Pacas, piquiquibas, alguns sítios e praças de Manaus

Em 14 de janeiro de 2019 às 08:00, por Lúcio Menezes.

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Fui ao Círio de Nazaré, cometi excessos etílicos e me entupi de pato no tucupi, maniçoba, tacacá, caranguejo, pescada branca, pescada amarela, filhote…  A culinária de Santa Maria de Belém do Grão Pará é um caso sério, sempre me agrega quilos indesejáveis e a luta para perdê-los é duríssima.

De volta a capital que não preserva a sua história, um amigo me perguntou: “E aí, o que achaste do resultado das eleições no Amazonas?”. Respondi-lhe laconicamente: “uma paca”.

Minha empregada justificou seu atraso em razão do trânsito. Pensei: o trânsito de Manaus é uma paca.

Abri o caderno de polícia de site, ao fechá-lo balancei a cabeça e um pensamento inevitavelmente me ocorreu: a segurança pública em Manaus é uma paca. Ou seja: tudo o quanto é sem graça, ensosso, deplorável ou inaceitável, eu rotulo de paca.

Noite passada, matutando cá com os meus botões, lembrei que cometo uma baita injustiça ao chamar de jaburu, o semelhante cuja beleza exterior a natureza pediu dispensa e se escafedeu. Jaburu era a ave que mais me chamava atenção quando, na década de 1960, um espécime daquela ave desfilava garbosamente por entre o paisagismo da Praça Heliodoro Balbi – para mim, Praça da Polícia.

Nos lagos da praça tinha patos e marrecas, mas o que me encantava era o jaburu. Diz a minha mãe que eu apontava para ele e exclamava: piquiquiba! Piquiquiba? E eu sei lá porque piquiquiba! Sei que a partir de agora aqueles que – ainda para mim – sofrerem de ausência de beleza, serão chamados de piquiquibas, jaburus nunca mais! Jaburu é belo, tanto quanto hoje está aquela praça da minha infância.

O aviaquário municipal que ficava bem aos pés da Matriz, era o local onde eu mais me excitava, era fascinante olhar os espécimes, suas cores e cantos. A última vez em que estive naquele sítio, me foi inevitável uma singela reflexão: “Como era grande o pequeno parque”. Meu avô Dino contava com orgulho o dia que dele lá me perdi: “Entrei em desespero, procurei por todos os cantos e não o achei, quando as esperanças se esgotavam fui até a entrada e lá estava ele, parado a me esperar. Para uma criança de cinco anos, optar por me esperar na entrada foi coisa de menino inteligente” – pelo menos daquela vez o fui.

O aviaquário cerrou suas portas nos anos 1980, depois virou Centro Pastoral, foi desativado em 2008 e, com a promessa de reforma, demolido em 2011. A demolição não foi concluída, mas há um projeto da Prefeitura que contempla a revitalização daquele espaço, coisa que até hoje não foi feita. A hipótese de reativação do aviaquário está descartada face ao que consagra os artigos 4º e 10º da “DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DO ANIMAL (ONU 1978).  Aviaquário, portanto, nunca mais.

Aos domingos, também levado pelo meu avô Dino, a programação era o Mercado Adolpho Lisboa, o Mercadão. Naqueles idos anos era comum ver patos, perus, picotas e galinhas misturadas às aves silvestres: periquitos, papagaios, tucanos e araras, todos engaiolados. Tinha macaco de cheiro, macaco prego e barrigudo; também havia o comercio livre de carnes de caça: paca, tatu, cotia, capivara, anta…; os mais cobiçados eram os bichos de casco: tartaruga, cabeçudo, iaça, tracajá, capitari, mata-matá…. Munido da indispensável cesta de mercado feita de cipó e com duas alças, Dino comprava o que a vovó Belmira listava. Eu apreciava aquele ambiente agitado, barulhento, o cheiro de peixe, do pirarucu salgado, de carne vermelha, das aves e das frutas da época.

O melhor estava por vir. Caminhávamos até o Bar O Jangadeiro e lá eu me esbaldava, engasgava, tossia e espirrava até botar liquido pelo nariz, resultado do sugar insaciável, por meio de um canudinho de papelão, da Pepsi – Cola em garrafa de vidro de 284ml, estupidamente gelada. Na cidade cujo povo teima em jogar lixo de toda espécie nas ruas, rios e igarapés, a Pepsi foi pioneira, a Coca veio depois.

No campo do General Osório, hoje Colégio Militar, eu jogava futebol de campo e quadra, assistia ao festival folclórico, tomava banho de piscina e prestigiava os jogos estudantis.

 A Praça do Congresso, de segunda a sábado era o palco de paqueras das meninas dos Institutos de Educação – IEA e Benjamin Constant; aos domingos eram as meninas da Boate Moranguinho, promovida pelo Ideal Clube, os colírios que limpavam a minha vista. A Sorveteria Pinguim tratava de refrescar e adoçar a minha boca sedenta por beijos em lábios que nunca beijei.

A Praça Nossa Senhora de Nazaré – na verdade a Vila Municipal, bairro aristocrático de Manaus -, teve uma geração de belas moças, comparável a geração da minha Rua. De frente para a praça moravam as irmãs do Netinho e do Luizinho, Carlota e Virgínia, elas eram lindas e cobiçadas; próximo ao Chapéu de Palha, minhas primas Helena, Betinha e Margareth não deixavam por menos; na Rua Salvador tinha as filhas do Dr. Platão Araújo, Gláucia e Claudia; quase em frente à Secretaria de Fazenda, a irmã do Zulmar, Zilma, tinha um charme que fez o meu coração descompassar; na esquina da Rua Recife com a Rua Valério Botelho de Andrade, morava a Sheila, um filé mignon; graça e vivacidade  tinha a Najla Balut; durante algum tempo, também lá morou uma japa paulistana de nome Glória, usava calças de cintura baixa e mini blusa, a danada tinha bunda e tudo, digna de um ato kamikaze; Anaceli e Analice Peixoto trajavam simpatia e beleza; Lucilene e Iolete, irmãs do Arthur, eram um negócio sério; Selene e Solange, duas gracinhas;   Mariazinha e Claudia Pio me faziam sonhar; Ana Rosa Monassa, um escândalo; Rebeca e Isabela Rabelo eram duas bonecas; Audrey Caminha, a Carly Simon da Vila; as irmãs Cely e Adélia, poderosas; Rosana e Ana Botelho, demais! Na Rua São Luiz a Cíntia Zuazo trazia, desde o Pará, o cheiro exótico, gostoso e amadeirado do patchouli; ainda tinha a Diana Braga, Dulce Arnaud, Cintia Barros, Luíza Marques, Laís e Elsa Helena, Joelma, Liége; a poderosíssima Fátima Braga, a linda Denise e sua incomparável e bela irmã, Deise. A praça era um oásis de belas meninas, uma fábrica de fêmeas com rejeição zero no controle de qualidade. Lá, pacas e piquiquibas não tinham guarita.

A Praça da Saudade eu atravessava para ir ao Rio Negro Clube, comer o sanduba de leitão do Bar do sujinho da esquina, ou para comer pipoca.

A Praça São Sebastião era a mais emblemática, primeiro porque durante sete anos era minha passagem obrigatória para o Colégio Brasileiro; lá joguei futebol, tomei banho nas águas do Monumento a Abertura dos Portos às Nações Amigas; tomei o delicioso tacacá da mãe do amigo Carlinhos, cantei nas missas da igreja, era próxima a casa da minha namora, Lili; lá namorei, comi kikão (cachorro-quente), cantei acompanhado pelo som dos violões dos amigos Ariosto e Hamilton; lá bebi além da conta, discuti com o amigo-irmão Hamilton e acabei por jogar o seu violão de encontro ao monumento, uma atitude intempestiva que teve, na passividade, incredulidade e perdão do Hamilton, uma das maiores lições da minha vida.

Hoje não tenho mais meu avô para me levar ao Mercadão, não me perco em mini aviaquários e a Pepsi perdeu o gosto que tanto me engasgava; não jogo mais futebol, raramente nado em piscinas, nunca em monumentos; não passeio nem canto em praças, não chamo mais jaburu de piquiquiba; o campo do General Osório? Só vejo quando passo de carro; a Boate Moranguinho acabou e a Sorveteria Pinguim também; na Praça Nossa Senhora de Nazaré, como de resto na Vila Municipal, não há nem vestígio do glamour de outrora; a Praça da Saudade está lá, reformada, mas sem as estátuas de bronze que a caracterizavam – havia duas estátuas de bronze caracterizando o homem primitivo e o moderno que, para mim e tantos outros, perguntavam um ao outro: Quem peidou? O outro respondia com o dedo apontado para a estátua central de Tenreiro Aranha, primeiro Presidente da Província do Amazonas: foi aquele. Espero que não estejam incorporadas ao acervo de alguma “autoridade”, colecionadora de artes públicas.

Há outras praças, outros belos sítios em Manaus, mas nesses não há registros marcantes ou não, da minha vida. Sei que em nenhum deles encontrei ou encontrarei um jaburu sequer; há risco, sim, de serem rotulados de pacas e a quase certeza de encontrá-los povoados por piquiquibas.

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sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.