional e internacionalmente, de diferentes instituições públicas e privadas do Brasil.

Em um momento em que a disputa pela memória histórica referente a um processo político conturbado, os argumentos utilizados nos editoriais é uma prédica consciente de impingir sobre a História e sobre aos que a ela se dedicam uma conotação pejorativa de “quadrilha” uma vez que para profissionais de outras áreas é impossível se pensar ou falar de uma História do tempo presente. Qualquer posição ou manifestação sobre a política atual, dos profissionais de História é vista como manifesto ideológico e partidarismo.

A História não é um campo neutro e nunca foi, pensar dessa forma é encobrir a perspectiva de que falamos de um lugar, há historiadores que tem se manifestado a favor do impeachment, fazem críticas ao movimento “historiadores pela democracia”, ou seja, falam de um lugar que é o lugar de um historiador com uma perspectiva política e social que tem um campo específico, ou de classe, ou de caráter ideológico. A grande questão é que os fatos incisivos sobre o momento presente são mascarados para fortalecer argumentos conservadores, inconseqüentes sobre uma política social que atenda e inclua em seus projetos as classes menos favorecidas.

A idéia de progresso a qualquer custo é o argumento de defesa dos que apóiam o impeachment, receiam uma igualdade de direitos, temem o processo de descolonização das mentes trabalhadoras, acreditam na meritocracia. Estão afiliados a um passado de privilégios das classes dominantes, detentoras de um saber e um poder “capazes de conduzirem” as classes menos favorecidas a um sentido de sociedade em que o esforço individual remete à grande diferença no sucesso ou no insucesso dos indivíduos. Qualquer política social de inclusão é vista como “esmola”, incentivo à preguiça. O indivíduo basta a si mesmo e só alcança o “sucesso” mediante seus esforços, neste caso o Estado é alegórico e não necessita criar políticas públicas de incentivo, mesmo em uma sociedade desigual como a brasileira.

Esse mesmo Estado que é criticado por gerar condições de inclusão social para negros, indígenas, mulheres, mediante a luta e reivindicações dos Movimentos Sociais, legítimos agentes das ações e mudanças ocorridas nos últimos anos é utilizado também pelas elites para manterem seus privilégios, como ficou demonstrado que o uso da Lei Rouanet e seus recursos tinha como beneficiários, empresários que professam ideologia política ligada à direita e não à esquerda como pensavam os que se manifestam pela saída da Presidenta Dilma.

O próprio processo do impeachment para que fosse aberto, foi encomendado por um valor de quarenta e cinco mil reais, valor declarado pela advogada Janaina Paschoal no Plenário do Senado, quando esta defendeu a abertura do processo. A inconsistência dos fatos e dos argumentos que poderão promover o impeachment da Presidente Dilma Rousseff parecem não ser importantes, o que tem prevalecido é uma birra política que coloca em xeque a própria Democracia, jovem e pouco prestigiada no Brasil.

A História mais uma vez entra nesse campo de batalha por ser a responsável justamente por analisar e revelar os fatos, apresentar fontes e nesse sentido tudo que se revele para além do domínio das classes dominantes requer uma reação ao domínio da Democracia. O projeto “Escola sem Partido” que também tem sido chamado de “lei da mordaça” busca instituir uma educação em que análises e críticas sociais, inerentes ao próprio fazer histórico, sejam proibidos em sala de aula. Teóricos como Marx devem ser abolidos das aulas de História, aulas que discutam gênero e feminismo também serão proibidas, caso o projeto se torne realidade. Basta saber se é somente a ideologia de esquerda que faz doutrinação política? E a ideologia de direita? E a doutrinação de estudantes para tornarem-se trabalhadores autômatos que obedeçam a todas as regras de um capitalismo altamente excludente e explorador. O presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria) Robson Braga de Andrade disse que para o governo recuperar seu déficit fiscal será necessário tomar medidas duras quanto a Previdência Social e sobre as horas de trabalho, passando de 40 horas semanais para 80 horas semanais.

Assistimos a uma trágica polaridade onde todos que defendam direitos básicos, conquistados ao longo da História do Brasil, pela classe trabalhadora, sejam taxados de esquerdopatas e doutrinadores. O próprio presidente da CNI usou o exemplo da França, onde se discute também mudanças trabalhistas, para enfatizar a necessidade de que as reformas também se efetivem aqui no Brasil. Duas realidades completamente diferentes, que não cabem comparações. A idéia de que o Brasil não é competitivo esbarra na velha imagem de que é necessário seguir algum modelo europeu para que a mudança aqui seja real, para que o país se torne competitivo no âmbito internacional. Na verdade, o governo Lula em seus dois mandatos mostrou que essa idéia é arcaica e pouco “produtiva”, pois ao estabelecer novas parcerias comerciais com a região “sul-sul” expôs que é possível novas relações comerciais, fortalecer a economia brasileira e fazê-la crescer.

A educação nunca esteve tão evidente nos governos Lula e Dilma. A criação de Centros de Ensino Tecnológico e de Universidades tem se mostrado imprescindíveis para o crescimento brasileiro. Deve-se enfatizar a criação de universidades no Nordeste, Centro-Oeste e Norte do país, não só gerou uma política de inclusão nessas regiões, mas demonstrou o quanto a capacitação educacional dos jovens dessas regiões é fundamental para que o Brasil se desenvolva. Através da educação é possível expor um outro Brasil, capaz, dinâmico, audacioso, com uma juventude sedenta por mudar sua realidade.

Creio que com esse debate, através do processo de Impeachment; a polarização, expôs o quanto no Brasil a Democracia é carente e frágil. A política que se tem feito é uma política de aparências, uma vez que os discursos não tem correspondido à prática. A corrupção envolve todos partidos, empresários e poderes governamentais, o jeitinho brasileiro é utilizado da pior forma possível e nada tem a ver com a criatividade cultural que é inerente ao povo brasileiro. Trata-se de um aviltamento às regras estabelecidas principalmente no que tange à Constituição, onde cada um interpreta as Leis da forma que melhor lhe aprouver, sem compromisso moral e ético para com a sociedade. As Leis sempre foram mais avançadas do que a efetivação de sua prática, pois a sua aplicação segue interesses de classe e está diretamente ligada à relação de poder, por isso a frase “sabe com quem está falando?” ainda funciona tão bem por aqui. A mentalidade das elites do Brasil e conseqüentemente da classe média é refém de um imaginário aristocrático, com uma herança escravocrata que teima em ser revitalizada com outros sentidos e simbologias.

Mais do que partidos ou ideologias o que tem sido clamado pelos movimentos sociais nas ruas é o fim desse estado de privilégios, que sustenta um sistema político corrupto, uma justiça que se ausenta de uma efetiva aplicação das Leis em paridade de igualdade de direitos e deveres para todas as classes; o fim de um extermínio social de populações afros e indígenas, mais educação, mais saúde… Isso não tem nada a ver com Ideologia, mas sim com Democracia. Penso que o medo fomentado pela memória histórica, que pode provocar uma radicalização onde não se permitirá pensar diferente, ser diferente, é conseqüentemente retroagir no tempo, impedindo o diálogo, a busca de alternativas, a construção de um novo tempo onde o imperativo do Eu dá lugar ao imperativo do Nós, onde todas as vozes possam partilhar dessa construção. Isso é possível! É necessário tentar, pois o contrário de Democracia é ditadura.

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sobre o autor

Articulusta-Katia-CoutoGoiana, professora, dedica-se a temas como migração, memória, identidade e cultura. Gosta de viajar pelos livros, pelas artes e pelo mundo.