Pedagogia deprimida III

Em 20 de Março de 2017 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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Rubens, ou caruru, onomatopeia com Carlos Rubens, era professor de Língua Portuguesa. Públio seria depois, assim como eu, presidente do Diretório. Estudaria também Direito, seria membro do Ministério Público (até hoje o é) e chefe de gabinete do Alfredo Nascimento, Ministro do Trabalho. Caruru era (e é ainda) dono de uma erudição infinita. Leitor voraz, em todos os segundos de sua vida estava com um livro em suas mãos. Dizem que alguns postes atropelados por ele ainda estão por ai para confirmar. Já o Públio foi o maior orador que vi em toda a minha vida, incluindo o senador gaúcho Paulo Brossard, que na época, dizia-se ser o máximo no Brasil. Oriundo das comunidades eclesiais de base da igreja católica, do bairro da Aparecida, era incrível quando discursava. Foram os principais incentivadores de uma revolta que aderi rapidamente, contra nosso patrão daquele momento.

O fato é que havia uma contradição dialética (adorava essa expressão chique, que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, usávamos com frequência). Nosso discurso libertário no Diretório não batia com nossa prática submissa aos ditames do patrão. Falávamos contra a exploração do proletariado pelos capitalistas e nos deixávamos explorar, pelo patrão ganancioso e oportunista. Entregávamos a ele a mais valia. Ademais estávamos erigindo o Partido dos Trabalhadores, sem patrões, que viria para redimir a nossa pátria mãe gentil. Demos um golpe no cara. Na surdina, alugamos uma casa velha (R. Monsenhor Coutinho) e só o avisamos que estávamos, todos os professores, indo embora, na véspera. Idem aos alunos. E, destes, quase todos nos acompanharam na aventura. Lázaro gostou e veio se juntar a nós. Casa nova, tínhamos que repensar também nossas práticas pedagógicas.

Para darmos certo na indústria de cursinhos, tínhamos que ter muitos alunos e fazer aprovar o máximo, a cada vestibular. Saber marcar as cruzinhas nos lugares certos, era o que importava. Mas para nós – eu, Carlos Rubens, Públio e o Flávio (de química) – era uma oportunidade única de promovermos uma revolução na pedagogia dos cursinhos. Ave, Ave, Paulo Freire!  Nosso paradigma seria a Pedagogia do Oprimido. Método pedagógico e filosofia de ensino criados por este grande brasileiro, que postulava que a educação deveria, antes de tudo, ser uma ferramenta de libertação; que o aprendiz não era um vaso vazio esperando ser enchido, que o processo ensino-aprendizado era uma via de duas mãos e que o modelo vigente apenas reproduzia as contradições de classe, perpetuando-as. Lindo!  Flávio achou que era possível, mas ainda não conseguia imaginar como correlacionar a tabela periódica ou os princípios de Dalton com a Revolução Socialista em andamento. Não era um reacionário, ia ver.  Os demais não deram muita importância àquelas bobagens, mas acho que ficaram curiosos.

Parecia simples: os alunos para aprender sobre o Quinhentismo na literatura brasileira, primeira parte do programa para vestibular, Pero Vaz de Caminha e outros autores do período (século XVI), tinham que conhecer, através do Públio, sobre o que se passava naquele momento no Brasil Colonial e através de mim o que se passava na Europa. Fim do Feudalismo, início dos Estados Nacionais, Reforma Luterana e Contra –Reforma Católica, Renascimento e a Acumulação Primitiva do Capital. O mundo teocentrista se tornando antropocentrista. Moleza. Não tinha como dar errado. Nossos alunos não saberiam apenas marcar cruzinhas nos lugares certos, mas pensar de forma histórico-dialética. Mais soldados para a Revolução. Tudo combinado, vamos às práxis.

Primeira aula da manhã. Caruru ascende ao tablado, se apresenta e explica sua metodologia pedagógica de ensino de Literatura, alicerçada nos sólidos conhecimentos de História do Brasil e História Geral, que os professores Públio e Sardinha com eles estavam compartilhando (ver detalhe importante no verbo compartilhar, não ministrar ou repassar). “Conforme o programa, começaremos vendo o Quinhentismo Brasileiro, que como vocês devem saber, trata-se de, na literatura, reflexo de um contexto histórico específico, cujas contradições fundamentais podem ser observadas na chamada Primeira Carta, de Pero Vaz de Caminha, com o Renascimento Cultural, Urbano e Comercial na Europa, ao passo que aqui no Brasil, inclusive como parte da Contra Reforma Católica, retroagíamos na catequese Jesuítica e rumávamos para o prolongamento do Sistema Feudal, que na Europa começava a se extinguir.”

Nenhuma reação. Caruru, em seu gesto mais característico, penteia, de frente para trás, suas lisas, longas e negras, como as asas da graúna – nunca vi uma, mas acho a citação legal -, madeixas com as mãos e interroga a patuleia ignara: “Falei algo estranho? Vocês já tiveram esses assuntos com o Públio e o Sardinha, não?” Como poderiam, se era a primeira aula, do primeiro dia? Dono, como já disse antes, de vastíssima cultura, certamente sabia, sobre os temas citados, muito mais que eu e Públio juntos. Não se fez de rogado e começou a explicar como tinha se dado a transição da Idade Média e o início da Idade Moderna, mas antes precisava explicar como a Idade Média, com seu modo de produção baseado nas relações servis, base do Sistema Feudal, resultara da fragmentação do Império Romano, infiltrado pelos bárbaros e a ideologia cristã, que por sua vez tinha minado o Sistema Escravista de produção que vigorava há dez mil anos. O que por sua vez, para melhor entendimento, teria seu início na destruição do sistema gentílico, quase cooperativista, prevalente nos primeiros agrupamentos humanos. Coisa aí para 30 ou 40 mil anos atrás, que se extinguiu com o início da propriedade privada. Se a sineta não toca teria chegado ao Big Bang.

Encontramo-nos na sala dos professores e relatou-nos o ocorrido. “Pô, cara! Como não pensamos na sincronização?” Rimos e nos demos conta que era, do ponto de vista operacional, absolutamente inviável, levarmos a cabo nosso projeto pedagógico-revolucionário. Flávio, que àquela altura tinha confirmado todos os seus temores, foi sábio em seu comentário: “Isso me parece mais pedagogia deprimida. Melhor a gente voltar para o feijão com arroz!”. O que fizemos, com resultados bastante satisfatórios, em termos de aprovação no vestibular.

No ano seguinte alugamos outra sede maior, sem desfazermos da inicial. Um luxo só. E quebramos a cara, não sem antes brigarmos entre nós mesmos. Coisas da maldade humana, de novo. Quase todos estávamos já, começando a ter alguma renda em atividade mais ligadas a nossos cursos e progressivamente fomos saindo do ramo de cursinhos. Eu já começava a ganhar alguns trocados ajudando ou substituindo o Sinésio Talhari (ontem e sempre, o grande papa da dermatologia em Manaus) e atuando no Alfredo da Matta. Bem antes da formatura.

sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.

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