Ponte da Bolívia, Tarumã e alguns balneários aprazíveis

Em 14 de março de 2019 às 08:00, por Lúcio Menezes.

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Eu pensava que a Ponte da Bolívia ficasse no país andino de mesmo nome, coisas de menino que ainda não tinha assistido às aulas de geografia do professor Cascais, no Colégio Brasileiro.

Sonhava com o dia em que pudesse lá chegar e pisar em solo internacional – um Barezinho em terras da República que um dia se chamou Bolívar. Achava bonito o som das flautas, cafona as mantas coloridas e estranhas as mulheres de roupas rodadas com chapéus nada femininos; pra mim pareciam mães de santo, mas e daí? Importava que eu ouvisse idioma diferente do meu, sentisse o frio que por essas bandas não fazem tour e ver a neve só sabida por revista e filme.

Quando lá cheguei pela primeira vez foi frustrante, me senti enganado por mim mesmo. Olhei pra aquela ponte com desdém, achei-a mixuruca, perto demais de Manaus, sem contar que não vi no trajeto uma placa sequer de “Bienvenido”. Olhei pra cara dos frequentadores e me dei conta que não havia saído de Manaus, estava no Igarapé do Quixó.

Pra não apresentar meu atestado de ignorância fiz de conta que minha expectativa não comportava frustração – desconheço o porquê e como, mas eu sempre sublimei velozmente o que me incomoda. Pus-me em direção a água, me encantei com a sua limpidez e com o sorriso das crianças a nadar com e sem boias na gélida água.  Nadei, fiz xixi dentro d’água, fiquei com os dedos roxos e engelhados e, quando saí, convicto de que a Bolívia não era ali, sabia que lá voltaria, pra saltar, nem que fosse em pé, da Ponte n’água.

Já crescido voltei outras vezes, sozinho e acompanhado, pra nadar, comer peixe assado e namorar. Nunca me atrevi a saltar de cabeça, essa proeza eu deixei para um cara de nome Inácio, filho do dono do pequeno restaurante de madeira, Seo Carrilho, que o fazia com a maestria do Johnny Weissmuller, o melhor dos Tarzans.

A Ponte sobre o Igarapé do Quixó é conhecida como Ponte da Bolívia, graças ao nome do Restaurante, “Ponta da Bolívia”, tudo porque o pai do Inácio decidiu homenagear um assíduo frequentador boliviano de nome Hernan Suarez; não sei hoje, mas até a bandeira daquele país tinha pintada na parede do restaurante. O Tarzan tupiniquim tornou-se delegado de polícia, trocou os saltos olímpicos realizados desde a ponte pra cuidar dos que, por razões delinquentes, acabam presos por dois aros nada olímpicos.

Menino, eu frequentei o antigo Caiçara Clube, hoje Manaus Plaza Shopping. Gostava de assistir as disputadas partidas de futebol de adultos, a areia era alva como a neve que imaginei encontrar na Ponte da Bolívia; o campo tinha dimensões menores que os oficiais – confirmadas quando, no alvor dos meus vinte anos de existência, eu pude dele usufruir. O Caiçara era banhado pelas águas escuras e cristalinas do Igarapé do Mindú. Lembro com angústia quando, na adolescência, ainda sem discernir a sua gravidade, presenciei o início do processo de degradação do meio ambiente que o protegia e a poluição desse principesco Igarapé, tudo isso durante a construção do Conjunto Residencial Vieiralves. Desde as suas nascentes – são três – localizadas no Bairro Cidade de Deus, Zona Leste de Manaus, são vinte e dois quilômetros de extensão a cortar mais de dez bairros da nossa cidade. A Prefeitura Municipal de Manaus cuida do Parque Nascentes do Mindú, por isso ele ainda não morreu, mas está condenado. Ao longo desse trajeto, os filhos predadores desta terra perpetraram tanta barbárie contra o extenso e serpenteante igarapé, que a comparação da nascente com a jusante é de chorar. Mesmo com “enfermidades” de toda ordem – lixo, esgoto sanitário e margens densamente ocupadas por populações carentes -, o Mindú continua a cumprir sua sina até se libertar ao desaguar no majestoso Rio Negro.

Assim como o compositor Torrinho proclamou em versos musicais sobre Manaus: “Porto de lenha tu nunca serás Liverpool…”; nossos governantes e nossa gente decretaram: Mindú, tu nunca serás Tamisa.

Sobre cumprir sina, diz magistralmente o gaúcho Charles Arce em sua música “Da Sina do Rio”: “Pra quem tira o pão das águas, o rio é mais que querência, ele é o porvir de seus filhos, razão de sua existência, disputa de peixe e homem com a vida por um fio, são os mistérios de Deus, esta é a sina do rio…”.

Tenho vagas lembranças das poucas vezes em que fui ao Balneário do Parque Dez e muitas e boas das tantas em que passei com pais, tios, irmãos e primos, no Fazendário Clube. Saudades eu guardo dos “banhos” do Seo Cordeiro e, principalmente do vizinho, Seo Edílio, pai do Evandro Farias, de memoráveis peladas e banhos reparadores. À Cachoeira do Tarumãzinho só fui pra tirar fotos e levar amigos turistas.

A fase da outra Cachoeira, a do Tarumã, foi de muito viola, cantoria, peixadas, cervejas geladas, caipirinhas; de pileques curados e beijos molhados embaixo do caudal despejado sobre a minha cabeça de ressaca carnavalesca, ou cheia de desejos, às vezes com instintos de boto sedutor, às vezes primitivos.  Ali vi o sol nascer uma dezena de vezes, noutras acompanhei turistas, também ri a valer, como naquela em que o amigo Jorge Haddad resolveu encarnar o cantor Altemar Dutra e soltou a voz: “… Que culpa tenho eu, se tudo se perdeu, se tu quiseste assim, então que querem tu de mim…”. O “querem” do Haddad foi a senha pra uma gargalhada coletiva interminável minha e dos colegas de Faculdade: Jerry John Ferreira Fonseca, Maria Tereza Elias Bichara, Lúcia, Paulo Cavalcante… O Jorge Haddad que virou Jorge Abrahão não sabe, mas até hoje quando o vejo não me contenho e canto baixinho “… então que querem tu de mim…” . O transporte ao túnel do tempo sempre me risca um sorriso travesso com veste juvenil.

No antigo Banho dos Padres, vizinho do Muruama Clube de Campo e do “Banho Meu Cantinho”, acampei, nadei, joguei futebol, namorei, cantei MPB e até o Hino de São Francisco com a turma da JUFRA – Juventude Franciscana, lá dá Igreja de São Sebastião. Íamos e voltávamos de ônibus. Como era longe o Banho dos Padres! Como ficou próximo o agora Motel Le Baron!

Diz-se por estas bandas que banhar-se nas águas dos rios da Amazônia desperta a libido dos nativos e inebria os forasteiros. Parece que o componente mágico mora no cauxi – espículas de esponjas de água doce não cristalina (sedimentos) – que fica na pele da gente, permitindo que possamos risca-la com as unhas sem feri-la. Estudos indicam que podem causar irritação nos olhos. Nos meus nunca experimentei inconveniente, mas no desejo carnal sou “vitima” reincidente.

Ih! Faz tempo que eu não tomo banho de rio nem de cachoeira! Valei-me! Vá ver que é isso que está a me faltar. Fui!

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sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.