Há trinta e seis anos, uma visita ilustre

Em 14 de julho de 2016 às 08:00, por Jorge Alvaro.

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“Vós encontrais, por outro lado, não poucas situações de pobreza, de ignorância, de doenças, de marginalização que clamam por uma atenção desinteressada e eficaz de todos os que podem ajudar à promoção humana integral de amplas massas populares.”

Frase pronunciada há trinta e seis anos pelo Papa João Paulo II, na missa celebrada na Bola da Suframa, sob o escaldante sol de uma sexta-feira em Manaus. Foi uma festa ecumênica inesquecível sob todos os aspectos. Afinal era a primeira vez que o mais alto representante da Igreja Católica fazia uma vista ao Brasil, chegando em Brasília – DF e, depois percorrendo Belo Horizonte (MG), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), Aparecida (SP), Porto Alegre (RS), Curitiba (PR), Manaus (AM), Recife (PE), Salvador (BA), Belém do Pará (PA), Teresina (PI) e, por último, Fortaleza (CE). Eu, então com vinte e três anos de idade, tinha como colega do Curso de Administração da Faculdade de Estudos Sociais da antiga Universidade do Amazonas – UA o Eduardo Fernandes, ambos envolvidos em um projeto de arte da Universidade, para a realização de filmes em Super-8 – os mais antigos sabem do que estou “falando”. Nossa missão de “cineastas” era voltada para a identificação dos problemas da segurança pública na nossa cidade (quanta pretensão!). Mas não podíamos deixar de registrar aquilo que se apresentava como ineditismo em nossa cidade: a visita papal. E na noite do dia 10 de julho daquele ano, eu e Eduardo, a bordo do meu Fusca 76, acampamos ao redor da Praça Francisco Pereira da Silva (esse é o nome oficial da Bola da Suframa). Com a câmera na mão, Eduardo contava comigo para ser o seu repórter. A multidão, pouco a pouco ia se compondo. Pessoas de todos os matizes, homens, mulheres, velhos, crianças, procurando a melhor acomodação para, pelo menos, ver a figura do Papa, quando chegasse a hora. Ali estavam pobres e remediados, já que em Manaus éramos e ainda somos desprovidos dos ricos, cada qual com seus anseios por dias melhores. Ali ninguém dormiu. Pela manhã, os “vendedores do templo” encheram os bolsos com a venda de alimentos que serviram como café da manhã para aquela massa esperançosa. Lá pelas dez horas, com a chegada do Papa, a multidão entrou em êxtase, ovacionando. A missa foi realizada na mais absoluta normalidade. Era o dia 11 de julho de 1980. De lá para cá, perdi contato com meu amigo Eduardo e não sei o destino das tomadas que o mesmo fez com sua câmera Super 8, pois nem mesmo concluímos o trabalho sobre a segurança pública. Acho que somos dois cineastas frustrados na origem. Pois é, três décadas e meia depois, aquelas palavras papais transcritas lá em cima ainda não foram efetivamente ouvidas. Pobreza, ignorância, doenças e marginalização ainda compõem a ordem do dia na nossa Manaus, tão desprezada pelos governantes desde sempre. Rezar e esperar por milagres divinos não basta. Está na hora do povo deixar de se acumpliciar com esses políticos que fazem mal à política e ao destinatário dela, o homem.

sobre o autor

Articulista-Jorge-AlvaroGinasiano do Colégio Estadual, de 1969 a 1975, tímido para ser líder, somente em 1996 presidiu a associação dos juízes trabalhistas da Região, por dois anos. De Manaus, onde pretende morrer, ouve música e assiste filmes, indiscriminadamente. Mais leitor que escritor, afinal ser o segundo é para poucos. Aceita desafios.

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