Livros, mugidos e desesperança

Em 6 de novembro de 2018 às 09:35, por Jorge Alvaro.

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Ninguém me tira da cabeça que os livros sempre existirão. Em que pese o desprezo com que hoje são tratados por estas plagas. De acordo com Pesquisa Retratos do Brasil, matéria publicada no portal do Estadão, em 18 de maio de 2016, 44% da população brasileira nunca leu um livro.

Considerando o número de 207,7 milhões de brasileiros em 2016 (www.brasil.gov.br), 91,38 milhões deles nunca abriram qualquer obra literária. Meu Deus! Diriam os religiosos. É muita gente sem leitura. E a realidade do nosso país é o produto disso. E tem mais. 30% da população (62,3 milhões) nunca compraram um livro. Mas comprar também já é exigir muito, considerando o baixíssimo poder aquisitivo da população.

Minha pergunta favorita, quando alguém próximo tenta se jactar intelectualmente, é: Você já leu “O tronco do Ipê”? Claro que pergunta e resposta são sempre bem-humoradas. E poucas delas, as respostas, são positivas. Nem José de Alencar leram no colégio (ainda se fala ou se escreve “colégio”?).

Meus queridos leitores – devem ser poucos também – a coisa não está fácil e alguém deve se indagar sobre o que pensam ou o que fazem esses milhões de não leitores. Eu me aventuro a dizer que parte deles vota e elege vereadores, deputados, prefeitos, governadores, senadores e até presidentes da República. Ou alguém duvida?

Evidentemente que não pretendo, diante desses meus poucos leitores, apresentar uma solução para tão angustiante problema. Pretendo apenas semear preocupações. O número de brasileiros sem leitura crescerá proporcionalmente à população. Isso é inexorável. E essa massa sem leitura continuará elegendo os mais simpáticos candidatos para cuidar do destino dela própria. Isso seria autofagia histórica, creio eu.

Nas mídias digitais leem apenas o título da matéria jornalística e, daí, saem com as mais profundas reflexões sobre tudo, da religião, passando pelo futebol, à política. E ai de quem apresentar alguma contestação. Demonstram ignorância sobre tudo. Do ateísmo ao fascismo. Do conceito de esquerda ao de direita. Nunca ouviram falar da obra de Norberto Bobbio. Nunca leram Fernando Pessoa, em seu poema “Tabacaria” indagar: “Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?”. Sigmund Freud sobre o íntimo de cada um de nós. O baiano Jorge Amado com seus telúricos romances, não premiados com o Nobel por mera superstição sueca. A descrição de Graciliano Ramos nos seus dias encarcerados por uma ainda presente ditadura. Os pedaços dos eternos poemas de Pablo Neruda, Os estatutos do homem, do nosso amazônico Amadeu Thiago de Mello. O retrato escroto da maldade humana em “Guerra e Paz” de Tolstói.  Ou simplesmente os poemas de Drummond, de Quintana, de Vinicius de Morais, de Ferreira Gullar, de Garcia Lorca ou o texto impagável de Vargas Llosa e a literatura incomparável do colombiano comunista Gabriel Garcia Marquez.

Comecei a lei aos cinco anos de idade, primeiro o “ABC dos Animais”, no qual me alfabetizei. Depois, vieram todos aqueles aos quais tinha acesso. Felizmente, minha finada tia Maria Marques de Carvalho era professora, e na pequena biblioteca que ela mantinha incólume me abeberei até do que para mim, de parca idade, não era permitido.

Com Simone de Beauvoir descobri o “Segundo Sexo” quando ainda não havia conhecido o primeiro. Cassandra Rios – quem não lembra? – com sua literatura olhada de soslaio pela ditadura militar. Poxa! Que saudade de ler. Hoje escrevo mais do que leio, o que é imperdoável. Mas em compensação também ouço e muito. Ouço os gritos dos desvalidos, dos que não tem acesso à leitura ou à educação. Ouço também o mugido do gado, do povo feliz, já musicado por Zé Ramalho, mas sinto que não há felicidade nesses mugidos. Ressoa só e apenas o canto da desesperança.

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sobre o autor

Articulista-Jorge-AlvaroGinasiano do Colégio Estadual, de 1969 a 1975, tímido para ser líder, somente em 1996 presidiu a associação dos juízes trabalhistas da Região, por dois anos. De Manaus, onde pretende morrer, ouve música e assiste filmes, indiscriminadamente. Mais leitor que escritor, afinal ser o segundo é para poucos. Aceita desafios.