O desaparecimento da leiteira dos Andradas

Em 15 de agosto de 2017 às 08:00, por Otoni Mesquita.

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Levaram a leiteira dos Andradas. Não estou falando de um artefato utilitário, que serve para armazenar leite, mas daquela profissional, que outrora saia pela rua, vendendo leite de porta em porta. Mas é quase certo que elas não circularam por Manaus. Mas havia um exemplar delas na rua dos Andradas e desapareceu há pouco tempo.

Certamente não era uma peça rara. Pode ser que fosse apenas uma referência a vida campestre que pretendia remeter a uma tradição familiar de seus proprietários. Não devia alcançar um metro de altura, mas sua delicadeza atribuía um diferencial a residência. Confeccionada em louça ou faiança, permaneceu ali por várias gerações, mas não era uma cabocla nativa, provavelmente tenha sido trazida de Portugal ou algum outro país europeu. Permanecia em seu pedestal, em uma das pilastras de sustentação do portão do imóvel de número 440, da rua Miranda Leão 440. Portava um avental sobre a saia e carregava um balde, em sua mão direita, talvez não encontrasse maiores prazeres naquela função.

Não creio que tenha sido um sequestro relâmpago, tão comuns em nossa era, nem que tenham pedido qualquer resgate ou que tenha ganhado algum espaço na página policial, ultimamente tão encardida de vermelho. Sem uma investigação mais profunda, sou levado a acusar o nosso tempo como o principal suspeito. Ele mesmo, um sujeito invisível, mas apoiado por muitos cumplices, que invadem tudo, arrasam, mas também constroem e trazem inovações. Ainda que redundante, insisto em acusa-lo a cada momento, como o culpado pela exclusão de práticas e pensamentos que já não servem aos novos interesses. Tenho certeza que o desaparecimento da leiteira se deve única e exclusivamente a ele, completamente embriagado pelas aparentes vantagens de um discurso tão sedutor quanto falacioso de uma tal de modernidade. Ela, sempre carregada de propostas comodistas e consumista, num processo de substituição que degrada a paisagem natural e os próprios valores humanos.

Não tenho qualquer referência históricas sobre a existência de leiteiras, entre as trabalhadoras, nas ruas de Manaus. Na década de 1860, a cronista, norte americana Elizabeth Agassiz, chama atenção para os aguadeiros de Manaus. Vendedores de ambulantes que carregavam água em potes avermelhados. Aguas que coletavam dos límpidos igarapés que recortavam a cidade para vender a população. No entanto, a autora não faz menção a atuação de mulheres, nesta função. Contudo, posso falar alguma coisa de outros vendedores que circulavam na cidade da minha infância. Cem anos depois das observações de Elizabeth, Manaus havia se transformado completamente, mas voltava a ser vista como uma pequena cidade insignificante, perante as mudanças que haviam se processado no mundo.

Para uma criança, naquela época, a cidade era muito grande, ainda que pudéssemos caminhar por quase toda ela, sem correr grandes riscos. Costumo dizer que Flores e Chapada eram nossas periferias, pois eram pouco habitadas. O traçado urbano avançou muito pouco além dos traços do mapa de 1893, por isso era uma cidade razoavelmente harmônica, ainda que muito conservadora e provinciana. Grande parte de suas ruas centrais calçadas com paralelepípedos, enquanto outras eram forradas com a pedra jacaré, aquele granito rosa, que se encontra na beira do rio Negro, que alguns chamam de granito Manaus.

Por estas ruas circulavam muitos vendedores ambulantes, lembro ainda da persistência dos peixeiros, bucheiros, vendedor de frutas, cascalheiros com seus triângulos, que de longe atraiam as crianças. Incluíam-se entre estes profissionais ambulantes, os leiteiros, que eram muito comuns, assim como os carroceiros com suas carroças de madeira, transportando mudanças e carregando materiais de construção, além de uma diversidade de vendedores de produtos naturais, incluindo aquelas guloseimas açucaradas, como a broa e o rala-rala.

Pequenas embarcações, carregadas com baldes de leite chegavam no Roadway, de onde era distribuído o produto, que vinha principalmente do Careiro. De vez em quando havia reclamações de consumidores sobre o leite adulterado com as águas do rio Negro.

Naquela área, que ia do Roadway, se estendendo pela praia do mercado e que ia até a escadaria dos Remédios, também circulavam muitos catraieiros, com seus remos duplos e protegidos por uma cobertura de lona, se deslocavam pelo rio vendendo pão doce com garapa, para os usuários das embarcações que faziam linha pro interior e tinham uma clientela grande entre os trabalhadores da área. Se era bonito ou tradicional já não importa mais. Foram apagados, um a um. Aos poucos, foram desaparecendo, num processo quase imperceptível para a maior parte da população, tão preocupada em se inserir nas novas exigências que o ritmo da cidade estabelecia. Talvez ainda haja alguns que preservem parcialmente alguns hábitos daquela época. Mas muito em breve estarão todos exterminados, assim como os homens da caverna o foram.

Nos anos setenta, o mercado grande perdia espaço e movimento para os supermercados que pipocavam pela cidade, com suas prateleiras sortidas de novidades, sobretudo as do Mercado Boths Line, com sua variação de produtos importados. Neste processo, o leite in natural também perdia sua importância para inúmeras marcas de enlatados estrangeiros. Marcas como a Sandem e o Campo Verde, ganhavam maior espaço no gosto e no novo ritmo que a população começava a adotar. Além disso, os novos produtos contavam com fortes aliados, ou seja, a aparente segurança do produto, as facilitações na conservação e preparo além do preço, razoavelmente acessível. Contava ainda, com uma publicidade intensa na recém instalada TV Ajuricaba, cuja novidade já se constitui por si só uma mídia sedutora, mesmo que veiculasse anúncios pouco sofisticados e muitas vezes, ao vivo.

Apesar de todas as mudanças processadas nos costumes e na paisagem da cidade, ela se mantinha lá naquela área bem tradicional, quase despercebida, sobre o seu pedestal. Ela ficava em frente ao portão de fundos do Palacete Nery. Nesta posição pode testemunhar muitas mudanças processadas, não somente no imóvel, que preciso assumir variadas funções para sobreviver, até sua recuperação e reforma recente. Ela ainda estava lá quando a obra foi concluída, mas não esboçou qualquer reação ou crítica.

Naquela área, era possível ver um pouco das mudanças que se processavam na cidade, assim foi possível perceber, épocas com alguma animação comercial e o crescimento da especulação imobiliária. A cidade passava por diferentes surtos ditos de progresso, acelerando um crescimento desordenado que só aumentava a sensação de insegurança, em seus moradores. Há três décadas, muitos deles, começaram a se retirar, preferindo se recolher em condomínios fechados, em geral, em áreas mais afastadas.

Em virtude desta debandada em busca de segurança e espaços mais sofisticados, o centro histórico ficou parcialmente esvaziado de suas famílias mais tradicionais, e por outras diferentes razões, muitas residências ficaram abandonadas. Foi um lento processo de desqualificação da área central, que passou a ser ocupada por novas populações, com seus pequenos comércios, hotéis rotativos, bares improvisados e espeluncas que se multiplicam com seus puxadinhos. Sem qualquer cerimônia descaracterizam e degradam construções históricas, ainda que na área persista alguma animação comercial.

Cadê nossa leiteira? Nessa confusão, você está se perguntando. Pois é, ela sumiu, mas não foi um processo abrupto como possa parecer. Primeiramente, atendo aos temores da época, ela, juntamente com a residência, ficou enjaulada, para impedir que gatunos e outros marginais perturbassem a paz de seus moradores. Enjaulada, como se estivesse num zoológico, era vista por trás de grades e grandes espinhos pontiagudos, ainda que pouco cuidassem dela. Estava coberta com musgo verde, que começava a se constituir um manto natural. Nesta situação de semiabandono, ela permaneceu por muitos anos. Triste, mas impassível como se espera de qualquer ser inanimado.

Um dia qualquer, talvez tenham saído todos, tenham ido embora, pode ser que tenham se mudado, com toda mobília, ou morrido sem deixar herdeiros. Mas ela, ficou lá, esquecida sobre o pedestal, mas não por muito tempo. Pois em uma cidade onde há muitos pobres e miseráveis, onde tudo se vende e se compra, não demorou muito, ela também desapareceu. Como se suas pernas pudessem lhe conduzir para outro lugar.

Não me informei sobre os autores do rapto ou da condução coercitiva. Quem a levou? Não sei, mas não se encontra lá. No lugar, a pilastra vazia continua protegida por suas grandes, mas ela pode estar em algum jardim ou na sala de estar de um destes apartamentos modernosos que se espalham em diferentes áreas da cidade.

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sobre o autor

Amazonense, artista visual e historiador da cidade. Gosta de literatura, música, cinema e fotografia. Não dirige, mora no centro da cidade. Nada no Nacional e anda pela cidade olhando e fotografando pequenas coisas.