O Haiti, o picolé da massa e os 7 a 1

Em 10 de junho de 2016 às 11:22, por Jeferson Garrafa Brasil.

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Quando passar por você um desses haitianos oferecendo “picolié da masha, um rialll”, seja generoso, e, até mesmo, compre um. Pode ser a oportunidade única de estar frente a frente com um legítimo descendente de um bravo guerreiro, que lutou pela independência do Haiti lá pelos idos do Séc. XVIII. Não precisa se curvar, mas com um pouco de sorte, aquele negro de jeito submisso e olhar acuado, pode ter uma fração de DNA de algum rei ou divindade da mãe África. E, suprema ventura, pertencer a linhagem do próprio Toussant L’Overture,  o negro que conduziu seu povo naquela  sangrenta luta por liberdade.  Nessa altura do campeonato você já percebeu que, ao contrário dos negros daqui, que receberam risonhamente suas cartas de alforria, os de lá conquistaram sua liberdade na raça e na marra. Teve preço? Sim, e foi muito alto. Altíssimo, diria. Mas isso é história pra outra hora ou pra outra cerveja.

Só pra ilustrar, o Haiti foi a primeira nação independente da América Latina, e a única no mundo que obteve sua independência a partir de uma rebelião de escravos. Se não estou enganado, foi também a primeira e única nação negra fora do continente africano. Anyway, como diria meu brother Simão Pessoa, “te mete”.

Há algum tempo, li verdadeiras aberrações contra a presença dos refugiados haitianos pelas ruas de Manaus. No mínimo, falta de solidariedade. Como os deuses do Olimpo parecem estar meio descuidados na proteção aos templos da Grécia – a coisa por lá anda pretíssima – gostaria muito de ver a reação de algumas figuras carimbadas – daqui e alhures –  se no lugar dos pobres negros haitianos aportassem por aqui os Papadopoulos e Yanopoulos da vida. E olha que tem muito haitiano com chique sobrenome francês.

Meu espaço pro texto acabou, e eu queria mesmo era falar dos 7 a 1. Não o da Alemanha, aquele estupro moral, coletivo e imprescritível, infelizmente não previsto no nosso ordenamento jurídico. Mas, sim, falar dos 7 a 1 dos Canarinhos (tenho saudades desse termo) em cima da aflita seleção haitiana. Se duvidar – e eu duvido – o Haiti não é páreo nem pro máster do Geraldo Bocão, Genivaldo, Paulo Onça; o juvenil do São Cristovão ou, quiçá, o dente de leite do Corinthians. Não tem vodu que salve aquelas almas penadas tentando entender o que estavam fazendo ali, entre as quatro linhas. E ouvir Galvão Bueno e Cia falando em triangulação, infiltração, marcação na saída de bola, pressão, etc é demais pro meu coração. Não dá! Confesso que, num dado momento, achei que ele fosse ter um orgasmo durante a transmissão. Mudei de canal, e fui assistir os debates da comissão do Impeach.  Bem mais divertido.

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sobre o autor

Articulista-Jeferson-BrasilFoi baterista, segundo ele, do sofrível conjunto musical “Os Paqueras”. Jogou basquete, futebol e tênis de quadra. Admite, orgulhosamente, que seus dois irmãos jogavam muito mais. Sua vingança é hoje ser corredor de rua, com sonho de virar maratonista. É cronista bissexto.