O CERN das Coisas

Em 9 de junho de 2016 às 08:00, por Henrique Pecinatto.

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Viajemos outra vez no tempo. Desta vez, um homem da era moderna (pode ser deste século) entra numa fictícia máquina do tempo com uma missão: enviar um presente que represente a evolução da humanidade para as primeiras formas de Homo sapiens. O que ele escolhe? Um relógio! Mas não um relógio qualquer, um relógio automático de pulso.

Os motivos? Bom, um relógio condensa inúmeros avanços filosóficos, a invenção dos números e seu significado, a ideia de tempo e como quantifica-lo em unidades, a arte de trabalhar sofisticadamente com metais, conceitos físicos como a conservação de energia (por trás disso está a base para o relógio ser automático), entre tantos outros, e o fato de ser de pulso nos diz que hoje o conhecimento está acessível à grande parte de nós.

No fatídico encontro, o estranho objeto é deixado com o Homo sapiens, e o homem moderno retorna a realidade. Muito intrigado com o que seria essa coisa, provavelmente o Homem pré histórico receoso com o seria essa coisa, o analisa com cautela. No silencio ele ouve um Tic-Tac num ritmo harmonioso, e observa através de um vidro (reitero que ele não faz a mínima ideia do que seja um vidro) uma pequena haste se movimentando. Este é o exato momento em que seu instinto avançado de defesa entra em ação. “Como pode um negócio se movimentar assim?” Sem entender o que se passa e talvez com medo (este, a meu ver o real motivo), nosso ancestral tenta eliminar seu “inimigo” acertado-lhe uma pedra. O que ele vê? Que seu “inimigo” não era tão forte assim.Vários pedacinhos se espalham, e o antes “inimigo” se torna alvo de muita curiosidade.

Observa-se que esses pedacinhos são os constituintes desse objeto, e com uma análise mais de perto e talvez mais uma ou duas pedradas, é possível ver que estes pedacinhos estão interligados e esse arranjo faz a haste se movimentar. Eis o primórdio entendimento de como funciona um relógio, porém entender para que o mesmo serve é mais complicado.

Nossa viagem ao tempo termina aqui, mas a semente da ideia de que quebrar coisas para saber como elas funcionam parece ter florescido e dado bons frutos. Parece-me também que saber como as coisas funcionam é um bom passo para saber para que elas servem.

Sob o mesmo princípio que opera o LHC, o Grande Colisor de Hádrons (Large Hadron Collider), administrado pela Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear, CERN. É grande mesmo, pois este colisor cuja forma se assemelha a um anel, tem uma circunferência de quase 27 Km, sendo considerado o maior, mais moderno, mais sofisticado equipamento construído pelo homem. Mas neste caso não estamos falando de colisões entre relógios, e sim dos pedacinhos dos pedacinhos dos pedacinhos (assim várias vezes), que chamamos de próton (neste caso específico é o próton, mas existem muitas outras partículas tão pequenas quanto), que é um hádron (por isso o “H” no LHC).

Próton é uma das partículas fundamentais (bem como os elétrons e os nêutrons) e se localiza no núcleo de um átomo, tendo sua quantidade em cada núcleo atribuída a existência dos diferentes tipos de átomos, ou seja, se há um próton no núcleo, este átomo é de Hidrogênio, dois, de Hélio, e assim sucessivamente.

Quando nosso ancestral acertou o relógio com a pedra, viu-se que se partira em algumas partes. Se tivesse acertado o relógio com muita força, certamente iriam aparecer mais pedacinhos. Extrapola-se isso ao extremo com os prótons no LHC, onde são acelerados em direções opostas até atingirem uma velocidade que seja muito próxima a da luz! Por isso é necessário ter dentre outras coisas, um comprimento tão longo. Com uma colisão dessa magnitude, observa-se que os prótons também são formados por outros pedacinhos ainda menores, e um dos principais objetivos da criação deste equipamento é justamente encontrar uma partícula que foi teorizada ser a responsável pela massa das coisas, o bóson de Higgs (na verdade há um forte indicativo que a detectaram, e rendeu até um Nobel de Física em 2013 para Peter Higgs, um dos cientistas que a previu).

Outras infinidade de pesquisas tem sido feitas nos diversos detectores do LHC, com os mais diversos objetivos, e desde a invenção dos aceleradores de partículas, muitas das tecnologias ali criadas chegaram ao público geral, dentre elas a internet. Como os dados dessas colisões são extensos, são necessários muitos cientistas para analisá-los e o e-mail fora criado para esta finalidade. Recentemente uma fuinha (isso mesmo, uma fuinha) no auge de sua sapiência, roeu um dos cabos que fornecem energia ao LHC, interrompendo o funcionamento de um equipamento de 7 bilhões de dólares. Talvez estivesse tentando derrotar seu “inimigo”, mas infelizmente veio a falecer.

Por fim, vimos alguns dos inúmeros percalços para poder saber de que as coisas são feitas, e consequentemente como são feitas, mas a humanidade já avançou muito nesse assunto, e com investimento em pesquisas e em recursos humanos é uma questão de tempo o “relógio” estar montado, e então ter mais uma forma para entender o “para que”.

sobre o autor

Henrique PecinattoAprendiz nível II de Físico, que em minha escala significa "falta muito para entregar a dissertação". 30/49 amazonense e apaixonado por esportes. Um curioso por natureza e da natureza, acha engraçado o caminhar das formigas, e amante de ímãs, mas tem um certo temor de eletrodinâmica.

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