No tempo em que eu era fanático por futebol

Em 5 de Março de 2018 às 10:51, por Lúcio Menezes.

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Que me perdoem os contrários, mas parafraseando o essencial Dorival Caymmi: brasileiro que não gosta de futebol “bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou doente do pé”.

Eu era torcedor do Nacional Futebol Clube desses de chorar na derrota e na vitória, de adoecer quando o Atlético Rio Negro Clube, no dia 22 de agosto de 1965, nos sapecou humilhantes 7 x 2. Naquela época o futebol brasileiro era absoluto, tínhamos o Rei, vínhamos da conquista de duas copas do mundo consecutivas, perderíamos a de 1966 na Inglaterra, mas retomaríamos a hegemonia quatro anos depois, no México. Como não ser contaminado pelo vírus?

Inesquecíveis aqueles times do São Raimundo de 1966: Valdir Melo, Nonato, Paulinho, Waldir Santos e Zezinho, Fredoca e Itagiba, Melo Airton, Santarém e Almir; o Olímpico Clube de 1967: Procópio Sidney, Faustino, Russo e Salles, Xerém e Jarbas, Cascadura, Irailton, Gilberto e Santiago; o Nacional de 1968: Marialvo, Pedro Hamilton, Sula, Berto e Téo, Mário e Rolinha, Zezé, Rangel, Lió (ou Pretinho) e Pepeta. Assisti a jogos memoráveis no Parque Amazonense, no Estádio da Colina (Ismael Benigno) e, no Estádio Vivaldo Lima, a Seleção brasileira em 1970 e as memoráveis campanhas do Nacional de Campos, Pedrilho, Nelson Souza, Danival e Lacy, nos anos 1970.

Quando os jogos eram aos domingos e no Parque amazonense, íamos com o nosso saudoso tio Rui Holanda. Titio Rui, torcedor fanático do Rio Negro, não conseguia assistir jogos de futebol sentado, pregava o radinho de pilha no ouvido e danava-se a andar de um lado para o outro, próximo ao alambrado que separava o campo das torcidas. Titio Rui tinha uma particularidade, ele torcia contra. Pode acreditar, ele ficava a esculhambar ou a desdenhar da atuação do seu próprio time. É mole? Talvez fosse superstição, sei lá! Mas que era engraçado era.

Certa vez, aborrecido com o resultado parcial desfavorável ao seu amado Rio Negro, montou no seu Gordini e se mandou do estádio. Ficamos lá por um tempo, meio desorientados: eu, meu irmão Cadinho meu primo Armando e nosso querido avô Dino. Nós, crianças, sem uma banda no bolso, e o Dino, pra variar, mais liso que surubim ensaboado. Retornamos a pé até a Vila Martins, na Jônatas Pedrosa, casa do Dino e da Vovó Belmira, local que, invariavelmente, íamos passar os domingos. Sinto falta do titio Ruy, um cara sensacional, um porreta.

Mas pro Estádio da Colina o cara que nos dava carona era o Seo Belmiro Vianez. Seo Belmiro, um ícone pra nós, era multifacetado, mandava bem como comentarista de futebol da Rádio Rio Mar, era comerciante muito bem sucedido, ótimo articulista e apresentador do programa esportivo dominical de maior audiência de Manaus na extinta TV Ajuricaba, então repetidora da Rede Record. Seo Belmiro era um apaixonado por futebol e bem antes do Galvão criar o seu bordão “bem amigos”, ele nos brindava com o seu: “amigos do esporte”. Isso dito com o seu indissociável sotaque lusitano. Era por ele que aos domingos sabíamos os resultados dos jogos pelo Brasil e Portugal. Num misto de carinho e saudade, assim anunciava: Em Setúbal, Setúbal um, um também para meu Varzim. Ele nasceu na Póvoa de Varzim, Portugal.

Seo Belmiro convidava o meu pai ou o papai se convidava e lá íamos eu e Cadinho, aboletados espaçosamente na poltrona traseira do confortabilíssimo Simca, acho que branco, lindo! Ele seguia para a cabine de transmissão reservada a sua emissora a cuidar do seu oficio de comentarista esportivo, nós íamos com o papai para a arquibancada.

Nunca sofremos com engarrafamento na volta pra casa porque essa só ocorria após os seus comentários e, àquela altura, as ruas já estavam quase desertas. Era uma delícia assistir jogos à noite, comer pipoca, beber refrigerante, às vezes traçar um “disco voador” do Seo Vasco, ouvir conversa de adulto na ida e na volta, passear num carrão daqueles e dormir tarde.

Quando o palco passou a ser o Vivaldão nós já íamos sozinhos, por isso não experimentamos o conforto do banco traseiro do Pinto, um carro da Ford de cor branca com detalhes laterais imitando madeira, veículo que o Seo Belmiro comprou em substituição ao Simca.

Definitivamente amplificar o singelo é peculiaridade infantil, por isso tão marcante, por isso inesquecível. Bons tempos, grandes jogos e um punhado de saudade.

sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.

comentários

Uma resposta para “No tempo em que eu era fanático por futebol”

  1. Eddy disse:

    Thanks for commenting Michelle. 🙂

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