O murmúrio das sociedades

Em 5 de janeiro de 2018 às 08:00, por Hélio Dantas.

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O murmúrio das sociedades Durango Duarte

D. Aldamira Vieira de Souza, minha sogra, c. 1970.

Inicio o ano de 2018 e retomo a publicação de artigos por aqui escrevendo um texto inspirado pela minha sogra. Calma, leitores, não será nenhum texto sobre sogras no estilo satírico tão repisado no senso comum brasileiro. É que, revendo alguns álbuns de fotografias em casa, encontrei um álbum de família de minha esposa e uma foto, em especial, chamou minha atenção. Ela tinha pra mim aquilo que Barthes chamava de punctum.

Trata-se de uma antiga fotografia em preto e branco, onde minha sogra, d. Aldamira, posa com certo garbo, enquanto segura, de um lado, as trouxas de roupa, e na outra mão empunha um cacete, objeto utilizado para, literalmente, bater as roupas que eram lavadas, geralmente às margens de igarapés. Segundo minha esposa, a foto teria sido tirada pelo seu pai, por volta de meados da década de 1970, quando moravam no bairro da Compensa. Ele havia comprado uma câmera fotográfica Pentax para fazer registros da família.

O que mais me capturou nessa foto não é que ela me permitiria contextualizar o cotidiano de Manaus quando ainda existiam os igarapés limpos, ou qualquer coisa relacionada aos mundos do trabalho ou da classe trabalhadora, mas simplesmente porque ela me mostra um lampejo dessa tentativa de estetização do cotidiano, por mais duro que fosse, numa foto (que me lembrou por um instante A mulher mameluca de Eckhout!) feita não por um fotógrafo ou artista, mas por um homem simples.

O sociólogo José de Souza Martins, em seu livro A sociabilidade do homem simples, afirma que para as pessoas ditas comuns, os acontecimentos que ficam na memória são os que têm importância para elas, naquilo que é vivido e decifrado no cotidiano, no local. Para ele, a lembrança das experiências passadas fica marcada nos gestos, nos ritos, nas coisas que nem sempre são capturadas pela documentação escrita, mais ainda quando se trata de pessoas simples, pobres.

É, para mim, o caso dessa fotografia. Ela me faz lembrar as “astúcias anônimas das artes de fazer”, como nos falou Michel de Certeau em sua obra Invenção do Cotidiano: uma forma de vivenciar a sociedade de consumo, principalmente para as pessoas comuns, que, embora de maneira fugaz, desviam, escapam dos lugares fixos determinados pela ordem do consumo, e que conseguem sair “do consumo supostamente passivo dos produtos recebidos, para a criação anônima, nascida da prática, do desvio no uso desses produtos”.

Infelizmente (ou felizmente?) meus sogros já se foram, não podendo eu assim perguntar a eles as motivações, tanto de minha sogra posar para essa foto dessa maneira, como de meu sogro registrá-la, numa época em que as fotografias que, pelo seu custo e raridade, geralmente eram feitas para registrar momentos mais formais. Prefiro observar a foto e deixar que ela cale em mim minha sanha interpretativa. Basta que eles sejam meus heróis quase anônimos. Basta que eles sejam somente esse “murmúrio das sociedades”.

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sobre o autor

Articulista Hélio DantasProfessor de História em Manaus há 11 anos. Coordenador do Centro de Documentação do Colégio Amazonense D. Pedro II. Historiador, atuando na Secretaria de Estado da Cultura do Amazonas na Gerência de Patrimônio e Museu do Teatro Amazonas. É autor do livro Arthur Cézar Ferreira Reis: Trajetória Intelectual e Escrita da História (Paco Editorial, 2014). Tem particular interesse pela História dos Intelectuais e da Educação no Amazonas.