História, lugar do horror

Em 20 de agosto de 2018 às 08:02, por Hélio Dantas.

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Michel Foucault, logo no início de seu livro Arqueologia do Saber, afirma que a História “transforma documentos em monumentos”. Com isso, este filósofo francês criticava uma visão do passado oficializada, bem como lembrava que os documentos são conservados a partir de interesses. Eram construções semelhantes aos monumentos.

Assim, a História se configura como um discurso em litígio, com diferentes significados para diferentes grupos. Podemos acrescentar a essa leitura a constatação de Walter Benjamin de que “os que num momento dado dominam são os herdeiros de todos os que venceram antes” e concluir que o conhecimento histórico não é inocente e neutro e está ligado ao poder dos que legitimam a “sua” visão da História. E quem tem tal poder, apresenta sua visão como “universal”.

Para o autor alemão, a violência é parte constituinte de todo processo histórico, e a história é o lugar do horror. “Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie”. O que ele chama de barbárie é a montanha de ruínas, mortos e fragmentos acumulados por baixo do dito progresso da civilização. Nessa abordagem, importante seria tentar encontrar o sangue derramado, as vidas esfaceladas sobre as quais se ergueram os monumentos da humanidade de que tanto nos orgulhamos.

Mas parece que para certa historiografia é preferível e mais agradável ver a beleza dos feitos dos grandes homens da nação sem sentir as marcas do preconceito e da humilhação, sempre calcada em uma leitura do passado de cunho continuísta, mistificador e autoritário. Isso coloca um desafio aos historiadores: como problematizar a tradição? Como substituir as continuidades irrefletidas pelas rupturas reflexivas? Como pensar o diferente?

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sobre o autor

Articulista Hélio DantasProfessor de História em Manaus há 11 anos. Coordenador do Centro de Documentação do Colégio Amazonense D. Pedro II. Historiador, atuando na Secretaria de Estado da Cultura do Amazonas na Gerência de Patrimônio e Museu do Teatro Amazonas. É autor do livro Arthur Cézar Ferreira Reis: Trajetória Intelectual e Escrita da História (Paco Editorial, 2014). Tem particular interesse pela História dos Intelectuais e da Educação no Amazonas.