Liberdade, ainda que tarda. Será?

Em 15 de setembro de 2017 às 08:00, por Otoni Mesquita.

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Por anos fiquei retido, contido num espaço restrito. Parado na beira do caminho como dizia a canção que me seguiu pela adolescência. Me segurava nela como na construção de uma muralha invisível, sem janelas aparentes. Perseguido pela vontade constante de fugir, seguir, escapar e para um lugar que não sabia, nem sei onde fica. Mas um outro lado, que também é meu, me conteve, fiquei, acostumei, condicionei, ainda que muitas vezes ensaiasse alguma reação e tentasse escapadas. Contestava e clamava por uma liberdade que não sabia onde estava. Não havia fórmulas, nem receitas. Parecia mais uma ideia do que alguma coisa real. Uma utopia talvez. Tempo passado, sentimentos amassados e amansados. Suavemente com o tempo é possível ver a muralha se desfazendo lentamente. Novos caminhos se apresentam e acenam chamando para outras animações. Já não sei se me interessam os convites e muitos encontros. Levou muito tempo. Talvez por uma incoerência humana mesmo, já não sei se quero ir. Terei me acostumado com a prisão? Com os espaços restritos e o constante exercício de descobrir o mundo nas pequenas coisas. Terei me acomodado. Me entreguei. Estarei vendo somente as sombras da caverna de Platão. Será mesmo realidade ou verdade o que vejo o que sinto. Observo, talvez mais atento, mas agora tenho muitos limites que independem de minha vontade. Há décadas preguei que a liberdade dependia de certas vontades ou necessidades do corpo. Talvez ainda acredite nisso, em parte. Antes era demasiada a vontade e animação de seguir e mudar. Agora é como se me tornasse impassível aos encantos ilusórios do mundo. Não que seja tarde, mas já não me interessa tantos outros lugares. É como se todos fossem o mesmo lugar. Ainda que constantemente me veja diferentemente na mesma rotina. Fico feliz com pequenas coisas na própria rotina. Lembro que o mar, com todas as suas possibilidades é para quem quer nele navegar. Segui pelo seco e não tenho grandes certezas daquilo que penso ter descoberto. Se real ou banal. Terei realmente conseguido minha liberdade? Ou ainda sou um escravo da minha vontade espartana que tudo entende como se fosse tudo feito a ferro e fogo.

sobre o autor

Amazonense, artista visual e historiador da cidade. Gosta de literatura, música, cinema e fotografia. Não dirige, mora no centro da cidade. Nada no Nacional e anda pela cidade olhando e fotografando pequenas coisas.

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