José Osterne de Figueiredo: um grande azarado ou um assassino em série? (Parte I)

Em 17 de março de 2017 às 12:00, por Durango Duarte.

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São tantos os casos de violência divulgados diariamente pela imprensa em nosso cotidiano, que é natural que haja um processo gradual de insensibilização popular. Os informativos nos servem assassinatos no café da manhã, esquartejamentos no almoço e latrocínios no jantar, numa banalização que tem nos embrutecido a ponto de nos fazer aceitar o inaceitável, como se esses crimes fossem normais e inerentes ao mundo contemporâneo.

Mas, imagine-se em Manaus nos anos 1950, cuja população, no início dessa década, era perto de 140 mil habitantes e cujos limites urbanísticos ainda eram tímidos. Os crimes com vítimas fatais que aconteciam na cidade ecoavam em todos os lares e assombravam os manauaras por dias, meses e, até, anos.

O jornalismo investigativo trabalhava, todos os dias, à caça, literalmente, de informações sobre os casos, chegando a se antecipar aos trabalhos da polícia. E as nossas autoridades policiais, já naquela época, não gozavam de tanto prestígio junto à opinião pública.

Eram tachados de ineficientes, visto que, segundo enfatizavam os diários locais, não conseguiam dar solução satisfatória aos crimes considerados hediondos que aconteciam na cidade. Basta lembrarmos do assassinato do estudante Delmo Pereira, também desta década e que se arrastou por anos, até sua elucidação.

E é justamente sobre a atuação dos noticiosos e da polícia baré nessas situações de violência que escolhemos um caso ocorrido na primeira metade da década de 1950 e que suscita dúvidas sobre se houve ou não excessos da imprensa e das autoridades policiais na busca de culpados.

Nosso personagem principal é o senhor José Osterne de Figueiredo, natural do Ceará, filho de Pedro Gomes de Melo e de dona Vicência Feitosa Bizerril. Nascido em 19 de março de 1917, coincidentemente, este ano, estaria completando um século de vida, caso ainda estivesse entre nós.

José Osterne de Figueiredo.

À época dos acontecimentos que serão narrados aqui, José Figueiredo era um comerciante radicado em Manaus, casado com dona Maria do Perpétuo Socorro Figueiredo – mais conhecida como dona Olívia – e pai de três filhos. Era proprietário da Alfaiataria Figueiredo, localizada à avenida Joaquim Sarmento, n. 70-A, e da Pensão Maranhense, sito à avenida Eduardo Ribeiro, n. 462, dirigida por sua esposa e que também servia de residência à família.

Os casos a seguir são verídicos e constam nas matérias de jornais da época e do acervo documental do Tribunal de Justiça do Amazonas. Vamos ao primeiro episódio…

UM HOMEM NU EM UMA POÇA DE SANGUE

Manhã de quarta-feira, 7 de outubro de 1953. Manaus acorda com os jornais noticiando, em suas manchetes, um homicídio com objetivo de roubo, ocorrido na Alfaiataria Figueiredo, à rua Joaquim Sarmento, n. 70-A, no Centro, ao lado do bar A Baratinha.

No local, a polícia encontrou, caído no chão, o corpo de Anacleto Heliodoro da Gama, de bruços, numa poça de sangue, com ferimentos profundos na cabeça. Em volta do corpo, havia marcas de solados de borracha e de pés descalços.

O proprietário da alfaiataria, José Osterne de Figueiredo, foi avisado do ocorrido pelo senhor Sebastião Matos da Silveira, funcionário da Alfaiataria Demasi, que ligou para a casa do comerciante por volta das 7h da manhã, sendo o telefonema atendido por dona Olívia, esposa de Figueiredo.

De acordo com Sebastião, quando ele se dirigia para a Alfaiataria Demasi, observou que a porta do estabelecimento comercial de José Figueiredo estava semiaberta e tratou de procurar o telefone público mais próximo para avisá-lo.

Imediatamente, Figueiredo, que morava à avenida Eduardo Ribeiro, deslocou-se para a alfaiataria e, ao abrir a porta, deparou-se com o corpo de um homem completamente nu, caído no chão, de bruços, com um pano passado em torno do pescoço e com a cabeça mergulhada em uma poça de sangue.

No chão do estabelecimento, marcas de sapatos com solado de borracha e outras de pés descalços em todas as dependências da alfaiataria e sobre o corpo da vítima. Havia também respingos de sangue nas máquinas, no solo, nas paredes e até nas peças de tecidos que não foram levadas pelos criminosos.

Já demonstrando a pressão que a imprensa iria exercer sobre a polícia, o jornal “A Gazeta” assim publicou a respeito da demora dos investigadores chegarem ao local:

Pedindo a um policial, nas imediações, que ficasse na porta, o sr. Figueiredo comunicou à Polícia a sinistra ocorrência. Eram precisamente 7,15 horas. Às 9 horas, quase duas horas depois, portanto, chegava ao local o titular da Delegacia Auxiliar, dr. Jerônimo Câmara, acompanhado do comissário Francisco [sic] Cardoso e de alguns investigadores. (A Gazeta, de 7 de outubro de 1953).

Após as primeiras providências e, verificando que se tratava de um latrocínio – já que, além do homicídio, também desapareceram algumas peças de roupas e cortes de tecidos -, o comissário Manuel Cardoso entregou o caso ao delegado de roubos e falsificações, dr. Osmar Bento. Este tratou de convocar o médico legista da polícia, o dr. Hosannah da Silva, que chegou às 10h30 na alfaiataria.

José Osterne de Figueiredo: um grande azarado ou um assassino em série? (Parte  I) Durango Duarte
Diario da Tarde, 07 de outubro de 1953.

QUEM ERA A VÍTIMA?

Filho de Cândido Lira, o biscateiro Anacleto Heliodoro Gama tinha 24 anos de idade, era de cor branca e solteiro. Também era chamado de “Pinho”, apelido que recebera quando trabalhou na Loja Pinho, situada nas esquinas das ruas Joaquim Sarmento e Henrique Martins, Centro.

Anacleto havia sido demitido da sua antiga loja em março daquele ano, devido ao vício de embriaguez, passando a viver de pequenos trabalhos. Pediu emprego ao senhor José Figueiredo, que o contratou para fazer serviços de recado à sua alfaiataria, onde passou a ganhar Cr$ 15,00 por dia, mais o almoço, no restaurante da Pensão Maranhense.

Para complementar sua renda, Anacleto ainda trabalhava, diariamente, entregando marmita para o restaurante de dona Olívia, recebendo, por mês, Cr$ 150,00. Ele morava com uma irmã no Boulevard Amazonas. Apesar do vício na bebida, era uma pessoa de bom gênio, não tendo, por isso, nenhum tipo de rixa com ninguém.

POR QUE ANACLETO FOI DORMIR NA ALFAIATARIA?

José Osterne de Figueiredo, proprietário da alfaiataria que leva seu sobrenome, tinha um funcionário de confiança, o senhor Expedito Roque dos Santos, que já trabalhava com ele desde a instalação da alfaiataria na Joaquim Sarmento. A chave do estabelecimento comercial ficava com Expedito, responsável por abri-lo e fechá-lo.

Às 18h do dia 6 de outubro de 1953, Anacleto Gama foi ao comércio para falar com o senhor Figueiredo, que não se encontrava. Então, dizendo-se doente, o biscateiro pediu a Expedito Roque que o deixasse dormir na alfaiataria, pois não queria ir para a casa da sua irmã, no bairro Girau. Expedito o atendeu e deu-lhe a chave, com a condição de que Anacleto abrisse as portas do comércio às 7h da manhã, como de costume.

Segundo o matutino “O Jornal”, “horas antes de seu fim, que já estava determinado pelo destino, ele fora visto ao levar umas marmitas da Pensão Maranhense e, também a tomar uma média no café A Baratinha. Por volta das 2h30, saiu desse café e, ao que se supõe, recolheu-se à alfaiataria”. (O Jornal, de 8 de outubro de 1953).

José Osterne de Figueiredo: um grande azarado ou um assassino em série? (Parte  I) Durango Duarte
O Jornal, 08 de outubro de 1953.

EXPEDITO É DETIDO PARA AVERIGUAÇÃO

No local do homicídio, a polícia efetuou a prisão preventiva de Expedito Roque para que ele pudesse esclarecer o motivo da chave ter ficado com Anacleto. As suspeitas lhe recaíram porque ele costumava chegar ao estabelecimento sempre às 7h para abrir a alfaiataria. E justamente no dia em que o corpo do biscateiro foi encontrado, Expedito chegou às 9h.

Entretanto, quando questionado pelo comissário Manuel Cardoso sobre essa mudança brusca de rotina, o funcionário de confiança de José Figueiredo respondeu que somente chegara nesse horário porque havia dado a chave para Anacleto. Mesmo assim, “A Gazeta” tratou essa declaração como mentirosa:

“… é inverossímil, uma vez que o biscateiro nada tinha a ver com a abertura e o fechamento da alfaiataria. Além do mais, arguindo com a suposição de que Anacleto não abriria a porta para um desconhecido, que se não identificasse antes, a Polícia foi levada a supor que bem poderia ter sido Expedito que pedira para entrar”. (A Gazeta, de 7 de outubro de 1953)

Vale se ressaltar que nem o próprio José Osterne de Figueiredo sabia que Expedito Roque tinha dado a chave da alfaiataria para Anacleto dormir lá. Em declaração ao “A Crítica” de 8 de outubro, Figueiredo informara que, no dia anterior ao crime, ele havia passado a tarde se divertindo com uns amigos no bairro Flores. Depois, cansado, não regressou à alfaiataria, deixando sob a responsabilidade de Expedito.

SAPATOS NA CENA DO CRIME

Foram encontrados dois pares de sapatos, um branco e outro bege, no mesmo local onde estava caído o corpo de Anacleto Gama. Ambos os calçados pertenciam ao dono da Alfaiataria Figueiredo. De acordo com o presidente do inquérito, comissário José Pergentino de Senna, o de cor bege possuía solado de borracha e estava impregnado de visíveis sinais de sangue.

Havia, ainda, a impressão digital do dedo polegar da mão direita, à altura do salto, no lado interno, do sapato do pé esquerdo, possivelmente retirado após o crime por quem o calçava. Esses calçados foram apreendidos e levados para a Delegacia de Roubos e Falsificações. Porém, incrivelmente, mesmo com mancha de sangue e tudo o mais, foram devolvidos durante o inquérito policial, como explicou o comissário José Pergentino de Senna:

Enquanto isto, o calçado bege, que era a única pista existente em seu poder, aguardava, na Delegacia de Investigações e Capturas (Roubos e Falsificações), uma oportunidade para esclarecer, definitivamente, o caso em apreço. Os 2 pares de sapato, até ignoro quem os tenham conduzido para a Delegacia. No entanto, logo que os vi, e tive a informação que foram trazidos da Alfaiataria Figueiredo, numa feliz oportunidade, mostrei ao dr. Waldir Medeiros, que, após fazer sua observação, constatou a existência do sangue, no calçado bege, como, também, com o mesmo propósito, o apresentei aos funcionários deste Departamento, Artur Costa e comissários Ramiro Menezes e Felipe Kanawati. Todos, depois de observarem o calçado bege, fizeram suas considerações, aliás, feliz para o nosso objetivo. No entanto, antes mesmo de concluído o inquérito por mim presidido, na Delegacia de Investigações e Capturas (Roubos e Falsificações), o calçado bege foi desaparecido de maneira inexplicável, prejudicando, sobretudo, as diligências que, até aquele momento, nada podiam apresentar de útil para o esclarecimento do fato ocorrido. Esta, portanto, foi a razão porque o calçado bege não acompanhou o inquérito por mim presidido e também os referidos calçados não foram apreendidos por minha ordem e nem a mim entregue, como se pode ver do aludido inquérito, que não consta o Auto de Apreensão sob os mesmos. (Ofício enviado ao sr. Domingos Alves Pereira de Queiroz, 3º promotor da capital, no dia 16 de setembro de 1955)

Dias depois, o comissário José Pergentino encontrou-se com o delegado Osmar Bento, ao qual informou o teor do ofício enviado ao promotor. Depois, perguntou-lhe pelos ditos sapatos desaparecidos. Osmar Bento lhe respondeu que tinha devolvido os calçados para José Osterne de Figueiredo por não ter encontrado, nos sapatos, elementos suficientes de provas contra o comerciante.

O próprio José Figueiredo foi à delegacia buscar os sapatos, e o de cor bege, o comerciante deu de presente ao seu funcionário de confiança, Expedito Roque. Segundo o empregado, quando recebeu o calçado, o sapato não apresentava sinais de sangue, pois estava completamente limpo. Contudo, como não couberam perfeitamente nos seus pés, Expedito repassou o regalo a um companheiro seu, de nome Elison Aguiar.

E assim foi-se o sapato que poderia esclarecer muita coisa…

José Osterne de Figueiredo: um grande azarado ou um assassino em série? (Parte  I) Durango Duarte
A Crítica, 08 de outubro de 1953.

IMPRENSA vs. POLÍCIA

Os dias iam se passando e cada vez mais surgiam dúvidas sobre a morte de Anacleto. E a cada nova edição, os jornais questionavam mais e mais o trabalho realizado pela polícia, cuidando, eles próprios, de tecerem as suas hipóteses sobre o crime, como podemos verificar neste trecho retirado de “A Crítica” do dia 8 de outubro de 1953:

Segundo nossas suposições, pelo que conseguimos apurar, teria sido a vítima Anacleto Gama um pervertido sexual, e que, aproveitando-se da condição de ficar de posse da chave do estabelecimento, contratou com pessoa sua conhecida, um encontro no local durante a noite.

Acontece, porém, que o visitante ao ir até ali, o fez acompanhado de outra pessoa, motivando a repulsa do morto, que tentou resistir à entrada dos mesmos na casa. Aí então, forçando esse ingresso foi que o assassino desferiu o primeiro golpe na vítima, com um instrumento que supomos seja um sabre, atingindo-o no rosto, e produzindo profundo golpe no supercílio direito, além de quebrar-lhe a dentadura.

Mesmo assim, Anacleto ainda opôs resistência, já então de posse de um banco. Foi quando, desfechando outra pancada, o assassino conseguiu desarmar o infeliz. Esse golpe dado com violência motivou partir a perna do banco, além de quebrar os dedos da vítima. Não suportando os ferimentos, Anacleto cambaleou, tendo, em último esforço, se amparado na parede, deixando impressa a sua mão tingida de sangue, para cair em seguida, de bruços.

Depois de perpetrado o hediondo crime foi que os desalmados indivíduos repararam na possibilidade de carregar com alguns cortes de fazenda, o que fizeram com absoluta calma, saindo pela mesma porta, a qual deixaram encostada.

Essa hipótese mais é reforçada por não ser admissível a ideia de que, estando a porta fechada por dentro, fosse o assassino bater na mesma sem saber que no seu interior estivesse alguém. Era preciso uma combinação prévia para que o assassino pudesse contar com alguém no interior da alfaiataria, coisa que não era comum, pois ninguém dormia ali.

Segundo ainda deduções dos “argus” da Polícia de Furtos e Falsificações, a arma utilizada foi um sabre, instrumento somente usado por militares. Da mesma forma, o solado do sapato do matador indica outra vez ser um militar o assassino, posto que coincide com o tipo de calçado usado pelos mesmos.

Por outro lado, acreditamos em mais de um criminoso, em virtude das marcas gravadas no chão ensanguentado. Além do que frisamos – as marcas do solado de botinas – ao lado destas, descobriam-se, facilmente, outras de alguém que não estava calçado.

Em outra passagem dessa mesma edição, lamenta-se a falta de estrutura da polícia amazonense:

Mais uma vez temos a lamentar o desaparelhamento de nossa repartição policial. Crime dessa natureza, tão bárbaros como este, já atestaram esse fato e nada se fez até agora para que não mais fiquem impunes criminosos que, ou por despreocupação ou para zombar mesmo das autoridades, deixaram no local do crime visíveis identidades.

O local do crime, pelos vestígios deixados pelo assassino, bastaria à Polícia para conhecer a identidade do mesmo, pois ali estão as marcas de sapatos, as manchas de sangue deixadas pelas mãos do matador e nada é possível fazer porque a Polícia não dispõe de um gabinete competente para fazer os exames periciais. Por isso mesmo, queira Deus que esse crime não fique, como muitos, esquecido e os criminosos impunes. (A Crítica, de 8 outubro de 1953)

Para lhe ajudar no caso, o delegado de roubos e falsificações, Osmar Bento, convocou os comissários Ramiro Menezes e Felipe Kanawati, que solicitaram a cooperação do fotógrafo Costa Lima para que o mesmo utilizasse sua experiência a fim de captar impressões digitais no local do crime.

Assim é que, na noite de 8 de outubro, a equipe de investigadores, mais alguns representantes da imprensa e outros policiais foram à Alfaiataria Figueiredo para colher provas. No entanto, o próprio Costa Lima não acreditava no sucesso da operação, visto que as autoridades não tiveram o cuidado de isolarem o local logo após o corpo ter sido encontrado. Negligência ou incompetência?

Mesmo assim, a diligência foi até o local realizar as perícias, constatando realmente que o local do crime já havia sido varrido e que já havia objetos fora dos lugares onde se encontravam quando do acontecimento do crime.

No dia seguinte, “A Crítica” mais uma vez não perdoou a polícia, publicando forte editorial contra o que chamou de “encenação policial”:

LEITOR AMIGO – Somente à noite de ontem, passadas 24 horas, o Delegado Osmar Bento, com outros seus auxiliares, achou-se no dever de “dar um pulo” até a casa da Rua Joaquim Sarmento, palco do triste acontecimento fartamente noticiado, para “descobrir” impressões digitais ou recolher algum pormenor relegado antes a um plano inferior.

Perguntamos: Por que essas providências não foram tomadas na manhã em que o cadáver foi encontrado? Por que, também, o sr. Osmar deixou para colher “pormenores” durante a noite, em local escuro, já que a única lâmpada que existia foi quebrada, provavelmente, pelo assassino (ou assassinos?) de Anacleto Gama?

Quaisquer que sejam as respostas do titular da Delegacia de Furtos e Falsificações não ficaremos bem convencidos, acreditando que estamos que a encenação policial de ontem à noite não passou de uma revivescência do velho teatro grego, de misturar a comédia aos dramas e tragédias da vida… (A Crítica, de 9 de outubro de 1953)

Nesse mesmo número, publicou-se que duas mulheres haviam procurado a Delegacia de Furtos e Falsificações para prestar informações sobre o crime. A primeira, uma prostituta de nome Marina Freitas da Silva, residente na rua Joaquim Sarmento, disse que, por volta das 3h da madrugada, estava saindo do cabaré localizado na Praça Dom Pedro II, em companhia de um soldado do 27º Batalhão de Caçadores, quando, ao passar próximo à Alfaiataria Figueiredo, avistou três indivíduos que se afastavam do local, todos eles em atitude suspeita.

Essa declaração é reforçada pelo depoimento que Marina prestou às autoridades policiais no dia 8 de outubro de 1953:

Que saiu a declarante, cerca das vinte e quatro horas do dia seis do corrente, para o cabaré da praça Pedro Segundo; (…) Que dali a declarante retirou-se, sem companhia, indo ao Café Paulista, onde se serviu de três cervejas; Que a declarante, receosa de ir para casa, isto já mais de três horas da madrugada, chegou à porta do Café Paulista, ia passando um soldado de nome Antônio, do 27º Batalhão de Caçadores, e convidou este para lhe conduzir até sua residência; (…) Que, ao se aproximar da esquina da rua Joaquim Sarmento com a Sete de Setembro, percurso este feito pela declarante, cerca das três horas e trinta minutos, mais ou menos, nesta altura, observou três indivíduos que a declarante conhece como marreteiros e fazem refeições no Pássaro Azul, iam saindo da rua Joaquim Sarmento, em sentido oposto da declarante, nas proximidades do local onde se deu o crime, os quais saíam pela calçada que margina a Alfaiataria Figueiredo; Que, na noite do crime, a declarante viu os três indivíduos passeando, cerca das vinte e duas horas, no trecho compreendido da Rádio Difusora à Casa São Jorge, os quais passavam constantemente, como se esperassem alguma coisa. (Inquérito Policial)

Marina disse, ainda, que, assim que avistasse novamente os três indivíduos, procuraria a polícia para que eles pudessem ser averiguados.

Quanto à segunda mulher, chamada de “Zefinha”, esta contou que ouviu dois indivíduos, pai e filho, comentarem sobre o que teria acontecido ao “Vermelhinho” (outro apelido de Anacleto Gama). “Zefinha” disse que esses dois eram ladrões conhecidos, sendo que o pai era apelidado de “Cotó” por ser aleijado de um braço, e o filho se chamava Cassiano. Ainda segundo “Zefinha”, a própria Polícia teria a ficha deles como larápios. Entretanto, os dois ainda não haviam sido encontrados.

Voltando às declarações de Marina da Silva, ela chegou a identificar os três indivíduos, que foram levados à delegacia para serem interrogados, porém, os inquiridos constituíram um advogado, o qual conseguiu um habeas corpus para os seus clientes, impetrado pelo juiz Arthur Gabriel Gonçalves, sendo os suspeitos liberados do interrogatório. Tal medida fez com que o delegado Osmar Bento pedisse afastamento do caso, por considerar que essa ordem atrapalhava bastante as investigações.

Enquanto isso, os ataques da imprensa às autoridades policiais prosseguiam. Mesmo com o reforço de novos investigadores e peritos, nenhuma pista fora encontrada que levasse ao caminho da solução do crime da alfaiataria. Nem mesmo havia qualquer sinal da arma ou objeto utilizado para golpear Anacleto Gama. De início, os noticiosos conjecturavam que poderia ter sido utilizado um sabre militar, hipótese logo descartada pelo médico legista, dr. Hosannah da Silva.

E por falar em teorias, até mesmo da sexualidade de Anacleto Gama foram levantadas desconfianças por “O Jornal”, publicadas assim no dia 10 de outubro de 1953:

Queremos crer também que até agora não se procurou saber dos antecedentes da vítima, da sua vida pregressa e, até mesmo, conforme alegações levantadas, se Anacleto era um indivíduo sexualmente anormal. Embora pareça isso sem nenhuma importância, talvez, depois de um exame cuidadoso, viesse trazer alguma contribuição ao andamento das investigações.

“O Jornal” também resume, nessa mesma matéria, a maneira atabalhoada como foi tratado o início das investigações policiais e a situação de precariedade em que se encontrava a repartição da polícia:

Pelo que se vê, resta apenas esperar que a casualidade e o empenho dos comissários Ramiro e Kanawati venham a trazer alguma solução a esse problema com que se vê a braços a polícia, mesmo porque os principais elementos que poderiam ser aproveitados nas investigações, como sejam as impressões digitais deixadas no local do crime, não poderão ser aproveitadas, tanto pelo desaparelhamento da Polícia como pela balburdia verificada ao ser encontrado o cadáver.

E não se pode deixar de acreditar que a existência de um gabinete de perícia numa repartição policial é tão imprescindível como um laboratório numa casa hospitalar. Por isso mesmo, mais do que nunca, deve ser preenchida essa lacuna na Polícia do Amazonas, porque, do contrário, rastejaremos quando acontecem crimes como esse da alfaiataria Figueiredo no que diz respeito às investigações. Nada de técnica é empregada, tudo se procura resolver através da curiosidade, e, principalmente, da casualidade, motivo porque tantos crimes até agora vivem ainda envoltos em denso mistério. (O Jornal, de 10 de outubro de 1953)

E para piorar as coisas, os comissários Felipe Kanawati e Ramiro Menezes decidiram abandonar o caso em retaliação à decisão do juiz Artur Gabriel Gonçalves em liberar suspeitos.

O ano de 1953 se encerraria e o caso da Alfaiataria Figueiredo continuava “envolto em denso mistério”, como costumavam classificar os noticiosos. Em 25 de janeiro de 1954, “A Crítica” novamente trouxe à memória do povo o crime ocorrido em setembro passado, ao publicar matéria que descrevia o caso, sem, é claro, deixar de alfinetar a polícia:

A ação da Polícia foi verdadeiramente desnorteante. Desprezou todos os vestígios que se apresentavam nítidos como que a desafiar a sua argúcia: duas pegadas sangrentas, uma descalça, outra calçada com sapatos de sola de borracha no chão e sobre as costas do morto estavam otimamente delineadas; na parede surgiu uma mão espalmada, em sangue, com as impressões digitais perfeitas.

Nada disso foi utilizado para a descoberta. Que eles eram pelo menos dois, provavam as marcas dos pés. Houve quem informasse à Polícia de que cerca das 3 horas da madrugada, haviam vistos dois homens próximos ao local do crime em atitude suspeita. Nada se apurou e, até hoje, mais de 3 meses decorridos, continua esse crime envolto em mistério, relegado a esquecimento pela própria Polícia.

E assim, mesmo com toda vigilância ferina e incansável dos noticiosos locais e com um trabalho policial recheado de amadorismos e equívocos, o crime da Alfaiataria Figueiredo parecia estar fadado ao rol dos insolúveis. A morte de Anacleto Gama continuou repleta de interrogações e José Figueiredo, tomado pela péssima lembrança do ocorrido, decidiu fechar a sua alfaiataria.

Na busca por um novo ramo comercial na cidade, o cearense José Osterne de Figueiredo decidiu que iria investir na compra de uma mercearia. E é justamente nesse novo negócio que o nosso personagem vai, mais uma vez, ter seu nome estampado nas páginas policiais da imprensa amazonense, na segunda metade do ano de 1954, em mais um caso cheio de mistérios e tétricas coincidências.

Continua…

Clique aqui para ler o artigo  José Osterne de Figueiredo: um grande azarado ou um assassino em série? (Parte II).

sobre o autor

Articulista-Durango-DuarteGaúcho amazonense, militante estudantil nos anos 1980, empresário nas áreas de Marketing e Comunicação, consultor político, autor de diversas obras literárias, articulista, blogueiro, diretor presidente do Instituto Durango Duarte, apaixonado por história do Amazonas e de Manaus, às vezes torce pelo Grêmio.

comentários

Uma resposta para “José Osterne de Figueiredo: um grande azarado ou um assassino em série? (Parte I)”

  1. Joao Andrade disse:

    e o resto da historia

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