A morte do Lamparina e o dia que a minha auto-estima subiu ao céu

Em 2 de janeiro de 2017 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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Eu e o Dão concluímos o ginásio no São Joaquim, em 1969. Na sequência, ambos fizemos prova de admissão para ingresso no Científico do Colégio Estadual Arnolfo Azevedo, escola pública de Lorena. Ele passou e eu não. Extrema humilhação. Minha irmã mais velha conseguiu uma vaga no Colégio João Guimarães Rosa para mim, em Piquete, curso noturno.

Ficava em casa à toa o dia todo, muito futebol, papagaios, música na vitrolinha, coleção de selos, jogo de botão e malha. Às 18 horas tomava um ônibus intermunicipal e meia hora depois estava na porta do colégio, em Piquete, para as aulas que começavam às 19 e terminavam às 22:30. Aí comecei a fumar, mas não bebia nada. Ainda.

Minha irmã mais velha adentrou a sala de aula logo na primeira noite e se apresentou com a professora de português. Expôs o programa de aulas que deveríamos cumprir durante aquele ano e determinou que tirássemos uma folha de caderno e, de pronto, elaborássemos uma redação, tendo como tema algo que tivesse ocorrido nas férias recém terminadas. Lembrei-me de um fato terrível ocorrido nas férias de meio de ano e redigi como se tivesse passado nas férias solicitadas.

Junto a um grupo de outros garotos, liderados por um clérigo do Oratório São Benedito, num domingo, nos deslocamos de Lorena para Itatiaia, no estado do Rio. Cerca de 140 km, creio. Visitaríamos o Parque Nacional ali existente e sua famosa cachoeira “Véu da Noiva”. No pequeno lago, aos pés da queda d’água um dos meninos morreu, de forma surpreendente. Água gelada, poucos sabiam nadar bem (até hoje não sei). O fato é que mal tínhamos chegado ás bordas do lago e “Lamparina”, um rapaz de, talvez 17 ou 18 anos, negro retinto, que não era exatamente apreciado por todos (inclusive eu) mergulhou de cabeça, de uma pedra mais elevada, reapareceu junto a outra pedra na margem oposta. Alguém até ensaiou um aplauso ou elogio à performance, mas para nosso terror, percebemos que ele não conseguia escalar a pedra, toda recoberta de musgos. E o vimos, lentamente, ir escorregando para o fundo do lago gelado, ficando as marcas de suas unhas gravadas em linhas paralelas, nos musgos da pedra. Fim de festa. Tema de minha redação: ”A morte do Lamparina”.

Próxima aula, minha irmã anuncia que começaremos a estudar análise de textos e distribui cópias de minha redação. A princípio não entendi sua intenção, pensei que deveria estar tão ruim que seria usada como exemplo de como não redigir, que todos os alunos da turma me odiariam dali por diante, e ela também. Não me recordo de nada do conteúdo da aula, minhas orelhas pegavam fogo, não conseguia olhar para ela e nem para lado nenhum. Em casa perguntei-lhe porque daquilo, por que não tinha me avisado antes, me consultado? Limitou-se a me dizer que o texto era muito bom, que servia para seus objetivos, e pronto. Minha auto- estima subiu para o céu. No resto do ano voltei a ser o aluno mediano de sempre.

sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.

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