Manaus, o futuro e a segurança

Em 29 de março de 2018 às 08:00, por Gilson Gil.

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A situação da segurança no Rio de Janeiro é tradicionalmente complicada. Traficantes, intervenção federal, exército nas ruas, policiais mortos, políticos presos ou executados, entre outros temas, já fazem parte do cotidiano jornalístico. Não há novidades, apesar do inusitado cada vez mais escandaloso do nível dos crimes, como a execução de uma vereadora ou a morte de 3 policiais em serviço no mesmo dia.

Isso vem muito em decorrência do poderio territorial e militar que as quadrilhas do tráfico possuem sobre determinados espaços da cidade, em especial as favelas/comunidades. Além disso, para apimentar a situação, surgiram nos últimos vinte anos outro fenômeno social, as milícias. Fruto da associação de policiais e bombeiros em certas comunidades, as milícias combateriam o tráfico de drogas, mas, em troca, controlariam os negócios da região, incluindo gás, tv a cabo, transporte coletivo e mercearias, por exemplo.

A guerra entre traficantes e milícias divide o Rio. Porém, será que é um fenômeno exclusivo dessa cidade? Creio que não. As milícias apareceram como resultado da insatisfação extrema de pequenos negociantes de comunidades pobres com o descaso oficial diante da criminalidade. Grupos de policiais perceberam que poderiam combater o tráfico, contanto que não estivessem presos aos limites institucionais. Também notaram que poderiam ganhar dinheiro com isso, seja recebendo “bolsas” desses negociantes, um pouco reproduzindo os antigos esquadrões da morte, dos anos 70, seja tomando conta de alguns negócios da localidade.

Será que esse cenário de insatisfação popular é exclusivo do Rio? Será que nos bairros de Manaus não há um clima similar? Até que ponto certos grupos de policiais, bombeiros e guardas municipais não estariam dispostos a “prestar serviços” a comerciantes nesses bairros? E o que custará até o momento em que entendam que podem ganhar sozinhos, sem intermediários, nos negócios do bairro?

Não acho bom fazer previsões (se soubesse fazer isso, adivinharia os números da mega-sena da virada de ano). Entretanto, estou analisando fatos concretos. Os linchamentos, as reclamações, as execuções diárias e a sensação permanente de insegurança são indícios graves desse processo em Manaus. Falta pouco para que surjam esses grupos nos bairros, se é que já não existem grupos de “vingadores” atuando livremente por aí. Pouco vai faltar, então, para que esses grupos se organizem e se tornem milícias de verdade. Enfim, o tempo vai nos mostrar. Porém, por que não pensar nisso desde logo?

 

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sobre o autor

Articulista-Gilson-GilCarioca, nascido em Madureira e criado no Catete. Sociólogo e professor da UFAM, já trabalhou em várias instituições de ensino no Amazonas e em outros Estados. É torcedor do Flamengo, está em Manaus desde 1992 e possui uma filha meio carioca, meio manauara. Torce pela cidade e pelas pessoas que aqui vivem.