O CANTO DAS CIGARRAS SOBRE O DESERTO

Em 27 de junho de 2018 às 14:30, por Otoni Mesquita.

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Para nós não era nada espetacular, poderia se comparar a alguma coisa tão natural quanto à cigarra se desprendendo de sua casca, após se guardar nela por dezessete anos, maturando no interior da terra.

Fora um tempo demasiado longo e obscuro. Por isso, aguardávamos ansiosamente pelo momento de aflorar e saudar a primavera com o nosso canto.

Com a terra amolecida pelas chuvas foi possível abrir passagem e subir. Simplesmente seguimos o instinto que nos puxava em direção ao sol. Ao chegar a superfície estamos cobertos de barro. Buscamos uma torre que com segurança nos garantisse a retirada das cascas.

Enfim, retiramo-las como cavaleiros medievais se desfazem de suas armaduras após um período de longas e cansativas batalhas. Ficamos nus e saímos em busca de um local onde pudéssemos secar.

Soltamos o nosso canto a reverberar nos dias longos e quentes de verão. Contentávamos-vos com este mundo por desconhecer a existência de qualquer outro. Mas não escondíamos a decepção de não encontrar aquilo previsto por nossos instintos. Sabíamos de variados verdes e suaves azuis a animar os mais belos dias. Mas estas ausências não nos retiraram a sensação de renascer para um novo mundo, ainda que só nos restasse longos desertos.

Ruídos que perturbava nossos ancestrais já não soam mais, cessaram completamente. Agora apenas o zunir constante do vento que passa sem qualquer impedimento. Ainda que não encontremos qualquer impedimento para o nosso cantar, não podemos afirmar o mesmo quanto aos suportes para nos sustentar. Um universo despido de elementos verticais.

As disciplinadas operárias que passavam o seu tempo todo a trabalhar cortando e transportando folhas desapareceram, assim como os vegetais. Mas ainda encontramos as ruínas de suas torres de terra, sendo continuamente arrastadas pelo vento, que as deslocam ao seu bel prazer.

O sol vermelho e intenso mantém o intenso calor de todos os dias, sendo substituído por frias noites prateadas. Não sabemos como daremos continuidade, mas é evidente que nossa passagem por aqui é muito breve.

Restos de cidades ainda guardam monumentos e cenas de atrocidade. Permanecem iluminados os letreiros coloridos com suas múltiplas imagens. Luzes coloridas se deslocam sobre os outdoors e sugerem movimentos e profundidades inexistentes. Brinquedos articulados se deslocam pelas calçadas vazias, fazendo ruídos repetitivos. Há máquinas espalhadas por todos os lugares, com ruídos e palavras de ordem.

Dos homens ficaram imagens e vozes a se repetir constantemente. São mensagens para vender produtos e propagar ideias. Talvez haja entre elas, alguma verdade. Mas quase tudo produto artificial para apagar o homem e a naturalidade das coisas. Vendem pensamentos e sensações de bem-estar, complementos amplamente aceitos como o avanço do conhecimento. A criação do homem artificial.

sobre o autor

Amazonense, artista visual e historiador da cidade. Gosta de literatura, música, cinema e fotografia. Não dirige, mora no centro da cidade. Nada no Nacional e anda pela cidade olhando e fotografando pequenas coisas.

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