Historiografia da Amazônia: Vitor Hugo

Em 22 de setembro de 2016 às 10:00, por Hélio Dantas.

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Vitor Hugo (1921-2003) foi um padre salesiano de origem italiana que se estabeleceu em Porto Velho, Rondônia. Exerceu a função de padre até a década de 1960, quando deixa de ser da Ordem Salesiana, se casa, tem filhos e passa a ter uma vida profana. Mas a sua trajetória não foi influenciada somente pela experiência religiosa, pois após abandonar o hábito se inseriu na vida civil como um respeitado homem de sapiência. Por ser erudito e versado nas letras e se encontrar numa região onde o conhecimento era considerado artigo de luxo, foi absorvido de imediato nas estruturas administrativas do Território Federal do Guaporé.

Foi nomeado Secretário de Cultura do estado na gestão do governador Jerônimo Santana, em 1985, e posteriormente foi nomeado Reitor pró-tempore em mandato relâmpago da Universidade Federal de Rondônia, em 1988. Além desses cargos de relevância social e política, era o Tradutor Oficial do Estado de Rondônia, versado em Espanhol, Italiano, Francês e Latim. Atuou também como jornalista, tendo criado a rádio Caiari, além de ter sido sócio do IHGSP e do IGHA.

Vitor Hugo vivenciou o final do momento de expansão das Ordens Religiosas na região. Era um contexto favorável ao discurso civilizatório, pois nos anos 40 e 50 ainda se vivia o “novo” surto da borracha em função da Segunda Guerra. O contato entre a incipiente população urbana e os povos nativos ainda era intenso. É nesse período que vemos surgir alguns personagens que ficaram marcados na memória popular como “sertanistas”: caso de Francisco Meirelles, Chefe do SPI; de Dom Xavier Rey, 1º Bispo da Prelazia de Guajará Mirim e Costa Marques no Vale do Guaporé e o médico do Território Federal do Guaporé, Ary Pena Tupinambá, que registrou o seu contato com as populações nativas.

Em 1959 foi publicado seu livro Desbravadores, em dois volumes. Fruto de mais de 12 anos de pesquisas em arquivos e bibliotecas nacionais e estrangeiras, a publicação abordava a história eclesiástica do vale amazônico, privilegiando em sua análise a prelazia de Porto Velho. Em volta do tema da catequese do vale, é traçada a crônica da região. A hipótese principal da obra é que as ordens religiosas (principalmente jesuítas e salesianos) seriam as verdadeiras “desbravadoras” da região do Vale do Madeira, contrapondo-se aí aos nativos – vistos pelo autor como gentios antagônicos à civilização – e aos colonos preocupados principalmente com ganhos econômicos.

Os missionários são retratados como os desbravadores da região, são os grandes heróis que “amansaram” os nativos a partir do “amor e da fé” ao invés da “violência”. Eles prepararam terreno para a grande obra civilizatória iniciada no séc. XVII, com o trabalho dos primeiros missionários. Vitor Hugo ressalva que “(…) a região do alto Madeira entrou no berço da civilização sob os raios tépidos da luz do cristianismo, liberta de qualquer outro compromisso. De maneira genuína e diferente de muitas regiões do norte brasileiro. (…) os Jesuítas foram os verdadeiros descobridores do Rio Madeira!” (Hugo: 1959, 25, 68). Podemos, a partir de sua narrativa, depreender o caráter de panaceia que ele atribui à presença e à atuação das ordens religiosas na região e que essa abordagem perpassa toda sua obra.

Ao mitificar a colonização o autor acaba por construir uma versão épica dos seus heróis e camufla a sua tragicidade. A colonização, de fato, se caracterizou pela fixação territorial dos novos atores, gerando choques violentos com a população local. Esta mitificação traz em si algumas implicações funestas. A apologia continuamente afirmada acaba por ser aceita como realidade, vindo a se tornar o alicerce na construção de uma identidade regional. A historiografia sobre a região cria de um lado o herói épico personificado nos missionários e de outro o anti-herói desvalido personificado nos povos nativos. As representações adquirem status de verdade, pela imposição simbólica na memória. Estas representações terminam por inculcar a legitimidade da ordem dominante por meio de um longo processo de “ensino”.

Esta perspectiva mascara o sentido da colonização, sua inserção num contexto socioeconômico mais amplo e, principalmente, a possibilidade de outros sujeitos atuarem nesta história, visto que aqueles que não compartilhem dessa “identidade” regional serão apagados da memória coletiva. É interessante observar que todo discurso utópico sempre imola suas vítimas em nome desse próprio futuro melhor.

O autor constrói uma visão histórica evolucionista, onde a “evolução” é vista como um processo natural que leva à “melhoria social”. Defensor do progresso econômico e tecnológico, atribuindo à cultura ocidental o papel de grande condutora dos “incultos” na marcha inexorável para um futuro melhor, Vitor Hugo endossa uma postura que reflete uma visão utilitarista em relação ao “primitivo”, colocando-o como objeto de dominação legítima e irreversível, tudo em nome do “progresso”.

Sua visão reproduz os estereótipos da literatura e da historiografia oficial que projetam uma imagem pitoresca e selvagem da região para o restante do país “desenvolvido”. Um “vazio construído” na base do genocídio continuado das populações indígenas e como a porção exótica passível de ser “domesticada”. Vitor Hugo reafirma essa imagem assentada de terra sem história, propícia para os labirintos do esquecimento. Ao rotular a região enquanto um “vazio cultural” menospreza a cultura das populações nativas reforçando uma ideologia “aplainadora” da integração nacional e ao mesmo tempo ocultando as guerras da “fronteira humana” travadas diuturnamente.

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sobre o autor

Articulista Hélio DantasProfessor de História em Manaus há 11 anos. Coordenador do Centro de Documentação do Colégio Amazonense D. Pedro II. Historiador, atuando na Secretaria de Estado da Cultura do Amazonas na Gerência de Patrimônio e Museu do Teatro Amazonas. É autor do livro Arthur Cézar Ferreira Reis: Trajetória Intelectual e Escrita da História (Paco Editorial, 2014). Tem particular interesse pela História dos Intelectuais e da Educação no Amazonas.