O fim do consenso

Em 22 de dezembro de 2017 às 08:00, por Gilson Gil.

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O pré-candidato à presidência da república Jair Bolsonaro veio a Manaus em dezembro e foi recepcionado por milhares de pessoas. Fez um discurso forte e polêmico, que gerou alguns debates nas redes sociais. Um fato curioso é que muitas pessoas estranharam o teor dessas declarações, ostensivamente violentas e reabilitando o período da ditadura militar.

Penso que a origem desse estranhamento e desses debates sobre os rumos do país possui suas raízes nos anos 80. Nessa época, a luta contra a ditadura e a redemocratização era uma unanimidade entre as forças políticas. Muitas esperanças eram depositadas na democracia. Seria o fim da pobreza, a redução da violência urbana, a melhoria da educação e da saúde e o crescimento do emprego, entre outros benefícios. Nesse momento, ocorre um certo “consenso” político de que o país precisaria cuidar dos mais pobres, das minorias, de que a tarefa do Estado seria atender às pessoas necessitadas e que a ditadura seria a causadora de todos os males de nossa sociedade.

Esse consenso atravessou a opinião pública brasileira por cerca de trinta anos. Todos os partidos brasileiros, com nuances, respeitavam isso, propondo programas, bolsas, auxílios e subsídios os mais variáveis, ano após ano. Mesmo Collor, que a esquerda acusava de neoliberal, se dizia um “social-liberal, e tomou limitadas atitudes no sentido real de liberalizar nosso mercado.  Além disso, a esquerda, que perdeu o combate político nos anos 60 e 70, venceu o duelo cultural na opinião pública e firmou um certo “a priori”, que nunca foi contestado de que lutara pela democracia e que a ditadura interrompeu o desenvolvimento de um país que avançava “normalmente” em direção ao primeiro mundo.

Contudo, o que os últimos quatro ou cinco anos mostraram é que esse suposto “consenso” acabou. Elogios à ditadura começaram a ser livremente proferidos. A ideia de que a esquerda defendia a democracia nos anos 60 começou a ser revista por historiadores consagrados academicamente. Uma opinião pública de cunho liberal começou a ser soltar e a questionar determinados pressupostos socializantes, anteriormente tidos como inquestionáveis. Enfim, houve uma dissolução daquele “consenso socialista” gerado pelos anos 80 e que a Constituição de 1988 foi o maior feito, pelas mais variadas razões. Liberais, socialistas dos mais diversos matizes, comunistas, anarquistas, direitistas, entre outros movimentos e ideologias, começaram a sair do armário. Isso sem falar dos movimentos da micropolítica, referidos a questões de gênero, etnias etc, que afloram diariamente.

Em 2018, em minha opinião, teremos a primeira eleição presidencial sem esse “consenso” dos anos 80. Há opiniões bem diferentes sobre o papel do Estado, o teor da ditadura, o que é democracia, as prioridades econômicas e a relação mercado x serviço público. Isso tudo somado aos problemas do cotidiano, como violência, desemprego e recessão, que atingem das formas mais variadas a população, nos seus diversos estratos.

Esperemos pelos debates. Certamente serão muitos animados. As diferenças estão mais claras e explícitas. Consensos e aproximações estão muito distantes. É esperar para ver aonde iremos e sob qual liderança…

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sobre o autor

Articulista-Gilson-GilCarioca, nascido em Madureira e criado no Catete. Sociólogo e professor da UFAM, já trabalhou em várias instituições de ensino no Amazonas e em outros Estados. É torcedor do Flamengo, está em Manaus desde 1992 e possui uma filha meio carioca, meio manauara. Torce pela cidade e pelas pessoas que aqui vivem.