O filósofo jornaleiro e sua banca intocável

Em 15 de fevereiro de 2018 às 08:00, por Otoni Mesquita.

compartilhe

Quase nada se sabe sobre sua pessoa, somente sobras ou sombras de uma personalidade marcante. Não posso afirmar que o conhecido. Tivemos apenas um breve encontro, ou desencontro, que para mim pode ter ocorrido prematuramente, enquanto que para ele, talvez já fosse muito tarde para o pouco de tempo e paciência que ainda lhe restava.

Poderia ter sido um filósofo, ou simples contestador com alguma leitura, ou um intelectual que por seu posicionamento crítico tenha perdido postos significativos e possibilidades relevantes. Possivelmente fora vetado pelas artimanhas próprias da rede de controle montada e exercida pela ditadura, que ainda se mantinha em vigor no país, naquele momento.

Poderia ser também um capitão do exército, recém reformado por não se adequar aos novos ares assumidos pelo regime militar, que começava a esgarçar por uma série de acontecimentos e sob pressão prometia algumas aberturas. Mas como controle ou punição, o pobre homem passava os dias ouvindo a repetição de uns poucos e mal elaborados comentários sobre a política nacional. Além de enfrentar cotidianamente as contínuas denúncias e o crescente clamor exposto pela mídia, exigindo mudanças democráticas no país.

Enfim, não saberemos com precisão de onde veio e para onde se foi o velho homem. Pela idade aparente, podemos deduzir que já deve ter partido há pelo menos duas décadas. Neurastênico com certeza, mas certamente tinha suas razões. Todos os dias ele chegava bem cedo à banca e se esmerava na disposição das publicações, destacando algumas em detrimento a outras. Aquilo parecia ser a sua principal tarefa.

Pode ter sido apenas um leitor e pensador desajustado que por sonho ou falta de alternativa se submetera aquela função quase humilhante perante toda a experiência e conhecimento que carregava. Retido, literalmente aprisionado em uma banca de jornal, sem a possibilidade de prever encontros enriquecedores.

A banca ficava localizada em frente a uma entrada de um supermercado na Rua do Catete, quase esquina com o Largo do Machado. Creio que as obras do metrô ainda não estavam completamente concluídas naquela área da cidade, nem eu me sentia ainda completamente seguro na cidade maravilhosa.

A cena se passa bem no começo dos anos oitenta, quando as bancas de revistas ainda eram muito simples, provavelmente de placas metálicas, sem qualquer atrativo, que não, as coloridas capas das revistas e o estardalhaço das manchetes dos jornais.

Agora já não tenho dúvidas que a disposição das revistas, na verdade era a elaboração de um discurso cifrado, atualizado diariamente, na tentativa de manter determinados contatos, ou protesto a ser compreendido e interpretado. Ainda que pelo nível de sofisticação impregnado em suas articulações se restringisse a um público restrito. Era destinado somente aos iniciados. Entretanto, com certa razão ele previa que a massa de transeuntes ignorantes, que ali circulava não seria capaz de fazer qualquer relação entre uma capa com uma imagem elucidativa e uma instigante manchete na primeira página de um jornal disposto ao lado.

Ai dos mortais que arriscasse se aproximar do seu púlpito ou templo imaginário, ou que ousassem tentar deslocar algum dos elementos que integravam a ordem estabelecida de seu discurso. Quanto aos infratores, ele era completamente imparcial, não distinguindo jovens estudantes, de senhoras aposentadas; profissionais liberais de funcionários públicos; bancários de banqueiros. Repreendia bravamente, franzindo o cenho franzido e elevando sua áspera voz.

 Desavisados se retiravam embaraçados, no mínimo constrangidos. Mas, mesmo pegos de surpresa, alguns ainda esboçavam alguma contestação, que não ecoava. A maioria dos repreendidos não conseguia entender sua atitude, sobretudo, quando elucubravam sobre as reais funções de uma banca de revistas, mas por respeito aos seus cabelos brancos, se calavam.

As revistas e livros ficavam dispostos no balcão da banca, seguindo uma ordenação bastante conservadora, enquanto que algumas outras publicações ganhavam destaque, pendendo do alto e nas laterais, em torno da abertura. Ficavam firmemente presas com uma espécie de pregadores de roupa, como que propositadamente para dificultar qualquer manipulação. Contudo, nem sempre os preços dos produtos se encontravam evidentes, obrigando muitas vezes, que os interessados tentassem manipular uma ou outra publicação em busca do esclarecimento.  Pobres daqueles mais afoitos que ensaiassem retirar a publicação para melhor investigar algum detalhe ou sugerissem a intenção de folhe-los.

 O jornaleiro esbravejava e não havia qualquer argumentação capaz de conter sua ira. Ao ser surpreendido em uma desta situação, tentei argumentar afirmando que estava tentando descobrir o preço da revista e eis que ele vira pra mim, como um velho mestre da academia grega que fora desagrado em plena aula de filosofia em algum longínquo anfiteatro me disse __ Não venha com sofismas!!

Em seguida esbravejo alguns outros impropérios que o meu restrito nível de erudição não me permitia decifrar, nem mesmo registrar. Surpreso, contestei esbravejando alguns xingamentos desarticulados e me retirei indo em direção a minha tia que a esta altura já saia do supermercado. Ao reclamar pra ela da atitude do vendedor que recusava clientes, retrucou que o velho era meio doido e já fora grosseiro com ela, tanto que nem se aproximava de sua banca.

Ficou lá, perdido num tempo que já passou, mas gravado em minha memória. Não sei se por maldição ou assimilação de personalidade, agora sua bizarrice se manifesta em mim mesmo.

sobre o autor

Amazonense, artista visual e historiador da cidade. Gosta de literatura, música, cinema e fotografia. Não dirige, mora no centro da cidade. Nada no Nacional e anda pela cidade olhando e fotografando pequenas coisas.

comentários

Uma resposta para “O filósofo jornaleiro e sua banca intocável”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *