Letícia, o “anjo caído”

Em 20 de junho de 2017 às 08:00, por Lúcio Menezes.

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Cresci na Rua José Clemente nº 268, entre a Rua Lobo d’Almada e Joaquim Sarmento, em frente ao paredão dos fundos da Santa Casa de Misericórdia, no Centro da cidade de Manaus. Éramos um bando de curumins e cunhatãs da mesma faixa etária. Com raras exceções todos os curumins eram aficionados do esporte que Pelé se notabilizou.  Além do futebol também brincávamos de bolinha de gude – ronda mate, turite e ronda dedo eram as modalidades principais -, mas tinha também o triangulo e a tal de biroca, em que se cavavam quatro buracos na terra, como se fossem caçapas de sinuca, essa eu nunca joguei.

Brincávamos de canga-pé (um pedaço de cabo de vassoura com um prego na ponta), pião, barra bandeira, manja… Jogávamos futebol no Estádio General Osório, nome do campo de futebol do antigo 27 BC (Batalhão de Caçadores) do Exercito Brasileiro, que depois passou a ser chamado de GEF (Grupamento de Elementos de Fronteira) e finalmente Colégio Militar de Manaus. Também nos campos do Colégio D. Bosco, no Izaguri – hoje Rêmulo’s, uma Casa de “Saliência” -, e no Bossa Nova, na Rua dez de Julho, atual sub sede da Amazonas Energia. Apesar de todas essas opções, ainda jogávamos na rua, a ter como traves dois postes de luz na calçada da Rua José Clemente, atrás da Santa Casa. Ali deixamos muitas unhas, pele e sangue dos pés, cabeça, canela e joelhos, isso antes e depois do asfalto chegar.

Os “boleiros” eram: meu irmão Luiz Ricardo, o “Cadinho”; Ariosto, Luiz Afonso, o “Lulinha”; Lauro e Geraldo Rocha, Camilo Gil, meus primos Armando e Wilson, Osvaldo Frota, Alberto, o “bode”; seu irmão Hugo, o “bodega”; Mário Garcia, Zé Henrique, Onofre Tadeu, Carlinhos, Ivano, Nito e Bosquinho Cordeiro, Arkbal, o “Bala”; Jorge, o “” Jori”; Gualter, Cleomar e Kleber Santana, Luiz Angelo Vianez, o “Dandinho”; Humberto Breval, o  “Bebeto”; Ivan Porto, Frederico, o “Fedê”; Washington, Chiquinho, Kliderbal, eu e outros que agora a memória não me auxilia.

Quando eu digo que tive uma infância maravilhosa tem-se a impressão que vivia no Paraíso. Não, no Paraíso bíblico só uns poucos serão merecedores de ingresso, aqui na terra é outra história, convivemos com seres humanos tão especiais que bem poderiam ser anjos e também com discípulos do “anjo caído”. Como anjo não tem sexo, ele pode estar a trajar calças ou saias. O nosso “capeta” usava saias e atendia pelo nome de Letícia.

Só há dois momentos da vida em que todos parecemos anjos, inclusive os soldados do “chifrudo”: durante a infância e quando dormimos. O problema é que a “Besta Fera” não era criança e, acho, não dormia, era um Zumbi de cabelos tingidos de amarelo. A “Leta” odiava meninos e meninas com a mesma intensidade, não importava. Tomava e furava nossas bolas, acabava com as nossas brincadeiras na calçada, ameaçava, gritava, fazia escândalos absolutamente desnecessários, fuxicava pra nossas mães, chegava ao cúmulo de inventar estórias só pra que fossemos castigados. Eu e o Cadinho levamos diversas surras, noutras tantas recebemos como castigo ficar em casa e não sair pra brincar – o que doía mais do que uma surra.

Não seria justo que essa história terminasse assim, com os curumins e as cunhatãs sem dar o troco na “coisa ruim”, no “carcará sanguinolento”.

Eis que um belo dia do provável ano de 1971, a “Leta” compra aquele que viria a ser o seu carro pelos vinte anos seguintes, um Corcel cupê 1969, de segunda mão, mas inteiro. O carro estacionado em frente a sua casa já chamava a atenção, mas pra ela não era o suficiente, mandou pintá-lo de laranja “crush”, único em Manaus. Ela jamais poderia imaginar que a sua carruagem diurna, na calada da noite e por incontáveis vezes, misteriosamente se transformaria na “abóbora dos gomos murchos”. Dependendo do nosso animo ou do que ela tivesse aprontado, os “gomos” amanheceriam esvaziados ou furados.

Era o máximo acordar no dia seguinte e assistir ou ter notícias dos ataques de piti que ela dava ao se deparar com os pneus arriados. Claro que ela suspeitava dos autores, até insinuava, mas ninguém dava ouvido. A “Cruella de Vil” espreitou, tocaiou, ficou “de serviço” noites após noites, doida pra nos flagrar, mas nunca teve êxito. Bem feito, quem mandou judiar da gente!

sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.

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