OS APELIDOS DOS MEUS COLEGAS DE RUA

Em 20 de junho de 2018 às 14:00, por Lúcio Menezes.

compartilhe

Desconheço se há estudo aprofundado sobre a origem do cognome, epíteto, alcunha, apodo, apelido ou qualquer outro sinônimo. Nem linguistas nem etnógrafos trataram desse tema com o cuidado requerido (o Google que o diga).   O que designamos sobrenome no Brasil, em Portugal é apelido, não sendo eu das terras do Nininho (alcunha do Fernando Pessoa), usarei apelido.

Pois bem, muito antes de Cristo, Nabucodonosor, rei da Babilônia, um sujeitinho à toa, foi o primeiro a por apelido nos outros, depois de tomar e destruir Jerusalém, o cara escravizou quatro nobres, os jovens Daniel, Ananias, Misael e Azarias. Para que esses hebreus ingressassem na Babilônia e no serviço do rei, precisavam obter cidadania babilônica, assim, receberam nomes pagãos: Beltessazar, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, um caso clássico de antroponímia. Depois de Cristo, século XVIII, por conta da “Santa Inquisição”, ocorreu a maior mudança de nomes em massa da história ocidental, aquilo que os judeus chamaram de etimologia da sobrevivência.

Dar apelidos é da natureza humana, brota na própria comunidade em que se vive, não tem rigorosamente nada a ver com classe social ou grau de escolaridade. Assim, há apelidos em razão da origem geográfica, por razão gastronômica, zoomórfica, profissional, astronômica, particularidades físicas, morais, ligados a infância, anedota, hábitos, cacoetes, por analogias, má criação, podem até passar de pai pra filho, e outras tantas. Ora, se nem Cristo escapou – Salvador, Nazareno, Ungido, Menino Jesus, Cordeiro do Senhor, filho de Deus… – por que o pessoal da Rua escaparia? Nananinanão!

No baixo Lobo d’Almada, antes da Rua 24 de maio, no sentido Av. Sete de setembro/Rua Dez de julho, tinha Bode, Tambaqui, camundongo, Formiga e Manel Cabeção. O Zé Roberto era Baneio e o irmão Paulo, Gato; Anselmo, padre; João Rodrigues, Pinduca; Antelki, gordo; os irmãos Zé Roberto e Hugo eram Dimirine e Tarzan; Tony, Buscapé. Na Rua 24 de Maio: Pelé, Luizão, Antônio Titia e Marquês de Pombal. Subindo a Rua Lobo D´Almada: os irmãos Carlito e Suwamy começaram a trabalhar e a ganhar dinheiro muito cedo, aí ficaram pávulos, resultado: viraram Lord Pomba e Conde Pimba. O Belmirinho era o português e o Luiz Ângelo, Dandinho.

Aí vinha a família gorila, o gorila pai, que aos domingos adorava passear de bicicleta, sem camisa, de short e óculos escuros, danou-se a aumentar verticalmente sua casa, até construiu um mirante de onde, com um possante binóculo, ficava “passando o pano” em tudo o quanto as lentes alcançassem; o filho Harlem, naturalmente, era apelidado de Gorila filho; o Manoel e o irmão dele, Bago e Bagão.  O Suamí era o Lua, vizinho do Eva Negra que morava em frente ao babão.

Nos Cordeiro era festa: o Evanilson é Nito e Papagaio, o Bosco, Boquito; Francisco, Chico; Ivano, banana; José, Zeca; o Carlinhos tinha dois, Tamborete de Forró e Puto velho; os sobrinhos José e Marcus Cordeiro, Zezé e Japonês, depois virou javali. Zezinho Alcântara, Vulto; Arkbal, Bala; a vó dele, dona Brasia, brasa; Cleber, viking; Demóstenes, macaco ou Dedé Bahia; Solange, Soca; Suely, Sussuca; Marinalva, Maciste; Eliana, baixinha. Depois que o Dedé se mudou chegaram os irmãos Djore e Careca; o Walter morou na estância por uns tempos, por conta das enormes presas, drácula; não dá pra esquecer do João, o galinha preta, é claro.

Dos Corado, o Amazonas é zoninha. O Renato Fradera é pato e o João, Bololô. Ops! Ia esquecendo o Bujuga. Não lembro os apelidos dos filhos do Seo Mário sapateiro (Muni, Maurício e Marcus), mas o Marcus, médico dos bons, no auge do cólera (1991) coordenou, com competência, o combate àquela epidemia, por isso se expôs à mídia, resultado: ele nunca soube, mas nos corredores da Secretaria de Saúde passou a ser chamado de Marquinhos vibrião colérico. Nesse mesmo endereço, antes de acolher a bela Rosana Stafford, lá moraram os irmãos Washington e Graça – primeira namorada do Sérgio Frota -, o apelido do tio deles, esposo da dona Tetê, só porque tinha uma perna mais curta que a outra, era ponto e vírgula.

Na última quadra da Rua Lobo d’Almada morava o nosso bode e o seu irmão, bodega; mas antes deles lá morou o Luís pão cru; depois vinha o Almir Pinóquio, o surubim, Camel e Chiquinho. Na Epaminondas o Álvaro capiroto e o irmão, Popoca. Os Biváqua Fábio, o pombo e Frederico, o borracho; Robertinho Caminha ainda é Barriga; Zé Henrique, Bolo; Luiz, pé de raquete, Nininho, Bengala de alma e papagaio africano. Tinha um senhor, vizinho do bengala de alma, que botava a cara na janela a cada dez minutos e depois a recolhia, era o cuco; o Bosco é charuto ou Bobô, o irmão dele era o lacinha; não lembro se os irmãos Geraldo e Clóvis Aguiar tinham apelidos, mas do Álvaro era saco. Tibiriça, Biri; o Mário, irmão do Deja, era caboco desgraçado. Um rapaz que morava na casa deles, jacaré. Na Rua Dez de Julho, Marco Aurélio é Barrão.

Agora a Rua José Clemente: Flávio é o capitão; Geraldo, Chapeleta, mas quando espichou a cabeleira foi rebatizado  Azambuja; Flavio Augusto era Papinha ou coelho lebrão; Otávio, baiano; o tio deles, Paulo, era jaburu o ano inteiro, exceto no dia 08 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira do Amazonas, nessa data ele se metia em baixo de uma batina alva, com direito a amito (peça, que cobre os ombros e o pescoço) e estola (simboliza a autoridade espiritual do padre e a sujeição a Deus), seguia com a procissão desde a igreja matriz carregando um estandarte imenso com o crucifixo na ponta, enquanto estivesse a usar aquela indumentária ele era o Irmão Rogério de Pedro e Paulo; Arnaldo Russo, Pepino di Capri; Pedro, doido; e os Frota, Sérgio, Osvaldo e Renato? Não sei, mas a vizinha deles, dona Alice, era a múmia.

Havia um moleque cabeçudo e cara de velho que morava na esquina da José Clemente coma Joaquim Sarmento, ganhou o apelido de centenário; o Manoel que é Ratto, era Manel português, e o garçom do Bar Natália, ratinho; os irmãos cariocas Telê e Mário Castor; Luiz Ricardo, meu irmão, era Golias, hoje é só Cadinho; meu primo Armando, que não saia lá de casa, Pixote; o meu pai, apreciador contumaz de uma boa prosa, fazia a turma tremer quando, à noite, atravessava a Rua pra jogar uma conversa fora, sua chegada era certeza de tertúlia sem hora pra acabar, seu apelido? Morcegão. Não sei o paradeiro do Bucú. Tinha o caganeira, o Bebeto ou Betchola, Álvaro cabeção, Lulinha. Por conta de uma protuberância na cabeça, esse escriba era mondrongo, durou até o dia que fui flagrado pelo Robertinho Caminha e o Bobô em plena performance no palco do Teatro Divina Providência, pronto, desde lá sou Cacilda Becker.

Convenhamos, desde o tempo em que corned beef refogado com manteiga comprada a retalho na Casa Dias, cebola e farinha era o jantar dos meus sonhos, eu já achava que apelido é algo que a gente tem que sublimar, especialmente quando é pejorativo. Ficar puto é burrice, sério! Alguns muito escrotos ficam aceitáveis quando chamados no diminutivo ou sutilmente trocados, por exemplo: caganeira vira neirinha; galinha preta, garlha; Cacilda, Becker; chapeleta, chapéu; Lord Pomba, Lord; Conde Pimba, Conde, né que ficam melhores? O macete é fingir um “não estou nem aí”, caso contrário o apelido não só pega como a entonação passa a ser de deboche, aí o caboco tá lascado pro resto da vida. É por isso que podem me chamar de Mondrongo, Cacilda, Cacilca Becker ou só Becker, eu sigo a risca essa recomendação, finjo que não estou nem aí.

Agora falando sério: “Cacilda é a#&*§@¥©®µ¶±», bando de æÿĦ©#ŁŞ¶Ǽǿώ!”

sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.

comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *