Pesquisa Histórica no Amazonas: uma breve análise (I)

Em 24 de agosto de 2016 às 14:27, por Hélio Dantas.

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Sentando-se diante de um computador com acesso à internet, para uma visita ao site do Governo do Estado do Amazonas em busca de informações sobre este Estado da Federação, descobrir-se-á que ele é “um Estado singular, privilegiado pela natureza, uma terra de superlativos que conta com uma sociedade dinâmica e moderna, cuja gente simples e hospitaleira vive e trabalha calcada na milenar tradição em lidar com o meio ambiente de forma harmônica e sustentável”. Ainda no site, constata-se que neste pacífico paraíso natural “o elemento indígena foi aos poucos absorvendo as influências africanas e europeias, particularmente de portugueses e espanhóis, além de outras correntes migratórias que vieram contribuir para o cadinho amazônico. Daí o amazonense refletir em sua cultura manifestações tão distintas umas das outras como o ritual da Moça Nova, realizado na região do alto rio Solimões, o Festival Amazonas de Ópera, apresentado no suntuoso Teatro Amazonas, em Manaus, e o carnaval de rua, que acontece praticamente em todas as sedes municipais (…) a cultura amazonense vem se renovando e se adaptando aos tempos da globalização, sem, no entanto, perder sua essência e dinamismo”.

Avançando-se nos diversos links, verifica-se importante dado: do “processo secular” de formação do “povo amazonense”, resultou “um tipo humano singular, o ribeirinho, herdeiro das tradições, usos e costumes da cultura indígena, europeia e africana”.

No afã de apresentar a história do Estado, evidencia-se que a ocupação humana da região remontaria a mais de 10.000 anos, com populações que conseguiram desenvolver um sofisticado padrão social, a “cultura da floresta tropical”, cultura esta que sofreu uma grande “transformação” com a chegada do europeu, que no processo de conquista promoveu um verdadeiro “holocausto” e escravização dos povos indígenas, mas não de forma passiva: o “robusto, forte e corajoso Ajuricaba dos Manaus” defendeu seu território, tornando-se “o primeiro herói do povo amazonense”.

E mais: a região do atual estado foi palco de uma revolta dos “ribeirinhos de toda a região” – a Revolta dos Cabanos – que buscou “instalar um governo que privilegiasse os anseios da população em detrimento dos interesses da elite de origem portuguesa, visando ao desenvolvimento regional”. Por fim, depois de haver passado por um “aquecimento” econômico em finais do séc. XIX e início do XX, e atravessado mais de 40 anos de crise, teve sua economia reerguida com a criação e consolidação da Zona Franca de Manaus, garantia de “bem-estar social de sua gente, com sustentabilidade ambiental e comprometimento com o futuro”.

Cabe aqui uma interrogação: a história do Amazonas, sempre foi vista assim? Afirmações como as que se encontram no site do Governo do Amazonas, que parecem amplamente difundidas no senso comum, em que momento foram formuladas?

Partindo dessas questões, o objetivo deste artigo é realizar uma revisão da produção historiográfica sobre a Amazônia, em duas partes, buscando localizar o momento em que os “excluídos”, os “vencidos” e “os de baixo” passam a ser levados em consideração pelas pesquisas históricas sobre a região.

Obviamente, se há um momento em que a historiografia sobre a região passa por um redirecionamento para outras abordagens temáticas, pode-se então contrapor esse novo momento a uma produção anterior que teria outros interesses. Para tanto, parte-se inicialmente de uma breve análise do desenvolvimento da pesquisa histórica no Brasil.

Pode-se dizer que a renovação metodológica e temática na historiografia brasileira é recente. Se até meados da década de 50 tínhamos uma vasta produção de cunho não acadêmico que remontava a meados do séc. XIX, focada em grandes ensaios de enfoque sociológico, de interpretação da história e da cultura brasileira (a busca de compreender um “caráter nacional brasileiro”), feitos em sua maioria por intelectuais sem formação histórica stricto sensu, a partir da década de 1970, ocorre uma maior especialização, com a consolidação e ampliação dos cursos de história no país, principalmente nas universidades do Sudeste. Contudo, ainda se tem nesse período (e até meados dos anos 1980) uma produção que privilegia principalmente estudos de História política tradicional de viés economicista.

A elaboração de novas questões, de novos campos de investigação e de uma releitura dos documentos e da exploração de novas fontes, somente será verificada em finais dos anos 1980 e ao longo dos anos 1990, com a plenificação da abertura política decorrente do fim do regime militar e da incorporação, na historiografia nacional, de debates vindos da Europa que remontavam às décadas de 1960-70, principalmente as de origem francesa, relacionadas à Nova História, e as de inflexão neomarxista vindas da Inglaterra.

Se Eric Hobsbawn identifica o surgimento de um interesse no estudo específico da história das “pessoas comuns” no início do séc. XIX com a obra de Michelet, que buscava identificar o verdadeiro protagonista dos acontecimentos, o “povo” francês, os portadores da identidade da nação, contudo, seria somente a partir da década de 1960 que, no círculo de intelectuais marxistas ligados à revista britânica New Left Review, um dele, Edward Palmer Thompson, numa postura revisionista, proporia a superação do viés economicista e mecanicista da análise marxista que desconsiderava a realidade empírica. Conservando a análise classista do marxismo, Thompson, juntamente com outros intelectuais ligados à revista como Georges Rudé e Raymond Williams, ampliou o conceito de classe social, que era ligado estritamente às formas de produção, para uma análise mais geral dos subalternos, dos homens comuns, que partiria da própria percepção desses indivíduos do processo histórico: seria uma “história vista de baixo”, conforme o título de seu seminal artigo publicado em 1966.

Caberia então ao historiador rever as fontes já conhecidas e buscar compulsar novas fontes que pudessem esclarecer ao máximo, com pistas e informações, a história dos “de baixo”, quase sempre silenciada e escondida sob o manto de uma história oficial. Thompson esclarece bem esta proposta metodológica no prefácio de seu livro publicado em 1975, Senhores e Caçadores, um estudo sobre os salteadores das florestas reais da Inglaterra, os negros (que ficaram assim conhecidos por serem alvos da Lei Negra); dez anos depois da publicação de A Formação da Classe Operária Inglesa, essa abordagem parecia estar bem “amadurecida”. Para Thompson, a experiência é um ponto de partida, um referente de onde se parte para construir o discurso historiográfico. Este discurso, embora tenha que se deparar com as dificuldades trazidas pelo desaparecimento de grande parte da documentação judicial sobre os negros e de dispor de poucos e esparsos relatos sobre suas peripécias nas florestas reais, pode ser capaz de recuperar esta experiência perdida, até então, para a História. A experiência dos negros, para o autor, dá acesso a uma realidade do séc. XIX na Inglaterra.

Para tanto, bastaria ler a documentação oficial existente com um olhar diferenciado, um olhar que estava presente em muitas destas próprias fontes, um olhar vindo de baixo. Sua análise conseguiria superar o caráter fragmentário daquela experiência, e conseguiria dar uma visão da unidade e da totalidade de tal experiência, do que nela teria sido essencial para a sua época e, o mais importante, do que nela continuaria sendo essencial para nós, ou seja, o fato de ser ela a expressão da luta de classes, da capacidade do povo de se revoltar e construir territórios culturais próprios, da capacidade humana de, com certa práxis, desmascarar a ideologia que sustenta o poder, que mascara a sua verdadeira face de defensor dos interesses dos proprietários.

Na produção historiográfica sobre a Amazônia, os impactos dessas novas abordagens só seriam notados e efetivados muito tempo depois. Na verdade, a historiografia brasileira dedicou pouca atenção ao estudo da Amazônia. Até meados da década de 1970, foi preponderante a expressão da obra do historiador amazonense Arthur Cézar Ferreira Reis sobre a região. O conjunto de seus estudos, que vinham desde a década de 1930, transpôs os limites regionais e recebeu reconhecimento no círculo intelectual brasileiro, transformando-se em referência para as subsequentes pesquisas sobre a Amazônia. O foco de Arthur Reis era o passado colonial da Amazônia, e a formação da região, preocupando-se, sobretudo, com a atuação administrativa civilizadora dos portugueses na região. A partir da década de 1970 se dá uma expressiva evolução da produção historiográfica sobre a história da região, tanto em obras de caráter mais abrangente quanto em obras mais específicas, mas é somente a partir dos anos 1990 que iria efetivamente ser incorporada à produção historiográfica sobre a Amazônia a abordagem da “história vista de baixo”. Abordaremos essa questão em nosso próximo texto.

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sobre o autor

Articulista Hélio DantasProfessor de História em Manaus há 11 anos. Coordenador do Centro de Documentação do Colégio Amazonense D. Pedro II. Historiador, atuando na Secretaria de Estado da Cultura do Amazonas na Gerência de Patrimônio e Museu do Teatro Amazonas. É autor do livro Arthur Cézar Ferreira Reis: Trajetória Intelectual e Escrita da História (Paco Editorial, 2014). Tem particular interesse pela História dos Intelectuais e da Educação no Amazonas.