O professor de francês de araque

Em 11 de novembro de 2016 às 08:00, por Lúcio Menezes.

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A influência francesa no mundo já teve seus dias de gloria e foi marcante entre as elites intelectuais, tanto assim que adotar o francês como segundo idioma era quase obrigatório. A hegemonia da língua francesa reinou absoluta nas escolas brasileiras até fins da década de 60, quando o governo brasileiro aboliu a sua obrigatoriedade. Depois disso passou a competir em pé de igualdade com o inglês. Em 1996 foi excluído da prova de seleção do Instituto Rio Branco, a escola que forma diplomatas no Brasil.

O idioma ainda é predominante nos campos da filosofia e das ciências humanas, mas hoje o inglês impera em quase todos os demais. Descontadas as raríssimas exceções, é praticamente a única língua estrangeira a constar na grade curricular das escolas de nível fundamental e médio, apesar da Lei 11.161 sancionada em 05 de agosto de 2005, que tornou obrigatória a oferta do espanhol em todos os estabelecimentos de Ensino Médio do país e facultou essa oferta ao Ensino Fundamental de 6º a 9º ano, a partir de 2010.

Armando da Silva Viana, meu primo irmão, assim como eu, também estudou no Colégio Brasileiro. Foi lá, no ano de 1970, que ele teve o primeiro contato com o idioma de Balzac. Cursava então a primeira série ginasial – correspondente ao sexto ano do ensino fundamental. Naquela época, francês e inglês eram os idiomas estrangeiros obrigatórios no CB. Seu professor – e meu também – era o Nuno Vasco, um amazonense, já falecido, que morava na Rua Tapajós, ao lado da Igreja de São Sebastião. Nuno morou anos na França antes de retornar a Manaus e exercer o magistério. Não sabia o que o esperava.

Mandoca ficou entusiasmado com o som e a pronuncia do idioma e se aventurou:

– Mãe! Eu estou adorando estudar francês. A senhora sabia que eau  tem o som de ô,  se pronuncia ué, jamais é jamé e trois, truá? Nessa matéria eu só vou tirar dez.

Tia Edda do alto de sua maternidade, disse:

– É mesmo, filho amado, te ver falando francês é o meu sonho.

– Então fique tranquila mamãe, porque o françois  tá no papo.

Aquele era o primeiro equívoco do estudante Mandoca, François significa Francisco.

Depois dessa revelação ele saiu a repetir alegremente a lição da última aula: Je suis, tu es, Il est… Où le livre? Le livre est sur la table. Qu´est-ce que c´est? C´est un stylo. De quelle couleur est votre chamise? Ma chemise est bleu…

Nuno sofreu com aquela turma, as notas oscilavam entre 3,0 para os que tinham dificuldades no aprendizado e 7,0 para os cdf. Mandoca patinava entre 4,5 e 5,5. Era esforçado, mas no final do primeiro bimestre já se irritava com o imprescindível biquinho para pronunciar: Oui, chateau, merci, mais amis, monsieur… Além da exigência de pronunciar o R arranhando a garganta: je vous ampris, tour, jourtrès Jolie... Àquela altura sua promessa de tirar dez já tinha ido pro beleléu e o entusiasmo inicial virara um desencanto terminal.

Nuno mediu o padrão daquela turma no dia em que o Tibiriçá, colega de turma do Armando e ex-atleta do nosso saudoso Fluminense da Rua José Clemente, resolveu fazer uma gaiatice logo no início da aula:

– Professor, como é pescoço em francês?

O mestre sem perder a classe característica, respondeu:

– Tibiriçá, eu estou seguro que tu já sabes a resposta, agora levanta e diz em alto e bom tom para que todos os colegas ouçam. Mas atenção! Se alguém rir serás suspenso por cinco dias.

Tibiriçá não teve escolha, levantou-se e disse:

– Pessoal pescoço em francês é cou.

Bem, esse vocábulo quando pronunciado tem o som muito parecido com o emitido em português quando dizemos o nome do terceiro olho. Os risos foram inevitáveis, sobrou para o Tibiriça.

Mandoca engatou namoro com a Socorro, sua esposa, no final da segunda metade dos anos 1970. Socorro exerce o magistério como um sacerdócio, desfruta de excelente conceito profissional e, naturalmente, quando aluna era muito aplicada, daquela que ficava arrasada quando obtinha nota nove. Todas as matérias ela tirava de letra, era tanto dez que dava raiva. Ela só não contava encontrar o idioma de Sartre pela proa. Resolveu então compartilhar a sua angustia com o namorado:

– Gatão, eu não tenho afinidade com o idioma francês, acho que preciso de aulas de reforço se não vou sujar o meu histórico de boas notas e eu não consigo me imaginar com outra nota que não seja o dez.

Mandoca, como se fosse o próprio Nuno Vasco, disse:

– Socorrinho fica fria, francês é très facile.

– Jura, gatão?

– Oui, mon amour,  meu bem, ma femme. Tu não sabias não?

– Graças a Deus! Só tu podes me salvar.

– Começaremos amanhã, sem falta.

Esse foi o segundo e último equívoco do professeur Mandoca.

Radiante com aquela notícia, Socorro não contou conversa e tacou-lhe um beijo de língua, iniciando a sessão acocho. A tal de mão na coisa e coisa na mão durou até às dez da noite, limite estabelecido pelos futuros sogros do professeur. O acocho era uma deliciosa e inesquecível tortura, só quem “sofreu” pode traduzir.

Naquela noite ele foi para casa a dar cascudos nos tendões dos joelhos, técnica infalível para testar o reflexo e “desarmar a barraca”. Isso impediu o rompimento do fecho eclair da sua calça ou coisa pior.

Mandoca enrolou o quanto pode:

– Socorro tu és muito afobada, calma! Pra semana nós começaremos as aulas.

Mas ela já não disfarçava sua ansiedade, o pânico a consumia.

Um dia antes da primeira prova o apaixonado professeur, com a cara mais lambida, entregou-lhe o surrado livro de G. Mauger (Gaston Mauger) que usara anos antes, intitulado Cours de Langue et de Civilisation Françaises I. Disse ele como se coberto de razão:

– Help, está aqui o material que tu precisas, se tu não tirares dez é porque tu não queres nada com o estudo, aí tem tudo, basta consultar, te vira!

Não vou repetir os palavrões que ela disse em português, não vale a pena. O certo é que o Mandoca levou um “gelo” tão grande que às vezes acordava sobressaltado com pesadelos que o transformavam num esquimó. O jejum durou até o resultado da segunda prova quando ela soube que tinha tirado o costumeiro dez, a compensar a nota seis que obtivera na primeira prova.

Desde aquele episódio Mandoca não suporta ouvir o idioma francês. Reginaldo Rossi e Alceu Valença, inocentes, pagaram o pato e há muito não mais fazem parte do seu acervo musical, só porque um dia compuseram Mon amour meu bem ma femme e La belle de jour. É mole?

 

Voilá! Mon Cher Cousin.

sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.

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