A minha primeira vez

Em 26 de agosto de 2016 às 08:00, por Lúcio Menezes.

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Aqui, no meu torrão amado, conheci algumas das “casas de saliência” que os jornais, livros e revistas nacionais de então, também rotulavam de lupanares, bordéis, antros de prostituição, rendez-vouz, covis de licenciosidades, casas de perdição… Seria pieguice optar por um desses qualificativos, quando dez entre dez frequentadores preferiam chamá-las, puteiros. Que me perdoem os puritanos, mas se puteiros eram, nas minhas linhas, puteiros serão.

O apogeu deu-se no fim dos anos sessenta – o que pra mim não foi possível testemunhar, já que em 1969 eu tinha treze anos de idade. Tudo bem que vivia a plena puberdade, mas os meus níveis de testosterona ainda não eram suficientes para engrossar a minha voz, destacar o meu pomo-de-adão, muito menos exibir com naturalidade para uma profissional do sexo, aquele embrião peniano.

Em um dia do ano de 1971, deixei minha virgindade no quarto de um puteiro. Foi lá que também descobri o significado literal do dito popular: “mais cheiroso que penteadeira de puta”.

Era menor de idade, não tinha carro nem sabia dirigir, tampouco dava pra ir a pé ao então longínquo “Lá Hoje”, cuja localização ficava exatamente onde está a nossa Rodoviária. Sem qualquer ameaça de dúvida, o Lá Hoje era muito mais decente que o medonho “terminal” que temos.

Dois amigos do Colégio Brasileiro, um ou dois anos mais velhos que eu e que se intitulavam, “experientes”, me acompanharam na minha primeira empreitada sexual.

É muito esquisita a “primeira vez” quando essa ocorre sem sentimento, quando o ato é mecânico e exclusivamente profissional.

Cotejar o virgem de ontem com o de hoje é covardia desmedida, nós não tínhamos informações, nem ofertas, tínhamos apenas as histórias e estórias que os mais velhos contavam – dizia-se, naquela época, que melhor que “comer” era contar, há quem até hoje ainda pense assim – e que, naturalmente, fantasiavam para despertar a curiosidade dos invictos de plantão e posarem de garanhões. Tínhamos ainda, como referência desde os anos sessenta, os famosos “catecismos” do cartunista Carlos Zéfiro – revistinhas de sacanagem em quadrinhos com desenhos em preto e branco, depois coloriu – e nos anos setenta, as revistas americanas playboy e Penthause e as brasileiras Ele e Ela e Status.  Quem, nos anos setenta, não levou para o banheiro uma foto da Rose de Primo?

A preocupação do iniciante com o primeiro desempenho é e sempre será nenhuma. Isso é regra. Tenta-se, em vão, não demonstrar ansiedade, mas a pressa – sempre a pressa – em perder a virgindade, muitas vezes compromete a ereção, felizmente não foi o meu caso. Todavia confesso que a emoção muito me atrapalhou e a pontaria falhou na hora que precisei “conectar”.

Era um quarto de madeira com telhado de zinco, uma cama de palha coberta por um lençol roto, com cheiro de suores de fregueses; fios elétricos aparentes alimentavam o ponto de luz tênue a matizar o ambiente soturno; o vaso sanitário não tinha tampa; um camburão cortado ao meio com uma cuia a boiar, completava o que seria o banheiro. Pendurada sobre um prego fincado na madeira do quarto, uma toalha desgastada pela fuga das felpas; escorado na ripa que rodeava o meio das paredes do quarto, um pedaço de sabão grosso com indisfarçável sinal de corte de faca. Encostada na parede direita do minúsculo quarto, uma penteadeira com uma tesourinha, talco, pluma, uma escova carregada de cabelos multicores, um pente flamengo com escassos dentes e uma quantidade imprecisa de colônias diversas e perfumes com odores pra se esquecer. Por último um banco, também de madeira, posicionado em frente à cama no lado destinado aos pés, apoiava um surrado ventilador. O quarto ficava a mais ou menos vinte metros do salão onde homens e mulheres bebiam, fumavam, conversavam, dançavam e se acertavam ao som de músicas, a maioria boleros, com letras que falavam de amor, saudade, traição, abandono, desilusão, paixão, volta…

Ela era morena, prováveis trinta anos; acumulava sobrepeso, estatura mediana, cabelos negros e compridos, usava vestido decotado, se equilibrava sobre um salto plataforma a lhe emprestar imponência, exibia um sorriso simpático, dentes quase perfeitos, exalava cheiro de perfume barato que se confundia com a exagerada quantidade de talco espalhado por todo o corpo.

Minha primeira vez foi rápida, não houve preludio, nem sublimação, só êxtase e clímax. Saí aliviado, mas um tanto frustrado e a duvidar se aqueles ais carregavam alguma dosagem de prazer. Não demorou pra saber que tudo não passava de encenação. Foi minha primeira aula de administração do tempo e da produção – quero crer que o episódio não tenha influenciado na minha formação acadêmica.

Mal terminou ela levantou, e ao tempo em que caminhava em direção ao banheiro, me cobrava e me apressava. Disse ela sem qualquer cerimônia: “garoto você é muito legal, mas eu preciso faturar”.  Saí daquele quarto cheio de questionamentos, todos a convergir para um só: sexo era só aquilo?

Juntei-me aos amigos, agora sem as minhas economias, e voltamos pra casa. Eles nunca souberam que aquela havia sido minha primeira vez, muito menos lhes contei a verdade que sentia. Naquela noite a estatística dos contadores de estórias ganhou mais um e a dos insones também.

Voltei outras vezes ao Lá Hoje, também conheci seus concorrentes, especialmente o Piscina Clube, sempre acompanhado de amigos, mas nunca mais para fazer sexo. Sentávamos, ouvíamos músicas, conversávamos, observávamos, bebíamos e saíamos. Lá encontrávamos todos os espécimes da fauna Baré, das mais esdruxulas até as mais impolutas.  Parafraseando o Rossi: no puteiro todo mundo é igual.

Já na Universidade, provavelmente no ano de 1977, fiz uma incursão, na verdade um tour, ao Saramandaia com o amigo Jerry Fonseca. Matamos a curiosidade das meninas da nossa turma. Todas ficaram dentro do carro de vidro fumê, quietinhas, abaixadas a esconder os rostos e a espiar só com o rabo do olho, queriam ver como era. Mulher é um bicho muito curioso.

Ah! Uma das meninas curiosas é a mãe dos meus filhos.

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sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.