O olhar do historiador

Em 22 de junho de 2017 às 08:00, por Hélio Dantas.

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“Quem vê mal, vê sempre menos”, disse Nietzsche em um de seus aforismos. No caso do ofício de historiador, a angústia do bem ver nos espreita de perto e cedo nos mostra que, nesse ofício, o bem ver não se dá de maneira simples, sempre marcado por jogos especulares, pontos cegos, ilusões de ótica, e até por miopias e cegueiras.

O olhar do historiador se lança no tempo, mas é também um olhar do tempo, trazendo em si a inescapável marca da historicidade. Por historicidade entendemos o procedimento de colocar em perspectiva temporal e espacial a atividade humana no tempo.  Dessa maneira, entendemos que somos nós que construímos e reconstruímos nossas representações das diferentes temporalidades e acontecimentos que marcaram nossa história.

Ao lançarmos nosso olhar no tempo vivido, somos influenciados pelas representações e demandas do tempo em que vivemos: a temporalidade condiciona no tempo aquilo que podemos ver do tempo. Contudo, não teríamos aí um olhar no tempo, mas olhares no tempo, pois na dinâmica da temporalidade o olhar é múltiplo, levando esse vivido a ser interpretado e reinterpretado, apropriado e reapropriado, construído e reconstruído através da narrativa histórica.

Quem nos fala disso de maneira precisa é Paul Ricoeur ao afirmar em sua obra Tempo e Narrativa que “o tempo torna-se tempo humano na medida em que é articulado de maneira narrativa. A narrativa é significativa na medida em que ela desenha os traços da experiência temporal” e François Hartog, praticamente complementando Ricoeur quando diz em Evidência da História que “as escalas sucedem-se, uma cronologia narrativa instaura-se, uma cena no presente passado é seguida por outra, progressivamente a narrativa comprime o tempo. A ordem da narrativa transforma-se na ordem do tempo”.

Contudo não tenhamos a ilusão de que esses olhares são olhares neutros, que essa narrativa é uma narrativa descompromissada, mas assumamos a carga ética de que somos responsáveis enquanto historiadores, ao lembrarmos do que afirmou o historiador francês Michel de Certeau em seu livro A escrita da História: a narrativa historiográfica é o “espelho do fazer que hoje define uma sociedade, sendo ao mesmo tempo sua representação e seu reverso”. Que então, o nosso olhar no tempo e do tempo, seja, como quis este brilhante historiador, uma testemunha, ainda que frágil, e que traga nele a crítica necessária.

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sobre o autor

Articulista Hélio DantasProfessor de História em Manaus há 11 anos. Coordenador do Centro de Documentação do Colégio Amazonense D. Pedro II. Historiador, atuando na Secretaria de Estado da Cultura do Amazonas na Gerência de Patrimônio e Museu do Teatro Amazonas. É autor do livro Arthur Cézar Ferreira Reis: Trajetória Intelectual e Escrita da História (Paco Editorial, 2014). Tem particular interesse pela História dos Intelectuais e da Educação no Amazonas.