Paciência

Em 16 de maio de 2017 às 07:00, por Gilson Gil.

compartilhe

Semana passada, reli o livro do ex-prefeito de Curitiba Jaime Lerner Acupuntura Urbana. É um livro interessante, no qual ele conta casos “vitoriosos” de suas gestões à frente da cidade paranaense. Ele narra vários exemplos de obras que fez rapidamente e de maneira simplificada. Contudo, são casos dos anos 70 e 80. Ele se vangloria de ter feito uma rua para pedestres em 48 horas apenas. Acha que foi um feito notável ter ordenado aos secretários que fizessem tudo em um final de semana.

É válido ler tais casos, porém, eles não se aplicam à realidade brasileira de hoje. Como falei em outro artigo, há inúmeras licenças e anuências que um governante precisa ter para fazer obras públicas que são fundamentais. Todas elas possuem prazos e requisitos que não podem ser ultrapassados. Caso haja populações envolvidas nesses licenciamentos, os prazos aumentam, assim como os requisitos. Isso tudo sem falar nas audiências públicas, indenizações e desapropriações. Se uma dessas comunidades afetadas for rotulada de “tradicional”, entram em cena tratados internacionais e as exigências triplicam, tornando quase inviável a obra.

Em suma, fazer uma obra de certo potencial, que envolva remoções, desapropriações e deslocamentos de comunidades, é muito difícil, trabalhoso e demorado. É irreal um gestor afirmar que, hoje em dia, fará uma “rua em 48h”. Não há acupuntura ou alopatia urbana que consiga superar os marcos regulatórios vigentes no Brasil. Certamente que a proteção a certos direitos é algo positivo. Cuidar de comunidades vulneráveis é um tema muito generoso e moderno. Minha preocupação é que a tentação de se fazer promessas inviáveis está sempre rondando a cabeça de candidatos, atuais ou futuros. Afirmam que farão certas obras “redentoras” e que solucionarão dilemas urbanos com rapidez e criatividade, menosprezando esses impasses.

Atualmente, pensar uma cidade como Manaus significa, além das habituais propostas de reforma urbana, pensar também sobre os dilemas e obstáculos inevitáveis que ocorrerão. Sem cálculos detalhados sobre arqueologia, compensações, indenizações, audiências e eventuais planos de manejo e ajuda de custo, é irreal alguém dizer que “irá mudar a cidade”. Acima de tudo, é preciso paciência e responsabilidade nessas horas. Querer pular etapas, omitir problemas ou descuidar de prazos e exigências legais e contratuais é colocar em risco o projeto de governo e ficar fadado ao fracasso.

Acho importante colocar tais pontos, pois muitas promessas são feitas em épocas eleitorais, especialmente em uma cidade como Manaus, desordenada, confusa e extremamente informalizada, na qual sempre há demandas por reformas e revitalizações a serem feitas. Mexer no Centro, por exemplo, é algo que merece muito cuidado e paciência. Não é simples revitalizar pedaço tão grande e povoado de uma capital. Sem colocar na conta dos custos esse tipo de requisitos legais, um gestor apenas irá fazer mudanças superficiais e sempre se arriscando a levar processos, liminares e inquéritos, deixando os projetos inacabados e sem data definida a serem executados e inaugurados.

sobre o autor

Articulista-Gilson-GilCarioca, nascido em Madureira e criado no Catete. Sociólogo e professor da UFAM, já trabalhou em várias instituições de ensino no Amazonas e em outros Estados. É torcedor do Flamengo, está em Manaus desde 1992 e possui uma filha meio carioca, meio manauara. Torce pela cidade e pelas pessoas que aqui vivem.

comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *