História e Mistificação

Em 10 de outubro de 2016 às 17:33, por Hélio Dantas.

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No texto anterior, falei um pouco da vida e da obra do padre salesiano Vitor Hugo. É que nos anos de 2003 e 2004, fiz parte do Projeto de Pesquisa “A construção da identidade regional e suas representações”, coordenada pelo Prof. Valdir Aparecido de Souza, vinculado ao Centro de Estudos do Imaginário Social, da Universidade Federal de Rondônia. A proposta era fazer uma análise da produção de um discurso identitário e de uma história regional em Rondônia.

Àquela altura, ninguém havia abordado analítica e criticamente a obra de Vitor Hugo. Ele era um autor duplamente esquecido: em primeiro lugar, por não ser objeto de estudos e pesquisas, e, em segundo lugar, por ser glosado ad nauseam pelos memorialistas e diletantes do Estado de Rondônia. Lembro-me como hoje da exasperação de um avaliador, quando da realização do Seminário Parcial de Pesquisa. Ele comentou da minha “ousadia” em querer analisar a obra de Vitor Hugo em apenas seis meses – “um intelectual respeitadíssimo”, disse ele (coisa lamentável é a sacralização, que faz alguém ser apenas REconhecido e não conhecido!).

Na verdade, o que eu queria era acenar para a necessidade de um debate mais que necessário sobre o que esses autores afirmaram, de que forma eles buscaram legitimar origens, apontar explicações e fundar uma identidade para o Estado através da História. De forma nenhuma o objetivo foi desprezar tal produção; pelo contrário, sempre tentamos botar a fluir esses discursos, já que notamos um desinteresse muito grande por parte da população e das autoridades políticas e intelectuais do Estado quanto à cultura, à história e à memória de Rondônia.

Foi dessa maneira que, depois de analisar a obra de Vitor Hugo, fiz também uma análise da obra de Emanuel Pontes Pinto. Nascido em 1924 no Pará, este veio para Rondônia na década de 1940, tendo sido seringalista, político e empresário. Além disso, Pontes Pinto esteve envolvido na criação do Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia, em 1979, e da Academia de Letras de Rondônia, em 1986 (sim, o provincianismo intelectual em Rondônia é tardio). Resolvi analisar o seu livro de estreia, “Caiari – Lendas, Proto-História e História” publicado em 1986. Abaixo seguem algumas considerações feitas na análise. Creio que ainda são válidas e podem ser inseridas numa percepção macro da historiografia amazônica.

Muito embora tenha se graduado na primeira turma de História da Universidade Federal de Rondônia (1986), a escrita de Pontes Pinto é marcada pelo ensaísmo e diletantismo. A maior parte do livro supracitado dedica-se a, através de uma forma fantástica e, por vezes, mirabolante, apresentar lendas sobre possíveis visitas de navegadores fenícios e hebreus a uma civilização na região amazônica, em busca de ouro e madeiras nobres para o império do Rei Salomão. Ele diz que:

Os navegantes fenícios saíam do mar Mediterrâneo pelo estreito de Hércules e rumavam para o Ocidente até o longínquo reino dos Inin ou dos Crentes, que ficava além das grandes ilhas, depois das regiões das calmarias, das tormentas e das correntes, no centro de uma mesopotâmia, em região tropical onde foram erguidas três grandes cidades – Ofir, Tarschisch e Parvaim – e lá eles chegavam depois de muito navegar por um mar de água doce, com inúmeras ilhas e afluentes. (…) Falavam os marinheiros que Manoa, capital desse império sertanejo, era calçado de ouro ‘onde não havia menos de três mil operários empregados na Rua dos Ourives e a suntuosidade do palácio imperial impressionava. A cidade ficava numa ilha formada por um lago’, o paço era de pedra alva; à entrada erguiam-se duas torres e entre elas uma coluna de 25 pés de alto; no seu cimo via-se uma grandiosa lua de prata e presos à sua base com cadeias de ouro estavam dois bois vivos. (…) A rota dos argonautas dos mares externos foi perdida e os cataclismos sumiram com muitas ilhas que lá existiram. As comunicações entre os povos que viviam nos extremos do mundo, foram rompidas. Nunca mais hebreus, fenícios e outros povos tiveram notícias do fabuloso reino dos Inin e de suas cidades de Ofir, Tarschisch e Parvaim. Elas ficaram perdidas até para a História. (1986: 48-51)

Buscando estabelecer uma cronologia, o autor traça o seguinte esquema: A Proto-História a que ele se refere no título da obra seriam essas viagens fantásticas feitas por povos fenícios e hebreus a uma evoluída civilização de descendência semita na América, civilização esta que se extinguiu após um “cataclismo” (1986: 108-109). A História se iniciaria com a chegada de portugueses e espanhóis no séc. XVI e com a consequente atuação dos bandeirantes. De forma bastante eurocêntrica ele afirma:

o indígena brasileiro regrediu sensivelmente [após o cataclismo que extinguiu a avançada civilização precedente], mas este fato não fez desaparecer a possibilidade de ter abrigado esta região setentrional, antiga civilização, e os vestígios dela aí estão, expressos por um erudito, a desafiar as críticas e conclusões de outros. (1986: 86).

O erudito a quem Pontes Pinto se refere é Onffroy de Thoron, que viveu no séc. XIX e pesquisou e escreveu sobre a suposta visita das embarcações fenícias. O autor também usa como referência o Antigo Testamento. Não nos cabe aqui entrar no mérito da questão da legitimidade ou veracidade de tais lendas. O que queremos frisar é a forma mística com que o autor faz a sua explanação, de forma praticamente acrítica e ingênua, apresentando essas ideias como verdades inquestionáveis que ele usa para incrementar e legitimar seus argumentos. Além do mais, na tentativa de estabelecer uma continuidade histórica entre Israel no auge do reinado de Salomão com a Amazônia, Pontes Pinto não faz uma crítica hermenêutica e histórica da Bíblia, ele simplesmente aceita como uma realidade dada o que o livro diz. Também não leva em consideração a análise do imaginário europeu à época das “grandes navegações” (a ideia do paraíso perdido, do Eldorado) nem efetua uma problematização dos autores que ele usa e cita. As mudanças, os acontecimentos se dão, nas palavras do próprio autor, “num passe de mágica” (1986: 179), sem nenhuma explicação mais aprofundada.

Um ponto importante a ser observado é o salto histórico que o autor efetua em sua narrativa. Primeiramente, liga a Antiguidade à Modernidade sem maiores problematizações. Por último, liga a Antiguidade à República Brasileira: a parte final de seu livro apresenta o Mal. Rondon como uma espécie de bandeirante e desbravador moderno, um grande herói místico e sábio, que teria descoberto uma mina de ouro ligada à fantástica época das viagens fenícias a qual batizou e registrou como “Urucumacuã”. Segundo Pontes Pinto, essa era uma mina de difícil acesso, porém de extrema abundância aurífera, de tamanho porte que somente a sua exploração resolveria os problemas econômicos brasileiros. Getúlio Vargas inclusive teria incumbido Rondon de encontrar a mina e explorá-la para tal fim, porém, misteriosamente, ela nunca mais foi encontrada. Numa clara alusão e reatualização da ideia do Eldorado. Ele afirma que:

a penetração sistemática foi feita pelos seringueiros, caucheiros e poaieiros, com o advento, na região, do extrativismo vegetal, que obteve maior incremento mais para o noroeste. O silêncio secular da selva, desde então, foi quebrado pelos estampidos dos rifles de repetição dos invasores, nos entreveros com os naturais armados de arco e flecha. A prepotência do mais forte, isto é, do mais bem armado e municiado, contra o mais fraco, prevaleceu mais uma vez, naquela luta constante e sem quartel. Estava inaugurado o ciclo do grande genocídio a que o País e a humanidade assistiram, sem reação. Um povo primitivo passou a ser exterminado ferozmente, em holocausto a uma visão bisonha de progresso. O Brasil, enquanto colônia portuguesa, foi atingido por muitos acontecimentos que prejudicaram a sua geografia e sua história. Depois, com o Império, já emancipado política e administrativamente, padeceu por falta de legislação adequada que o protegesse contra os assaltos criminosos à sua ecologia invulgar e às criaturas que viviam em estágio selvagem ainda, atrasadas no tempo e no espaço, dentro de suas fronteiras, mas portadoras, naturalmente, de todos os dons que destinguem [sic] o ser humano. Ao raiar do século XX, com uma República trôpega, esforçando-se para afirmar-se, nada se fez para coibir a dizimação do nativo, que lutava pela preservação dos seus valores e de seu espaço vital. Ouviu-se, então, no anfiteatro mato-grossense, palco dessa cena deprimente, uma voz firme e autoritária, tentando, embora tardiamente, a pôr termo àquele estado de guerra permanente. – ‘Morrer se preciso for, matar nunca’. Como um profeta, Rondon surgiu neste longes, pregando, também, a boa nova do amor. (1986: 180)

É preciso aqui frisar como o autor conduz o tom de sua narrativa. Onde tudo antes era só aventura e bravura, viagens fantásticas, abundância e riqueza, passa a ser massacre e desalento, involução e primitivismo; à mesma maneira que Vitor Hugo, Pontes Pinto também elenca o seu “desbravador”: Rondon, o verdadeiro “Jesus dos trópicos”, trazendo a paz, a justiça e o progresso.

O que percebemos a todo o instante na leitura desta obra é a tentativa constante de seu autor de constituir um passado longínquo, um mito fundador fantástico para a região, que lhe dê importância no cenário histórico nacional, por ser palco de riquezas que serviram a um império bíblico. Visando legitimar uma história pomposa e gloriosa, com grandes fatos, personagens e heróis, acima do “primitivismo” dos silvícolas que habitavam a região, o autor pratica História como mistificação. De fato, este livro de Pontes Pinto ecoa outro livro, a saber, Inscrições e Tradições da América Pré-Histórica, do amazonense Bernardo Ramos, publicado em 1930, e que segue a trilha aberta pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, cujos sócios, em suas primeiras décadas, se esforçaram em tentar encontrar vestígios de uma grande civilização que pudesse abrilhantar a memória e o passado da nova nação, que não queria de forma nenhuma estar associada aos nativos que massacrou simbólica e fisicamente.

BIBLIOGRAFIA

PINTO, Emanuel Pontes. Caiari – lendas, proto-história e história. Rio de Janeiro, Cia. Bras. de Artes Gráficas, 1986.

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sobre o autor

Articulista Hélio DantasProfessor de História em Manaus há 11 anos. Coordenador do Centro de Documentação do Colégio Amazonense D. Pedro II. Historiador, atuando na Secretaria de Estado da Cultura do Amazonas na Gerência de Patrimônio e Museu do Teatro Amazonas. É autor do livro Arthur Cézar Ferreira Reis: Trajetória Intelectual e Escrita da História (Paco Editorial, 2014). Tem particular interesse pela História dos Intelectuais e da Educação no Amazonas.