O retorno à vida

Em 6 de fevereiro de 2017 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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Morava em uma pensão horrorosa na Rua Guaicurús, ao lado da Faculdade de Arquitetura e Engenharia. Os parcos recursos que tinha levado do trabalho anterior foram se esvaindo progressivamente. Recordo-me que, além do magro café da manhã que era gratuito, só dava para fazer uma única refeição, que era o CAOL (couve, arroz, ovo e linguiça). Pela farinha branca e fina não pagava e com ela dobrava o volume do prato. Todos os dias saía de manhã e voltava à noitinha, depois de apresentar-me, assim como meu “currículo”, nas empresas indicadas pelos classificados dos jornais. Ironicamente, sempre ao voltar para a pensão ao anoitecer, quando a movimentação dos malcheirosos armazéns de cereais da rua, davam lugar à agitação feérica das prostitutas da vizinhança, as emissoras de rádio estavam tocando o grande sucesso daquele momento: “Let me try again”, com Frank Sinatra.

Depois de três meses “trying again” desisti mais uma vez e voltei à Lorena com o rabinho entre as pernas. Derrotado e humilhado, cheguei a tempo de encontrar meu pai numa maratona de internações e altas hospitalares por conta de sucessivos agravos, que o levariam definitivamente no Dia das Mães daquele ano. Embora minha mãe me tratasse (e aos demais também) como a um paxá, vivia constrangido pela dependência inaceitável. Aceitei o convite de meu irmão mais velho, agora major, e fui morar com sua família em São Paulo, capital. Avenida São João, entre Ipiranga e Largo do Arouche. Rapidamente consegui o emprego de técnico de compactação de solos. Uma pequena empresa de engenharia que ganhara uma licitação para fiscalizar a Construtora Andrade Gutierrez e que fazia, para a Light, um aterro onde seria erigida uma subestação elétrica. Cubatão, próximo a Santos, era, na época, considerada a cidade mais poluída do Brasil. Talvez do mundo. Embora ganhasse menos que qualquer peão da Gutierrez, me sentia poderoso como jamais o tinha sentido antes. Meu trabalho consistia em medir o grau de compactação (umidade e densidade) das sucessivas camadas de terra amontoadas diariamente. Se não desse meu ok ao final de cada lançamento, o trabalho de dezenas de operários, caminhões e máquinas caríssimas de terraplanagem, teria que ser refeito todo. Tratavam-me à pão de ló, fazia minhas refeições na mesa dos engenheiros e até me deram uma casa para morar sozinho. É certo que a casa ficava em uma favela e que alguns anos depois seria totalmente destruída por um incêndio. Ao término da obra, que não era tão grande, fiquei desempregado de novo.

Meu emprego seguinte derrubou minha autoestima, que já não era tanta assim, para o fundo de um abismo. Fui ser arrumador de mercadorias em prateleiras de um supermercado, à noite. Meus colegas nesta atividade compunham um grupo de homens jovens, quase todos sem rumo. Como eu, eram pessoas que em algum momento de suas vidas pensaram que teriam um futuro luminoso e deu tudo errado. Lúmpen amargurado e agressivo, na fronteira da marginalidade. Aí me dei conta de que, decididamente, eu estava fazendo tudo errado. Restava-me, desesperançado, voltar para Lorena e a falta de perspectiva. Era maio de 1975. Aborrecido e constrangido, em casa de minha mãe, recebemos uma visita anual, sempre desejada, meu irmão Pedro, químico industrial de formação, que desde 1970 vinha fazendo carreira na indústria de extração de cassiterita, nas selvas de Rondônia. Sugeriu-me, na falta de outra coisa, ir visita-lo no “mato”, passar um tempo, desanuviar o espírito, depois voltar mais leve e quem sabe retomar à vida. Fui. Não voltei mais. Retornei à vida.

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sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.