Gravura Erótica

Em 31 de janeiro de 2017 às 08:00, por Otoni Mesquita.

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Muitas pessoas passam pela vida sem nunca ter ouvido falar dela. Outras ouviram falar, mas não têm uma ideia precisa de como funciona ou se apresenta. Às vezes têm ideias deturpadas e confundem com pornografia. Proíbem os filhos de manter qualquer contacto com esta coisa que não sabem o que é, mas que acham que é perigosa, pois mexe com a libido e com a criação.

Poucos foram iniciados neste universo raro e sem retorno. Alguns ficaram completamente dependentes e não conseguiram mais retomar o ritmo da vida que vinham levando. Alguns penetraram sem muita profundidade, levados por um texto superficial, imagens curiosas ou alguma conversa nem sempre tão especializada.

Muitos chegam a ela quase que obrigados. Como um dever, uma disciplina a ser cumprida. Sendo perigoso assumir uma forma burocrática, de cumprimento de atividades burocráticas que atende números, portanto, corre o risco de ser frio e calculista, não promovendo qualquer prazer a seus usuários. São aquelas relações gordas, ociosas, com cheiro de cigarro e café frio. Carimba assina e chama o próximo.

Só há salvação para aqueles que descobrem que fazer uma gravura é quase o mesmo namoro que tiveram quando começaram a desenhar e descobriram o que podiam fazer com o lápis. O universo que surgia e a formas que brotavam sem predeterminação. Uma troca de carícias, uma relação afetiva, um namoro que deve ser eterno enquanto dura a relação.

Alguns podem descobrir grandes prazeres e literalmente mudar de vida. Estes deverão encontrar prazer no simples roçar de seus instrumentos contra superfícies lisas e sólidas. Vibrarão com os primeiros arranhados e com as primeiras penetrações. Sentirão necessidade de buscar novas posições e composições. Não se contentarão apenas com o café com leite feito pelo contraste simples de pretos e brancos ou as variantes meio quente, meio fria tal qual a mistura de feijão com arroz que servem na bandejão.

Devem se desligar das outras ocupações. Na hora deste amor só deve existir ele. Esqueça o mundo!!!

 É desses amantes que necessitamos para que estas relações tenham sentido e façam diferença. São eles que mergulham de cabeça em cada coisa e que podem estimular os outros na arte com prazer e com intensidade. Vão inteiros.

Como em uma relação amorosa, existem muitas maneiras de se materializar uma gravura erótica.  Deve-se partir de um contacto simples e essencial com seu toque íntimo e pessoal. Sem este contato não há fantasias ou sexy shop, nem a diversidade de relações, nem poligamia ou outras relações erotizadas, nem mesmo grandes bacanais são capazes de produzir a matéria essencial. Talvez temendo cair em tentações das muitas possibilidades é que alguns, mais tímidos, fiquem travados e prefiram imaginar cada detalhe. Planeja cada gesto, como seria cada traço, cada claro e se teria escuros a compor a imagem do ser amado.

 Sonham com as maneiras de conduzir o seu instrumento, prevendo o surgimento de destacados volumes e sombras gerados por incisões feitas por certeiros cortes e golpes afiados. Pensam por onde começar e como tudo seria belo e sofisticado se realizado. Acovardados ficam escondidos nas formas idealizadas das relações platônicas, próprias das relações que não acontecem, não concretizam. Preferem imaginar como seriam se tivessem feito isso ou aquilo. Mas nem um ensaio para mostrar que podem superar o medo. Ficam paralisados e fogem para o idealismo, não realizam. Podem até sentir prazer, mas a frustração de não realizar é ainda maior, pois não acreditam que são capazes de tocar e trocar com o objeto de seu desejo. Sem contato não há reprodução.

A relação deve surgir de uma vontade e implica em uma relação que, em geral, envolve mais de três personagens, mas não deve ser promíscua. Pode ser uma relação de amor, mas nada impede que se desenvolva apenas uma relação profissional, visando a sobrevivência ou outras necessidades. Mas não deve ser tratada apenas como uma relação comercial. Ainda que possa parecer contraditório, em geral, são as relações mais dedicadas e profissionais, que apresentam maior possibilidade de gerar reproduções.

 Não há como escapar. Em geral é uma relação moldada em padrões tradicionais. Alguém domina e a outra parte se submete ao instrumento que lhe penetra e se dirigido pode abrir veios e grotas que podem fazer sentido o seu corpo plano e tratado com lixa fina.

Da origem mais vulgar e pobre, aos berços mais raros e caros. Do papelão desprezado e abandonado no lixo das cidades, às madeiras mais nobres e perfumadas seqüestradas das mais belas florestas. Parodiando o grande cineasta brasileiro, podemos afirmar que só há uma atitude a ser tomada nesta relação: uma ideia na cabeça e uma goiva na mão. Mas isto não é tudo para começar o romance.

É preciso saber manusear o seu instrumento de prazer e de trabalho. Ainda que levado por um amor animal, a madeira, tal qual uma amante calorosa, não deve se manter apática, nem brincar de morta. Ela deve reagir ao toque daquele que lhe penetra. Além de chegar com o instrumento amolado, conhecer o sentido dos veios da criatura. Saber em que direção quer seguir e não correr o risco de quebrar o instrumento, romper a madeira e sair ferido. Ter em mente o filho imaginado.

Não importa onde foi feita a iniciação; se na bananeira ou no açacuzeiro, cerejeira, maracatiara, cedro ou marupá. O que vale é retirar a experiência de qualquer relação, não importa se tenha sido com um compensado torto, um duratex mofado ou linóleo molenga. Não importa o suporte em que tenhas deitado o seu instrumento, mas que você retire algo desta vivência e que se deleite com as novas experiências de cravar e gravar.

Instrumento afiado é sinal de prática constante, mas não basta ser amolado, de ouro e com diamantes cravejados. É preciso saber manusear o instrumento. Saber em que direção cortar, prevendo o que será descoberto e o que ficará escondido. O que deve ficar intocável e aquilo que deve ser sutilmente mostrado.

Para marcar definitivamente é preciso vigor e decisão, não necessita de violência no gesto nem mergulhar tão profundo no corte, senão poderá machucar o instrumento ou abrir lascas irreparáveis em sua matriz. Lembrando que deve ser uma relação de parceria. O toque do instrumento deve ser feito com precisão e direção. Todo ponto pode ser G, quando se está presente. Pode ser fino o instrumento e pouco profundo o corte. Só depende do que você queira como resultado. Com as mãos leves e com a carícia de instrumento amolado, a madeira cede mais facilmente que a fúria de um corte que ignora que ela existe. Assim como uma mulher tocada, a madeira recebe com prazer os cortes finos feitos com desenvoltura de quem sabe o que quer e para onde vai.

Assim como em algumas relações, na gravação é necessário que alguém mantenha as rédeas da direção. Mas nada autoritário. Uma atitude bastante saudável para a relação quando os dois conseguem se entender.

Para estabelecer uma relação de compreensão na relação deve-se manter um estado de concentração e atenção. Não esqueça que você pode irremediavelmente agredir o suporte, cortes irreparáveis. Reparações são como plásticas, nem sempre parecem naturais. Você pode perder o afiado de seu instrumento e sair ferido. Portanto, muito cuidado. Concentre. Pode até falar, mas não entre em uma discussão sobre religião, política nem sexo. Grave !!!

Concentração no corte. Grave com o prazer como se só houvesse isto para fazer na vida, pelo menos naquele momento. Lembrar que as mãos devem ser mantidas fora do alcance das lâminas. Uma pode auxiliar a outra, na direção e no controle da ferramenta. O que não pode é ficar ociosa, pois assim como as pessoas que nada têm a fazer acabam se atrapalhando. Você pode utilizar diferentes suportes para chegar a posição mais cômoda e prazerosa. Não importa o que você quer reproduzir. O tema pode ser um pretexto para penetrar na relação. É como uma conversa, um flerte inicial, mas que pode ser superado pelo ritmo da própria conversa, ou seja, pelo como se faz. Esta é a verdadeira diferença. Aproveite e se descubra no ato.

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sobre o autor

Amazonense, artista visual e historiador da cidade. Gosta de literatura, música, cinema e fotografia. Não dirige, mora no centro da cidade. Nada no Nacional e anda pela cidade olhando e fotografando pequenas coisas.