O Sindicato e o tango dos ciclistas argentinos

Em 15 de setembro de 2016 às 08:00, por Jorge Alvaro.

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No Parque das Laranjeiras, em Manaus, reside num condomínio de casas um casal amigo de décadas, Julio Recinos e Lia Sampaio. Ele nascido em El Salvador, chegado nestas paragens no início dos anos 80, farmacêutico de profissão, mas músico de corpo e alma, além de ser proprietário de umas das vozes mais bonitas que já ouvi cantando. Ela, Maria do Céu, nascida em Salvador na velha Bahia (que coincidência!), e Lia Sampaio da dança contemporânea, dedicada também de corpo e alma a essa arte, primeiro como bailarina e, depois, como uma das melhores e mais importantes professoras de dança da Universidade Federal do Amazonas e da Universidade Estadual do Amazonas.

Era na residência desse simpático e querido casal que as reuniões do sindicato aconteciam. Preferencialmente a partir das dezoito horas dos domingos. Sindicato foi o apelido que a casa recebeu por conta de uma invenção de moda do uso de máquinas fotográficas pelos seus frequentadores. Sindicato dos Lambe-lambes (esses eram os fotógrafos que antigamente trabalhavam na área da Praça da Matriz, no centro da cidade).

Sabe-se lá o porquê, de repente todos se achavam excelentes fotógrafos, tanto que o resultado dessa outra interessante arte, que é a fotografia, era exposto em quadros nas paredes do espaço de lazer da casa, onde sentávamos ao redor de uma mesa, prontos para comer o churrasco noturno, preparado pelo Julio ou pelo José Luiz Klein, contemporâneo da faculdade de direito, beber cerveja ou qualquer outra bebida, tipo vodka, rum ou uísque e ouvir as músicas, sejam aquelas tocadas na aparelhagem de som da casa ou as produzidas pelos acordes dos violeiros que por lá chegavam.

O violão do Julio era um Takamine, dado como presente por mim e pelo Klein, numa véspera de Natal na época das vacas gordas. Até hoje ele mantém com carinho aquele instrumento, já escurecido pelo tempo e pelo seu uso contínuo, mas que ainda arranca do passado antigas salsas, cúmbias ou boleros. O Chico Assis, psiquiatra dedicado, auxiliava o Julio na cantoria. Aliás, o Assis é um dos melhores intérpretes de Noel Rosa que conheço.

O Rubelmar Azevedo, engenheiro de renome, era outro violonista, assim como Neliton Marques, sempre ao lado de sua consorte Vera Helena, dona de uma voz ímpar e membro de um coral criado pelo saudoso maestro Nivaldo Santiago. O promotor de justiça Bernardo Jr, que se regozijava com a sua Nikon de última geração, preferia ouvir, e às vezes cantar, rock. Até nosso eterno arquiteto Severiano Mário Porto andou por lá, tocando sua inesquecível gaita.

Mas o que me levou a lembrar desses momentos foi a presença de dois argentinos, que lá chegaram conduzidos pelo José Carlos Sardinha.

Sardinha, é assim que o chamamos, tinha a mania de gostar de estrangeiros, conhecidos ou desconhecidos. Já era apaixonado pelos russos que eram músicos da orquestra filarmônica do Teatro Amazonas, mas já havia aparecido na “Casa de Veraneio” (isso é outra estória) com duas jovencitas espanholas que estavam participando de um curso médico na cidade.

Bem, não lembro os nomes dos hermanos, mas ambos eram ciclistas que estavam cruzando a América do Sul com míseros tostões (ou eram pesos?) nos bolsos. Um deles tocava bandoneón enquanto o outro cantava, o que talvez tenha atraído à atenção do musicalmente sempre atento Sardinha.

Naquela noite, até a madrugada, os argentinos comeram, beberam, ouviram e tocaram música. Explorados por todos nós, nos deliciaram com acordes portenhos, do tango de Carlos Gardel, passando por Astor Piazzolla, Mercedes Sosa e Atahualpa Yupanki. Quando sabíamos a letra, o canto era coletivo, certamente escutado com espanto pela vizinhança.

O amanhecer chegou rápido. E, na semana seguinte, os argentinos partiram em uma balsa, com destino a Porto Velho e, de lá, para Tucumán, sua terra natal, com passagens conseguidas pelo proprietário da empresa Amazonav, velho amigo Alci Cavalcante, que nunca soube sequer da existência do sindicato.

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sobre o autor

Articulista-Jorge-AlvaroGinasiano do Colégio Estadual, de 1969 a 1975, tímido para ser líder, somente em 1996 presidiu a associação dos juízes trabalhistas da Região, por dois anos. De Manaus, onde pretende morrer, ouve música e assiste filmes, indiscriminadamente. Mais leitor que escritor, afinal ser o segundo é para poucos. Aceita desafios.