O dia em que Nossa Senhora dos Milagres se chamou Almira

Em 11 de Abril de 2018 às 11:00, por Lúcio Menezes.

compartilhe

No inicio da década de 1970, o Brasil vivia o “milagre econômico”, época do regime de exceção – governos Médici e Geisel. Na primeira metade daquela década iniciou-se a consolidação de programas televisivos em cores; o General Pinochet, via golpe militar, derrubou Salvador Allende no Chile; com a derrota dos Estados Unidos, terminou a Guerra do Vietnã; eclodiu a crise mundial do petróleo; a Revolução dos Cravos acabou com o regime militar em Portugal; após o escândalo Watergate, Nixon renunciou a presidência dos Estados Unidos; em 14 de janeiro de 1970, explodiu a caldeirada Santa Casa de Misericórdia de Manaus; entre 1972 e 1975, Frank Abrahim Lima era o alcaide de Manaus.

Naqueles anos, na minha Rua, Flavio Augusto Vieira da Rocha, o saudoso Papinha, ouvia os jogos do Flamengo exibindo o seu novíssimo Rádio Transglobe, transistorizado, valvulado, oito faixas e com a antena espichada nas alturas. Zezinho Lemos preferia ouvir os jogos do Fluminense no Clube Continental, no porão da sua casa, ou no escurinho do cinema, a andar de um lado para o outro, às vezes fazendo escala no banheiro, mas sem desgrudar o radinho do ouvido. Arnaldo Russo, o nosso Peppino di Capri, dividido entre duas paixões, ora ouvia os jogos do Vasco ora os LP’s da recém-desfeita Banda de Rock, The Beatles, na sua moderníssima Vitrola portátil Belair.

A Turma dos “um pouco mais velhos da Rua” agregava muitos, poucas eram as opções de lazer. Noves fora o futebol restava bater papo na esquina, passar trote – tema para reminiscência futura -, outras tantas brincadeiras e… Bem, pra quebrar a monotonia era preciso aprontar alguma.

Mercearia ou Bar Nossa Senhora dos Milagres era o nome do comercio da esquina da Rua José Clemente com a Rua Lobo d’Almada. Depois da tragédia da explosão da caldeira da Santa Casa, a referência ficou sendo “aquele bar na outra esquina da caldeira que explodiu”, assim, em pouco tempo, Manaus inteira passou a chama-lo Bar Caldeira.

Talvez por acolher figuras de destaque da sociedade manauara, quem sabe por ser um núcleo de formadores de opinião, o certo é que o Caldeira era um palanque nada desprezível, assim, o prefeito Frank Lima resolveu inaugurar uma placa rebatizando o (a) Nossa Senhora dos Milagres, agora, definitivamente, Bar Caldeira. A placa era de ferro, pequena e retangular, igual a umas poucas que ainda resistem, heroicamente, no centro da cidade, penduradas em postes de madeira pintados de azul, presos por frágeis argolas de ferro. Instalaram-na bem na esquina e cobriram-na com um pano para que fosse descerrada pelo prefeito no dia seguinte, um sábado.

Era um prato cheio, a placa ali, pendurada, novinha, cheirando a tinta, pedindo pra ser a próxima vitima da imaginação criativa da Turma da Rua. Não deu outra, idealizada por Otávio Rocha, recebeu a adesão do Robertinho Caminha, Bosco Spener, Danilo Pires, Papinha, Geraldo Aguiar, Pedro Russo e tantos outros. Na calada da noite a dita cuja foi substituída.

Dez horas da manhã, um sol de lascar, a esquina estava tomada por frequentadores do Bar, moradores da Rua, curiosos, repórteres, fotógrafos, banda de música, funcionários comissionados da Prefeitura, vereadores, outras autoridades constituídas, prefeito e os autores da presepada.

Anunciado e recebido com palmas o chefe do Executivo Municipal começou a discursar: lari, lari e lari lari, até que num sincronismo perfeito  fogos estouraram, a banda tocou e o pano que cobria a placa caiu. Desnudou-se a placa com a inscrição “Almira Cabeleireira” (?!?!?!). Foi um corre corre, um caça às bruxas, um salve-se quem puder, um não tô entendendo nada e todos os olhares a perguntar: que porra é essa?

Almira Cabeleireira era o salão que ficava duas casas depois do Bar Caldeira, de propriedade do cabeleireiro Almir, que preferia ser chamado de Almira Castilho ou Akiko. O mal estar das autoridades foi amenizado pelos risos escancarados dos membros da Confraria do Caldeira, que logo deduziram quem eram os autores daquela “obra”.

O Prefeito, interiormente, xingou a humanidade, mas externamente rio, deu um tempo pra disfarçar o desconforto depois se mandou. Evento desfeito, os irmãos Caminha, imortais da Confraria, mataram a charada, foram ao salão do Almir, resgataram a placa original que lá estava escondida e fizeram a troca.

À noite e madrugada à dentro, o “banquete” preparado e ofertado ao Prefeito alimentou o papo daquela turma de apetite insaciável.

As escrituras sagradas não registram, mas por algumas horas, antes de mergulhar na Caldeira, Nossa Senhora dos Milagres se chamou Almira.

sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.

comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *