Pesquisa Histórica no Amazonas: uma breve análise (II)

Em 10 de setembro de 2016 às 08:00, por Hélio Dantas.

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Citando-se o caso específico do Amazonas, através de uma revisão da produção historiográfica no estado, conforme iniciada em texto anterior, pode-se ilustrar muito bem essa incorporação da seguinte maneira: o curso de História da Universidade Federal do Amazonas só iria consolidar-se plenamente nos anos 1980; desse modo, as pesquisas autóctones sobre a região só foram surgir justamente quando acadêmicos egressos das primeiras turmas de graduação foram realizar seus estudos de pós-graduação em universidades do sudeste; o contato com essas novas abordagens que estavam em pleno debate nessas universidades levou a uma orientação específica de pesquisa.

Pesquisas essas que tinham um forte caráter revisionista da história da Amazônia, fazendo forte contraponto a uma historiografia tida como tradicional, afiliada ainda aos ditames do IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro) e que privilegiava uma abordagem política, econômica e administrativa da história da região, praticamente ignorando aqueles que seriam a maior parcela da população amazônica, os indígenas, que, quando apareciam, eram sempre retratados por essa historiografia como sujeitos passivos e secundários em uma historiografia que privilegiava as ações de governantes, militares e religiosos.

Não foi à toa que em 1991 foi publicada uma coletânea de textos intitulada A Amazônia colonial: 1616-1798, organizada pelo prof. José Ribamar Bessa Freire e que reunia textos de alguns dos alunos das primeiras turmas do curso de História da UFAM. Essa pequena obra explicitava bem a proposta revisionista e crítica, de caráter engajado e combatente, a favor dos silenciados e excluídos da história da Amazônia.

Entretanto deve-se frisar que o primeiro trabalho que encaminhou a análise nesse sentido foi a Dissertação de Mestrado de Edinéa Mascarenhas Dias, Manaus – A Ilusão do Fausto (1890-1920), defendida em 1988 na PUC/SP. A historiadora paraense radicada em Manaus, ao analisar um tema muito recorrente na historiografia tradicional, o período do auge da economia da borracha, demonstrou como funcionou a política de organização e disposição do espaço físico e seus mecanismos de controle, expropriação e dominação dirigida aos trabalhadores. A população pobre, os desempregados, assim como os trabalhadores em geral, foram segregados às zonas mais distantes do centro da cidade, ressaltando que na elaboração dos projetos que seriam executados para as reformas urbanas, as estratégias estabelecidas foram amplas, compreendendo uma política de separação e isolamento desses segmentos em bairros distantes da área central da cidade.

A Ilusão do Fausto descortinava outro lado da cidade de Manaus, saído das sombras da Modernidade: os trabalhadores que foram aos poucos afastados do processo de modernização e urbanização realizado no centro da cidade, empurrados para os arredores onde usufruíam pouco ou quase nada de luz elétrica, redes de esgoto, transportes urbanos e abastecimento de água, entre outros serviços que modificaram o espaço físico, mantendo inalterada a perspectiva política dos administradores locais que não planejaram a distribuição desses recursos para os menos favorecidos.

Desmistificando o discurso presente na historiografia corrente sobre uma Manaus pomposa ocupada pelos donos do poder e insuflada por uma Modernidade que alcançou a cidade somente ao meio, visto que a outra metade foi privada de sua ação, impondo aos setores populares a desocupação dos espaços considerados privilegiados, isto é, destinados à elite local, a historiadora mostrou que os trabalhadores urbanos rebelaram-se e reclamaram os seus direitos de desfrutar deste espaço urbano, como também exigiram a diminuição da carga horária de trabalho e o fim do controle sobre a sua produção, processando-se nessas circunstâncias as contradições, os confrontos e as greves.

Explicitamente abraçando a perspectiva teórica de E. P. Thompson, trouxe ao debate questões até então esquecidas pela historiografia tradicional, tais como as condições de existência da classe trabalhadora urbana e os mecanismos de controle a que foram submetidos todos os desfavorecidos socialmente.

Dentro da mesma temática, Maria Luiza Ugarte Pinheiro, em minuciosa investigação, tratou das tensões que marcaram a passagem dos estivadores manauaras no decorrer de aproximadamente quatro décadas na dissertação A Cidade Sobre os Ombros: trabalho e conflito no Porto de Manaus (1899-1925), defendida em 1993 na PUC/SP. Para a autora, embora os trabalhadores, em especial os estivadores em Manaus, tenham vivido entre as práticas de “dominação” e “cooptação”, não aceitaram passivamente as normas de conduta impostas pelos poderes públicos para mantê-los sob controle. Suas trajetórias não poderiam ser caracterizadas como um “rosário de derrotas”, mas como um longo período de lutas e conquistas.

Fazendo uso do conceito thompsoniano de classe, a pesquisa descortinou criteriosamente o lado oculto da classe trabalhadora, não priorizado na historiografia do Amazonas de então: os estivadores entraram em cena como sujeitos ativos, arquitetos de “sua própria história”, no bojo das mudanças ocorridas à época e não como “meros joguetes nas mãos dos setores dominantes”.

Francisca Deusa Sena da Costa, na dissertação Quando Viver Ameaça a Ordem Urbana: trabalhadores urbanos em Manaus (1890/1915), defendida também na PUC/SP em 1997, retomou algumas das reflexões feitas por Edinea Dias, especialmente a segregação dos trabalhadores do espaço público, dialogando com Raymond Williams e Edward Thompson. Ao tratar de experiência e cultura operária, contrapôs-se à análise anterior no que diz respeito à circunscrição dos trabalhadores à periferia de Manaus, constatando que a Manaus ideal e a Manaus real existiram concomitantemente. O trabalhador e outros segmentos populares habitaram o centro e os limites do perímetro urbano. Eles aí se mantiveram em maioria, segregados não do espaço físico, mas da visibilidade pública. A pesquisa preocupou-se com o dinamismo dos atores sociais, revelando que os trabalhadores e outros segmentos sociais populares que se tentou segregar reagiam a tal processo e eram visualizados como transgressores da ordem urbana.

As pesquisas desenvolvidas nessa década não privilegiaram somente o período republicano, onde estaria os primórdios do movimento operário amazonense, mas, justamente por partir do conceito expandido de classe social em Thompson, reavaliaram os períodos colonial e imperial, buscando recuperar as trajetórias dos trabalhadores e subalternos. Em 1993, na UFF, Patrícia Melo Sampaio defendia a dissertação Os Fios de Ariadne: tipologia de fortunas e hierarquias sociais em Manaus: 1840-1880. Tendo como objeto de estudo a escravidão negra em Manaus (1840-1880), a autora demonstra que, ainda que a mão-de-obra escrava africana fosse relativamente escassa, teve contribuição essencial para a formação das fortunas em Manaus. A pesquisa questionava, assim, uma das visões cristalizadas pela historiografia “tradicional”: a de que a contribuição africana na Amazônia teria sido nula.

Em 1995, duas outras dissertações de pesquisadores saídos dos quadros da Graduação de História da UFAM viriam à luz. Na USP, Francisco Jorge dos Santos defendia um trabalho pioneiro que se debruçava sobre a temática indígena na Amazônia colonial, focalizando na “resistência” à colonização portuguesa. Guerras e rebeliões indígenas na Amazônia na época do Diretório Pombalino (1757-1798) buscava mostrar a contestação por parte de diversos povos indígenas em face da expansão portuguesa na Amazônia, no séc. XVIII, mais especificamente, no período do Diretório Pombalino.

Investigando a legislação pombalina e entendendo as guerras e os levantes indígenas como a materialização da “resistência” indígena à colonização, o autor observa como os Mura, Mundurucu e diversos povos do rio Negro se insurgiram contra a ordem estabelecida, demonstrando, dessa forma, serem agentes de sua história.

No mesmo ano, na PUC/SP, Hideraldo Lima da Costa apresentava a dissertação Cultura, trabalho e luta social na Amazônia: discurso dos viajantes – século XIX, que buscava investigar, nas entrelinhas dos relatos de viajantes e naturalistas que passaram pela Amazônia no séc. XIX, pistas sobre o mundo do trabalho e seus conflitos e lutas na Amazônia imperial. Por fim, em 1998, Luís Balkar Sá Peixoto defendia na PUC/SP a tese que apresentava uma visão nova sobre a maior revolta amazônica do período imperial, a Cabanagem: Nos subterrâneos da revolta: trajetórias, lutas e tensões na Cabanagem.

Buscando recuperar trajetórias e tensões diferenciadas no interior da Cabanagem, o trabalho rompe com tradicionais visões uniformizadoras do movimento cabano, apresentando-o como heterogêneo e multifacetado. Investiga a composição das fileiras rebeldes a partir das listas de prisioneiros, tomadas como base para compreensão das ações insurgentes e propõe uma revisão geral dos significados até então atribuídos à rebelião. Acompanhado as contradições internas que segmentavam a opunham facções distintas nos grupos dominantes na sociedade do Grão-Pará, questionou o conteúdo nativista e regionalista trazido ao movimento pelas lideranças “brancas” de proprietários e fazendeiros, salientando suas limitações quanto a possibilidade de incorporação das demandas oriundas dos segmentos populares. Analisando autonomamente a multiplicidade da ação popular insurgente, não as enquadrando como manifestações espontâneas, instintivas e inconsequentes, propondo entendê-las como o resultado de deliberações autoconscientes, onde tanto o tipo de ação empregada quanto os alvos escolhidos nessa ação, derivavam diretamente das contradições alicerçadas na base das relações de opressão e controle social cotidianamente experimentadas pelos segmentos populares da sociedade amazônica.

A revisão de toda essa produção sobre a região é salutar, pois mostra justamente como esses historiadores autóctones estavam empenhados numa história engajada, combatente, que mostrava uma clara empatia com “os de baixo”, com os esquecidos, ignorados pela historiografia de cunho continuísta e elitista que vinha sendo produzida sobre a região. Praticamente todas as pesquisas acima citadas fazem uso do instrumental metodológico postulado pela escola inglesa de história sociocultural. E. P. Thompson, E. Hobsbawn, R. Williams e G. Rudé, todos esses historiadores tinham seus estudos evocados e citados nessas pesquisas; seus pressupostos da “história vinda de baixo” que buscava perceber as classes populares não como agentes passivos, mas sim ativos, com consciência de suas atitudes e das atitudes dos que os oprimiam.

É inegável que o sopro de revitalização que as pesquisas dessa geração pioneira trouxeram para a historiografia sobre a Amazônia, que frutificou em uma pesquisa histórica autóctone que caminha com as próprias pernas, se consolidando no estabelecimento, em 2006, do Programa de Pós-Graduação em História na UFAM, cujo quadro de professores é composto em sua maioria por essa geração de pesquisadores. Pesquisas estas que, no atual momento, servem como balizas para novos desdobramentos investigativos e também como balizas metodológicas, seguindo a orientação inicial de uma História Social que busca resgatar os silenciamentos e exclusões de uma história oficial. Reforçando o que já foi dito: o campo de possibilidades de pesquisa sobre a região está aberto; há muito trabalho a fazer.

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sobre o autor

Articulista Hélio DantasProfessor de História em Manaus há 11 anos. Coordenador do Centro de Documentação do Colégio Amazonense D. Pedro II. Historiador, atuando na Secretaria de Estado da Cultura do Amazonas na Gerência de Patrimônio e Museu do Teatro Amazonas. É autor do livro Arthur Cézar Ferreira Reis: Trajetória Intelectual e Escrita da História (Paco Editorial, 2014). Tem particular interesse pela História dos Intelectuais e da Educação no Amazonas.