Pedagogia deprimida I

Em 6 de março de 2017 às 08:15, por José Carlos Sardinha.

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Em fevereiro de 1976 iniciou-se minha vida de estudante de medicina na Universidade Federal do Amazonas. Conforme meus irmãos Pedro e Joel tinham articulado, fui morar com o jovem casal, Mário e Liocélia, num endereço muito próximo da faculdade de medicina, cerca de 700 metros, o que permitia o meu deslocamento a pé.

No primeiro semestre não havia ainda a necessidade de roupas brancas, pois não teríamos contato com pacientes. No entanto, quase todos adoravam explicitar seu novo status de “acadêmico de medicina”, pondo-se de branco da cabeça aos pés. O curso era novo, a primeira turma, iniciada em 69, tinha recém formado. Poucos professores eram mestres e havia inúmeras carências didático-pedagógicas. Mas nosso deslumbre imediatista não permitia ver nada disso. Éramos orgulhosos estudantes de medicina e o futuro nos pertencia. Tolice e arrogância nos mais variados graus permeavam aquele “seleto” grupo, filtrados um à cada trinta dos que concorreram à mesma prova.

Meu desempenho no vestibular me colocava entre os 4 melhores e, portanto, no topo da cadeia. Mas isso durou realmente muito pouco. A falta de uma base mais sólida em disciplinas da área biomédica no ensino médio, que contrabalancei no vestibular com minha base de línguas portuguesa e inglesa, história, geografia e um pouco das ciências exatas que o meu irmão Pedro tinha me ensinado, rapidamente cobrou seu preço. Terminei o primeiro e depois o segundo semestre de 76 de forma mediana ou menos. Os próximos anos não seriam muito diferentes disso.

Encontrar uma fonte de renda ao término do primeiro ano de faculdade, era meu grande problema. Não podia continuar vivendo de favor na casa do casal amigo, nem a depender sempre de meus irmãos Pedro e Joel. Yvelise, que ainda não era minha namorada, dava aulas em um colégio público estadual e muitos colegas também o faziam, em escolas privadas e cursinhos pré-vestibular. Assim comecei a manifestar minha disposição e rapidamente muitos colegas vieram com sugestões ou mesmo propostas. Inicialmente substituindo, em colégios regulares, alguém que tinha um plantão ou viagem. Era complicado por raramente saber, com antecedência, o assunto a ser ministrado ou onde seria a aula. Mas pior mesmo era ter que enrolar um monte de gente, fingindo dominar um assunto. Precisava entrar para um cursinho.

Naquela época, assim como hoje, um cursinho podia dar muito dinheiro. Um verdadeiro garimpo. Algumas fortunas manauaras de hoje começaram ali. Ousadia, cara de pau e muita disposição para encarar brigas com estudantes ou professores insatisfeitos eram qualidades essenciais para que alguém pudesse se dar bem no ramo. Era uma equação relativamente simples: quanto mais alunos mais receita, quanto mais alunos mais chance de alguns deles serem aprovados em algum vestibular, quantos mais passassem mais outdoors proclamando a eficácia do curso e daí mais alunos para o próximo ano. Era batata!

Como sempre recebi muito aconselhamento. Inicialmente do Agil, colega alguns períodos adiante, mas que exatamente por dar aulas em muitos lugares, nem sempre conseguia cursar todas as disciplinas e seu curso ia se atrasando. Estudar, sobreviver e fazer sobreviver a família, essa era a equação de muitos. Fazia-se como se podia. E o Agil era um mestre nas três artes. Negro, estatura mediana, mineiro de Uberaba, sempre muito calmo, nunca o vi elevar a voz. Se dava bem com todo mundo. Explicou-me que dava aulas de botânica e zoologia e que tinha um método. Ilustrava suas aulas com desenhos os mais detalhados possível, enquanto ia falando monocordicamente sobre os mesmos. Na fala repisava várias vezes aspectos do assunto que, em sua opinião seriam questões certas que apareceriam nas provas. E acertava muito. O que ao longo do tempo tornaram suas aulas concorridíssimas. Disse-me que não deveria jamais criar caso com os donos de cursinho, mas também nunca confiar totalmente neles. Se saísse de um, nunca deveria fazê-lo de modo a não poder voltar. Sempre deixar a porta aberta.

Outro que me abençoou com seus conselhos foi o Lázaro. Ainda hoje um mito no ambiente dos cursinhos. Era dos alunos mais antigos da faculdade. Nunca encontrei alguém que tivesse sido seu colega no primeiro período. A todos que perguntava respondiam que ele já estava lá quando chegaram. Cursava pouquíssimas disciplina e às vezes trancava um período inteiro. Bebia e fumava demais. Cabelos lisos, mais para brancos que grisalhos e estatura mediana. Dava aulas de Português, acertava muitas questões nas provas e sua aula era de uma dramaticidade operística. Ouvi e não sei como seria possível, que sua aula sobre o uso correto da crase tinha mais audiência que partida do Nacional contra o Rio Negro. Disse-me que o mais importante em um professor de cursinho, era manter a sala cheia e se possível trazer mais alunos. Nisso era um mestre. Seu passe era disputado a peso de ouro pelos donos de cursinho e pegava quantas aulas quisesse. Exibiu a carteira recheada e perguntou se precisava de algum. Disse-lhe que preferia aprender um pouco de algo que me ajudasse naquele meio. Prontamente me deu uma lição básica. “Quando subires no tablado, antes de qualquer coisa, pense que se sala não estiver lotada a culpa não é sua, mas se na próxima continuar vazia, aí talvez você tenha um problema.

Feita essa primeira avaliação olhe-os, veja se consegue descobrir quem é o mais completo imbecil de todos e comece a aula como se ele fosse a única pessoa na sala. Fale algo que ele saiba e que por saber sua atenção será chamada e ele ficará atento, aí comece a dar aula para os outros, mas só complicando lenta e progressivamente. Sua rede pega primeiro as sardinhas periféricas do cardume e aos poucos vai agrupando as demais.”

De novo o Agil foi personagem fundamental na história. Como eu não era conhecido no meio, não estava conseguindo nenhuma chance, embora tivesse dado algumas aulas de história geral num pequeno cursinho, às vésperas do último vestibular e até acertado em cheio uma questão sobre as causas da Segunda Guerra Mundial (ainda hoje meu assunto predileto em história). Disse-me para procurar um pessoal novo na cidade, que estavam abrindo um cursinho chamado Anglo, franquia paulista. Precisavam de professores. Já estava contratado e tinha me indicado. Era uma sexta-feira e as aulas começariam segunda-feira. Sábado de manhã fui para a entrevista. O cara nem me deixou abrir a boca e foi logo me entregando o pacote de apostilas (belíssimas, por sinal) e dando- me boas vidas à família Anglo. Apostilas de botânica! Disse-lhe que era um engano, dava aulas de história (nunca tinha visto botânica em minha vida, mas não falei!). Disse-me que não, que história já estava completa com professores de São Paulo, que eu tinha sido recomendado pelo professor Agil, a quem teria sido oferecido primeiro. Este teria lhe dito que eu era muito melhor que ele.  De novo a velha cena. Pegar ou largar. Agil confirmou tudo, dizendo-me que já tinha aulas o suficiente e achava que se me avisasse eu poderia recusar e preferiu jogar as cartas no pano.  Ajudaria no que precisasse, mas que a primeira decisão eu tinha tomado corretamente. Passei o resto de fim de semana estudando as apostilas de botânica.

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sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.