Manduka se esconde nas sombras do limão!

Em 21 de setembro de 2016 às 08:00, por Henrique Pecinatto.

compartilhe

Cá está Seu João às margens do Rio Urubu já preparando seus equipamentos para serem guardados depois de um dia de uma pesca razoável. O céu nublado, como de costume, esconde um mundo que até hoje temos poucas informações e a imaginação ainda é muito necessária para construí-lo em nossos pensamentos. De repente Seu João avista algo levantando-se no horizonte, algo que parece grande e muito brilhante, pois mesmo através de todas as nuvens, seu brilho ainda é notável e destaca-se de tudo o mais que há no céu. 

“É Manduka!” ponderou, e se lembrando da história que seu pai lhe havia contado sobre o jovem índio que fora expulso de sua tribo por incesto, terminou de arrumar as suas coisas e começou a caminhar pela longa trilha até sua casa. Na lenda, o índio Manduka fora expulso de sua tribo e, como punição, não poderia se aproximar de sua irmã, por isso subiu aos céus, e de longe às vezes aparecia no céu para poder vê-la.

Conforme andava, percebeu que Manduka subia mais e clareava seu caminhar. Já em casa, como que hipnotizado, continuava olhando-o imponente, até que observou seu pequeno filho brincando com as sombras produzidas por uma vela sobre a mesa da cozinha, que iluminava todo o interior do ambiente. Seu João aproximou-se para poder ver melhor a brincadeira de seu filho. O pequenino pegou um limão e ficou circulando-o sobre as chamas da vela. Aquilo impressionou muito Seu João, pois pôde ver que a face do limão virada para a chama era iluminada, enquanto o outro lado permanecia na imensa escuridão. 

Adicionado à brincadeira, um copo de alumínio que de mero coadjuvante passou a protagonista no instante em que o garoto posicionou vela, limão e copo (nesta ordem) alinhados. Seu João não sabia, mas essa é a ideia por de trás de um evento que chamamos de eclipse lunar, que em nossa história seria “Manduka se esconde nas sombras do limão!”.

O copo representa Manduka (Lua), o limão, a Terra, e a chama, o Sol. Com isso em mente, e pondo para funcionar as memórias mais profundas sobre o astro, Seu João lembrou-se também que, às vezes, Manduka não aparece pela noite, e que quando aparece aparenta nascer em horários e formas diferentes.  

As respostas para as observações feitas estão no fato de que a Lua orbita a Terra e que a trajetória dessa órbita é inclinada cerca de 5º em relação a orbita que a Terra faz com o Sol. 

O movimento da Lua em torno da Terra faz com que todos os dias uma porção diferente dela seja iluminada pelo Sol e refletida para nós, sabendo que a mesma se desloca cerca de 13º para leste todos os dias (lembrando que uma volta completa possui 360º), e faz com que a lua nasça 53 minutos mais tarde. É esse mesmo movimento o responsável pelas fases da Lua. É importante dizer que todos os dias há uma fase diferente da Lua, sendo a Lua nova, quarto crescente, cheia e minguante, configurações especiais sobre as quais irei falar.

 No dia de Lua nova, a Lua se encontra na mesma direção que o Sol no céu. Neste ponto a face que é iluminada pelo sol está em direção contrária à Terra, que significa que ela nasce por volta das 6h da manhã e se põe às 18h, e por este motivo não a vemos. Conforme a Lua vai se movendo, uma parte iluminada começa a ser vista, até que aproximadamente 7 dias depois a metade da metade da Lua está totalmente iluminada para um observador na Terra. Este é o dia do quarto crescente, onde ela nasce geralmente por volta de 12h e se põe à meia noite. 

Na semana seguinte a parte iluminada do quarto crescente é cada vez maior, até que toda a metade visível da Lua é iluminada pelo Sol, neste dia estaremos na Lua cheia. Neste ponto Lua e Sol estão em posições diametralmente opostas. Próximo de 18h é quando a Lua nasce nesta fase, se pondo por volta das 6h do dia seguinte. Por fim, cerca de uma semana depois da fase cheia, a Lua chega à fase de quarto minguante (nasce em torno de meia noite e se põe por volta de meio dia), que é muito semelhante a fase quarto crescente com a diferença que, em quarto minguante, a parte iluminada está em descendente, indo em direção à fase nova, que fecha o ciclo lunar (período sinódico) em 29 dias e 12h aproximadamente.     

As consequências desta pequena inclinação (5º) do plano orbital da Lua, faz com que não tenhamos eclipses em todos os ciclos lunares, pois para que haja um eclipse, seja lunar ou solar, é necessário que um objeto faça sombra sobre outro. Infelizmente ou felizmente, poucas vezes os planos se encontram, e Sol, Terra e Lua precisam estar alinhados para que um eclipse lunar aconteça, ou seja, a Lua necessita estar na fase cheia e a sombra da Terra tocar na Lua. Se a Lua entra totalmente na umbra da Terra, então o eclipse lunar é total, caso não entre, o eclipse é parcial.  

Temos também a situação em que Sol, Lua e Terra estejam apropriadamente alinhados, neste caso a fase da Lua é nova, e então a umbra da Lua que toca uma pequena porção de terra em nosso planeta, que presenciará o que é chamado de eclipse total do Sol. Na penumbra da Lua, o Sol é parcialmente encoberto, e o eclipse solar é parcial. 

Assim, Seu João sentado na varanda, continua a observar seu filho brincando, matutando como narrará o conto sobre Manduka a seu pequenino depois de tantas descobertas, e Manduka imponente, como num ato de coragem e desobediência, iluminando a noite. 

Comentários

sobre o autor

Henrique PecinattoAprendiz nível II de Físico, que em minha escala significa "falta muito para entregar a dissertação". 30/49 amazonense e apaixonado por esportes. Um curioso por natureza e da natureza, acha engraçado o caminhar das formigas, e amante de ímãs, mas tem um certo temor de eletrodinâmica.