Liberalismo e liberalismos

Em 21 de novembro de 2018 às 10:03, por Gilson Gil.

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O Brasil vem há anos, desde os anos oitenta, perseguindo o modelo social-democrata de Estado: impostos altos, alta intervenção estatal na economia, serviços públicos universais e gratuitos e presença constante dos agentes públicos na regulação dos mercados. Com avanços e recuos, esse modelo do Estado de Bem-Estar Social vem sendo buscado de maneira generalizada e em especial em áreas como saúde, assistência social, segurança e educação, sem falar em meio ambiente ou desenvolvimento econômico. Talvez o SUS seja o melhor exemplo, assim como todos os outros sistemas únicos que temos atualmente, nas mais diferentes áreas.

A eleição atual consagrou uma certa mudança, com o predomínio, na área econômica, de ideais mais vinculados ao liberalismo. Valores como liberdade individual, Estado mínimo, mercado livre e competição estão em alta, sendo consagrados como os novos paradigmas brasileiros.

Contudo, não foram as ideias liberais que consagraram a campanha vitoriosa do eleito. Os fundamentos de sua campanha estiveram na religião, na defesa da família tradicional, no combate à corrupção, no antipetismo, no fim da violência e na busca da ordem. O liberalismo econômico veio como um adendo, um anexo, assumidamente desconfortável para o candidato a presidente, que sempre dizia não entender de economia e que esse era um assunto para seu futuro ministro da economia, o famoso Paulo Guedes.

Porém, o clima virulento da campanha, em especial o segundo turno, consagrou uma verdadeira caça às bruxas, na qual quase tudo que não diz respeito ao credo dominante (principalmente na religião) é doutrinação ou perversão. Nesse clima macartista (do Macartismo americano), muito se fala em uma defesa dos ideias “liberais”, em oposição ao famigerado comunismo. Na mesma linha de raciocínio, uma perseguição a minorias ou a posicionamentos “heterodoxos” sobre sexualidade ou religião estão sendo vistos como negativos e sujeitos à perseguição.

Creio que é bom ressaltar que o liberalismo não se reduz à versão economicista. A defesa das liberdades – civis, políticas, sociais etc – faz parte do legado liberal. A democracia evoluiu, desde seus primórdios na Inglaterra do século XVII. Outros elementos, como a liberdade sexual ou o respeito ao meio ambiente foram sendo acrescentados e conquistados. Os trabalhadores lutaram muito para conquistar direitos básicos no século XIX, rompendo com a versão excludente do liberalismo vigente de então. A democracia veio ampliando seu escopo e se aprofundando ao longo dos séculos XX e XXI, justamente pela inclusão de novas temáticas e por conquistas de grupos antes rejeitados.

Enfim, é preciso notar que liberdade econômica, redução de impostos, desburocratização e competitividade não são valores incongruentes com a discussão de orientação sexual, valorização do servidor público, pluralismo religioso ou diversidade cultural. O centro do liberalismo estava na defesa do ser humano. A democracia liberal tinha fundamentos humanistas. Negar isso é rejeitar mais de três séculos de conquistas ocidentais. Em termos concretos, esse conflito entre um liberalismo (que vai além do econômico) e a defesa de valores religiosos fundamentalistas e o resgate da ditadura civil-militar que vem sendo propagado pode ser um dos maiores impasses do novo governo. É algo que devemos prestar muita atenção, daqui para frente.

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sobre o autor

Articulista-Gilson-GilCarioca, nascido em Madureira e criado no Catete. Sociólogo e professor da UFAM, já trabalhou em várias instituições de ensino no Amazonas e em outros Estados. É torcedor do Flamengo, está em Manaus desde 1992 e possui uma filha meio carioca, meio manauara. Torce pela cidade e pelas pessoas que aqui vivem.