Pedagogia deprimida II

Em 13 de março de 2017 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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Onze horas da manhã do primeiro dia. Macacos velhos no ramo, os diretores colocaram nas primeiras aulas um misto de professores locais já respeitados e algumas das estrelas paulistas que tinham trazido. Minha aula era a última. Sala lotada, pensei no Lázaro e no Agil. Sem ficar completamente de frente para a turma fui apagando metodicamente o quadro negro e me apresentando à turma. Quadro limpo, parei no meio do tablado e mãos postas como um padre asseverei peremptoriamente: “No universo tudo o que existe se divide em coisas animadas e desanimadas. As animadas são os seres vivos, as desanimadas são parecidas com alguns de vocês, que mais uma vez vão se ferrar no vestibular!”.

Mal tinha terminado a frase já estava me arrependendo da bobagem. Não tinha que inventar nada, deveria seguir as instruções do Lázaro. Tinha feito merda e achei que minha carreira de professor de cursinho tinha terminado ali, mas antes que começasse a me desculpar e voltar pro roteiro original, como um rastilho de pólvora, um risinho começou em diferentes pontos da sala e transformou-se numa gargalhada colossal. Esperei acabar e em tom sério pedi desculpas, mas que sabia que pelo adiantado da hora, estômagos já começando a roncar, assunto meio xarope, achei que precisava dar uma mexida com eles.

Isto posto, “como todos vocês sabem, existem três reinos: Animal, Vegetal e Mineral. Este último esta fora da Biologia. O primeiro vocês estudarão com Prof. Agil, na zoologia e o último comigo, na botânica.” Da esquerda para a direita, quase sem deixar um centímetro quadrado vazio, fui enchendo o quadro com um esquema minucioso, letras caprichadas aprendidas em meus tempos de auxiliar técnico de engenharia, com unicelulares e pluricelulares, gimnospermas e angiospermas, briófitas e pteridófitos, num vasto painel sobre a organização básica do Reino Vegetal.

Concluí tudo, quase junto com a sineta de encerramento da aula, dizendo que minha intenção naquele dia era demonstrar que botânica, ao contrário do que muitos diziam, era um assunto fascinante, importante no vestibular sim, mas encantador por si só e que ao longo do curso tudo aquilo que estava no quadro negro seria da maior intimidade de todos ali. Era minha função e eu garantia que isso iria acontecer.

Fim de aula, acho que vi satisfação na maioria dos semblantes e fiquei aliviado. Só voltei a me preocupar quando o último aluno se aproximou e pediu-me que o ajudasse numa questão. Era seu segundo vestibular e não era um desanimado. Queria que eu esclarecesse a ele uma questão do último vestibular, que acha que teria assinalado a resposta correta, mas o gabarito marcava outra como certa. Sobre fotossíntese, nos vegetais superiores. Apreciei seu interesse, mas infelizmente estava atrasado para o almoço e outro compromisso na faculdade, mas na manhã seguinte chegaria mais cedo e o ajudaria com a questão. Corri para a república para estudar a tal de fotossíntese.

Os dirigentes do cursinho monitoravam tudo o que se passava, pois tinham que se antecipar às demandas dos alunos. Agrada-los sempre. Assegurar-se que não iriam para outro cursinho. Em verdade era uma guerra permanente entre cursinhos e tomar alunos, uns dos outros, era obrigação de dirigente. Assim, sempre estavam fazendo média com os alunos e verificando o quanto as aulas e professores estariam agradando ou não. Imediatamente após a aula, um deles já veio me cumprimentar, dizendo que os alunos tinham adorado, que o Prof. Agil estava certo. Perguntou-me se precisava de algo. Um vale talvez. Precisava. e como!

Primeiro passo dado, no dia seguinte confirmaria meu bom início, quando me deparei com a sala mais cheia ainda, o que se manteve, de forma mais ou menos regular até o vestibular. Sempre bem colocado nas enquetes feitas entre os alunos, embora nunca primeiro, coisa em que o Geraldão e Juacy da matemática, Agil da zoologia e Edson Oliveira de redação, se alternavam. Naquele vestibular, no tradicional viradão, que era uma última aula na véspera da prova, discuti três assuntos que se apresentaram nas questões e quase todo mundo acertou. Bingo!

O cursinho, que tinha sido sucesso absoluto em seu primeiro ano, desandou por completo no seguinte. Os dirigentes, todos jovens, nunca tinham visto tanta grana junto e (oh, maldade humana!) começaram a brigar entre si e o Valderi, dono do Curso Einstein, concorrente, foi comprando um por um, até açambarcar tudo.

Não gostei, acho que tinha um certo preconceito contra o Valderi, empresário feroz, que tinha começado como simples professor e estava começando firmemente seu império, que só cresceria daí por diante. Aconselhei-me com Agil e Lázaro, que confirmaram o que já sabia. Se não estava contente melhor sair. Mas deixar a porta aberta, não queimar as pontes ou caravelas, para trás.

Conversamos em seu gabinete, na sede da Rua Barroso.  Ambos fomos simpáticos, disse-lhe que minhas atividades na faculdade e, principalmente, as ligadas ao movimento estudantil e construção do Partido dos Trabalhadores estavam a cobrar de mim menor envolvimento com o cursinho. Aceitaria dar menos aulas, se fosse muito importante para ele, mas, se tivesse alguém, que ficasse à vontade. Ah, estava também para me casar com a Yvelise. Deu-me parabéns.  Disse que a conhecia e a seu irmão Raul, que tinham sido alunos ali. Perguntou-me dos preparativos, disse-lhe que saindo dali iria atrás de um terno para o casamento. Tomou do telefone e ligou para a butique em frente, a Embalo’s Modas. Disse que um amigo seu estaria lá em minutos para escolher um traje, que me atendessem no que quisesse, não importava quanto. Era seu presente de casamento. Assim, minha amiga Rosana Bessa Rebelo, algo assustada, escoltou-me até o altar da Igreja dos Remédios, num terno branco, camisa branca, gravata e sapatos brancos. Chiquerésimo.  Até o Marcus Barros, meu outro padrinho, aprovou.

Passadas algumas semanas, sem nenhum contato novo, ano letivo iniciado, entendi que restava fora, como esperado. Dei entrada em petição, elaborada pelo meu amigo Edson Oliveira, na justiça do Trabalho. Pensei estar comprando um inimigo. Mas, no dia da audiência, nem o advogado dele compareceu. Apenas mandou uma carta dizendo concordar com tudo o que se demandava e que estaria depositando o valor devido.  Fecha o pano. Comecei a dar aula em outro Cursinho, de nome Positivo, de outro empresário local. Neste voltei a dar aulas de história geral, para surpresa de alguns alunos do cursinho anterior. Técnica do Agil quando desenhava de cabeça os mapas relativos aos temas em apreciação. Desenhava a Europa, a África com os detalhes do Rio Nilo e vale das Pirâmides. A Bota Italiana com Roma e Cartago, atravessava o Rubicão e ia com Napoleão para as estepes russas. Estava ai muito mais à vontade que entre esporos e vasos lenhosos do parênquima vegetal. Técnica do Lázaro, buscando primeiro as sardinhas marginais.

Neste novo cursinho tive como colegas, também novos no ramo, duas pessoas maravilhosas. Públio Caio Bessa Cyrino e Carlos Rubens Costa. Ele primo do Babá [Ribamar Bessa Freire] e irmão do Zé Dantas Cyrino. Chapas no Diretório Universitário, alunos de Filosofia.

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sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.