Não sabemos das histórias

Em 12 de abril de 2016 às 10:00, por Jeferson Garrafa Brasil.

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Pelo menos quatro vezes por semana, vou cedinho a Vila Olímpica de Manaus.  Ainda é escuro, pois os treinos começam por volta de 5 horas.  Acho muito bacana essa relação que há entre os corredores amadores de modo geral.  Há sempre alguém com uma palavra de apoio e incentivo, naqueles momentos mais duros do treino, quando eu me faço perguntas do tipo “o que estou fazendo aqui? ”, ou, ainda, “não acredito que acordei às 4 da manhã pra isso”.  Em contrapartida, a satisfação de concluir o treino, a alegria de ver o dia clareando e a satisfação do papo de depois com a turma, não tem preço.

Quase sempre me indago qual dificuldade cada um enfrenta e a motivação que tem para estar ali e enfrentar toda aquela rotina de treino, suor e, algumas vezes, lesões e dor.  Sempre persistindo, nunca desistindo. É como uma parábola da vida, nas situações em que se é obrigado a seguir em frente, até por falta de outra opção. Conclusão a que chego: nunca sabemos, verdadeiramente, que histórias de vida cada um carrega dentro de si.

Num sábado, logo após o treino, fomos tomar café numa padaria. Sentou-se à minha frente o Paulinho. Pequeno, sorriso simpático, olhos vivos e traços característicos do típico garoto da Amazônia. Contou-me que é do interior do Pará, e, desde cedo, sempre quis conhecer Manaus. Juntou 70 reais com biscates e fugiu no primeiro barco que parou na sua vila. A referência dele era a avó, moradora de Manaus, e dela tinha somente o número do telefone. Chegou, ligou várias vezes, mas nunca o bendito telefone foi atendido.  Desistiu e ficou perambulando pelas ruas, vivendo de pequenos bicos e dormindo sob pontes. Aprendeu a vida da forma mais direta possível.  Depois de pouco mais de um ano desse aprendizado, foi convidado por um amigo pra “ir reparar carro” no bairro da Alvorada, pois “dava dinheiro”. E lá se foi o bravo Paulinho pra mais uma “etapa escolar”.  Por um desses acasos da vida, certo dia uma senhora ia passando e deteve os olhos nele. Aproximou-se, e,  com espanto, quase que proclamou: “Paulinho!?”.  Pois era a dita avó, que morava exatamente no Alvorada.  A partir daí a vida de Paulinho recebeu um upgrade, claro. Hoje é garçom, tem 22 anos e um filho de 3 aninhos. Cultiva sonhos. Quer concluir o segundo grau, ir pra faculdade e ser um corredor de ponta.  Eu não tenho dúvidas de que o bravo Paulinho irá conseguir.

Sabem quantos anos Paulinho tinha quando decidiu fugir de barco pra Manaus? 10 anos! É, a gente nunca sabe, verdadeiramente, as histórias que o outro carrega dentro de si. Bravo, Paulinho.

sobre o autor

Articulista-Jeferson-BrasilFoi baterista, segundo ele, do sofrível conjunto musical “Os Paqueras”. Jogou basquete, futebol e tênis de quadra. Admite, orgulhosamente, que seus dois irmãos jogavam muito mais. Sua vingança é hoje ser corredor de rua, com sonho de virar maratonista. É cronista bissexto.

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