O mitômano alcunhado “Pará”

Em 10 de maio de 2017 às 08:00, por Lúcio Menezes.

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O episódio pode ter ocorrido nos idos anos 1974 ou 1975, não sei precisar, afirmo convicto que era um tempo de se dormir com as janelas abertas. Eu abusava das calças boca de sino (pantalonas), usava cabelos compridos; ouvia, principalmente, MPB, jogava futebol com os pés descalços, fumava cigarro Carlton e bebia cerveja, caipirinha ou Campari. Namorava, cantava em serenatas e roda de samba, uma época inesquecível.

Eu fazia parte de um grupo de amigos inseparáveis, uma turma que, temo, tende a se tornar olímpica, porque nossos encontros são cada vez mais raros, uma vez ao ano pra ser mais exato. Nesse ritmo eu não duvido que passemos a nos encontrar de quatro em quatro anos – isso se o Mestre não promover uma convocação intempestiva. Suponho que os responsáveis sejam os enjoos e manias que se instalam na gente, provocados pelo acumulo dos anos vividos. Cá entre nós, exceção feita ao vinho, velhice é uma merda.  Melhor idade um cacete!

Mas voltemos à fase dos hormônios irrequietos. Nessas empreitadas musicais encontrávamos inúmeros conhecidos, todos amadores, donos de vozes maravilhosas ou instrumentistas de primeiríssima linha. Também nos deparávamos com figuras exóticas, chatas, engraçadas, inteligentes, educadas ou não, discretas, apaixonantes, apaixonadas, passionais… e até mentirosas.

Um desses contadores de causos, um dos muitos filhos do Gepeto (pai do Pinóquio), era conhecido pelo apelido de Pará. Aquele era imbatível, a cara não tremia, eram mentiras de vantagem, conquistas, grandezas, todas de pernas curtas, às vezes de tão absurdas, nem pernas tinham, mas ele era inofensivo, suas estórias não carregavam cunho nocivo a nenhum de nós, em nada nos subtraia, apenas causavam perplexidade.

Não sei como nem quando ele surgiu e tampouco sumiu do nosso convívio, afirmo que esteve conosco em algumas dessas jornadas de corujões e morcegos. Numa delas, quando a sensibilidade já se fazia mais aflorada, eis que um dos meus pares quebra a expectativa reinante e pergunta: Pará, quem és tu?

Conhecíamos o lado “criativo” do Pará, desconhecíamos a nova face que naquela oportunidade ele nos revelou. Pará deixou escorrer pelo rosto um mililitro de lágrima de cada olho, e disse: “Meus amigos, muito obrigado, há muito eu aguardo por essa oportunidade”. Olhou para o Ariosto, nosso violonista mor, e verbalizou: “Ariosto, sola”. Ariosto ficou atônito, sem entender pedido tão surreal. Refeito do susto, debruçou-se sobre o pinho e mandou, magistralmente, Abismo de Rosas, de Dilermando Reis, violonista, compositor e professor de violão de Juscelino Kubitschek, o presidente bossa nova.

Pará então iniciou a sua apresentação com fundo musical, plateia, lua, estrelas e tudo: “Meu nome é Luciano Campbell dos Anzóis Pereira, meu pai…, minha mãe…, meu avô…, meu cachorro…, periquito…, minha escola…, minha vinda pra Manaus e blábláblá… E concluiu, só pra não perder o vício: “eu tenho o sangue azul”. Ploft! O Pará velho de guerra voltara ao normal, mais uma inverdade pra sua robusta coleção – somada às suas lágrimas teatrais, claro.

Peço vênia aos meus amigos paraenses e abuso da superfluidade da palavra: aquelas eram lágrimas de jacaré do mito maníaco, gente boa e agora artista, Luciano. Para os que desconhecem, naquela época e desde sempre, os amazonenses costumavam chamar os paraenses de jacaré. Reza a lenda urbana que os paraenses são comedores de jacaré. Bem, ultimamente tem muito amazonense que não consegue, nas feiras e mercados, distinguir a diferença entre a carne do pirarucu e a do jacaré, tem muito barezinho comendo jacaré crente que é pirarucu.

Mais de vinte anos depois, agora com a maturidade instalada, em Belém, na casa do meu amigo Felipe Chamma, inesperadamente eu o reencontrei. Fiquei feliz ao vê-lo, ele também – pelo menos eu tive essa impressão. Conversamos, jogamos futebol – numa jogada mais afoita ele ralou o joelho –  e bebemos uns drinques depois dos “rachas”.

Não é correto julgar pela aparência, mas posso afirmar que dificilmente ele não era como eu, um simples plebeu. Por via das dúvidas cuidei de olhar o ferimento exposto pela raladura e pude constatar que o sangue que escorria não era azul.

Luciano foi um paraense pai d’égua que passou em minha vida, sumiu da minha vista, do meu convívio, mas não da minha lembrança. Não duvido que tenha enveredado pele trajetória política, discurso, falsas promessas e simpatia ele esbanjava. O Pará sobrava.

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sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.