Geraldo Magella

Em 16 de abril de 2019 às 08:30, por Lúcio Menezes.

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Geraldo Magella, amigo do Colégio Brasileiro, tinha talento e criatividade de sobra, desenhava, inventava estórias, cantava no tom e dominava instrumentos de percussão como poucos; líder da banda do colégio nas paradas cívicas, ousou, estilizou, ditou e introduziu o novo ritmo que a banda passou a empregar, mais acelerado e ritmado. Saiu da mesmice, inovou, mandou bem.

Era ele quem patrocinava os campeonatos de eletrobol, uma máquina com dez pinos (tipo joystick) e um botão em cada uma das suas duas extremidades e que permitam, a cada um dos dois jogadores, empurrar para frente e para traz os  dez jogadores de futebol que se moviam em linha reta e, quando pressionados para baixo, faziam com que chutassem a bola; o botão que ficava a direita respondia pelo controle do goleiro e licenciava que o girássemos para a direita e esquerda da trave. Os campeonatos eram realizados no Key Club, na Rua Dez de Julho, entre a Avenida Eduardo Ribeiro e a Rua Tapajós, na lateral do Teatro Amazonas.

Ele é o único torcedor da Portuguesa paulista que eu conheço, no campeonato brasileiro de futebol de 1973, foi ao aeroporto, fantasiado de torcedor, receber a delegação que para cá veio jogar contra o Nacional. A Lusa competitiva de Ratinho, Cabinho e Xaxá.

Ás vezes ficava a pensar se o Magella ia pra aula para aprender ou se divertir, definitivamente estudar não era sua prioridade, passava o tempo todo a batucar na carteira, a fazer versos engraçados, a apelidar os colegas, a cantar, a desenhar caricaturas, especialmente do Sully Abecassis. A alça do penico que desenhava tinha o rosto do nosso amigo judeu, assim, abaixo do desenho escrevia: Sully + penico = Sulico; a anta e a baleia também ganhavam o rosto dele, logo: Suleia e Sulanta; já um monturo, era Sulixo. Para o Antônio Adolphos, o Piu-Piu, ele batucava, cantava e repetia: Piu-Piu só voa em abril, Piu-Piu só voa em abril. Para o Mario Marcos, cujo apelido era Bombalá, ele cantava: Bomba lelê, bomba lelê Bombalá, bomba lelê Bombalá bomba lelê Bombalá… Com direito a segunda voz e tudo. É claro que nenhuma das vítimas apreciava suas “brincadeiras” e algumas vezes o clima esquentava, especialmente quando o feiticeiro bebia o feitiço. Simples: bastava chamá-lo de imundo ou cantar a música italiana Il Mondo, ou, ainda, não pronunciar o apelido inteiro, apenas soltar um som nasalado, que mais parecia um mugido: uuummmmmm. O apelido se apoiava no fato de que ele usava um produto no cabelo que o deixava colado ao rosto, dando-lhe um aspecto nada higiênico.

O jornal do Colégio Brasileiro, “A Patota”, tinha a participação do Roberto Roger, do Addison, minha e dele, é claro que nos autopromovíamos, mas ele extrapolava e detonava aqueles que ameaçassem qualquer das “minas” que ele pretendesse. O Jornal era comercializado e tinha ótima aceitação, até fizemos uma festa no Olímpico Clube com o apurado. O tesoureiro era o Roberto Roger que se demitiu depois que o Magella fez um “saque” que esvaziou toda a nossa reserva e a usou no aluguel de um carro Maverick.

Para que não ficasse só, nessa sua empreitada automobilística, buzinou na porta da minha casa e me cooptou, assim também procedeu com o Hernani. Havia dinheiro suficiente para honrar a diária, mas faltava-nos para o combustível. Ele não se fez de rogado e viabilizou o abastecimento via expediente nada republicano.

Bem, eu conhecia três irmãs que estudavam datilografia no Colégio Divina Providencia, em frente ao Instituto Benjamin Constant. O nome de uma delas era Flora, por não saber os nomes das demais, as chamava de Fauna e Hileia, as meninas eram “dadas” e toparam dar uma volta conosco até a Praia da Ponta Negra. A estrada primitiva era estreita, mal iluminada, o Hotel Tropical só viria a ser inaugurado três anos mais tarde.  Existia apenas um chapéu de Palha com um bar, onde se dava o “balão” e retornava pra cidade. Apesar da baixa incidência de casos de violência, não era recomendável ficar até tarde naquele sítio. Eu fiquei com a Flora, o Hernani sumiu na escuridão da praia com a Fauna e o Magella ficou no carro com a Hileia. Quando eu e Flora retornamos, encontramos Hileia aos prantos a reclamar da “falta de tato” do Geraldo. A ele restou voltar pra casa e apelar para o clássico juvenil da luta desigual de cinco contra um; a mim, aguardar os seis meses que elas ficaram “de mal” comigo.

Certa vez o professor de língua portuguesa, Agenor Ferreira Lila, o expulsou da sala de aula, não tolerou ouvi-lo declamar o início do poema épico, Os Lusíadas, de Luís de Camões, com sotaque lusitano carregado de deboche. Ao levantar-se da carteira ele ainda imitou o mestre na sua forma de andar e de carregar seus pertences. Não deu outra, foi suspenso por três dias.

Magella nem sempre pôde viajar em férias, especialmente ao Rio de Janeiro, mas isso não o impedia de promover, em sua casa, as festas de despedida e de chegada. Nas que não viajava, se trancava em casa e passava três a quatro semanas tomando sol na pequena laje. Quando o bronzeado da pele estava no grau, telefonava pra todos a convidar para a festa de sua chegada e a anunciar que trouxera o LP novo do Creedence.

Quando esteve em férias no Rio jogou para a plateia, disse que estava no aguardo da chegada do seu carro, um TL ou Variant de cor branca – por isso o chamava de Gasparzinho -, que logo o navio que o trazia atracaria no porto do Rio. Assim, ele conseguia que vários dos caboquinhos amazonenses – nos reuníamos em frente à Rua Hilário de Gouveia, em Copacabana -, ficassem a puxar seu saco, loucos pra acomodar suas traseiras nas poltronas do Gasparzinho. Sendo este um fantasminha é fácil deduzir o final, o carro jamais foi visto a rodar pelas ruas do belo Rio.

Era um peladeiro esforçado, mas se julgava um zagueiro com recursos técnicos. Ainda dentro do quesito esforço, tanto insistiu em chutar com a perna esquerda, que acabou por se tornar canhoto.

Nunca mais o vi, há muito daqui foi pro Rio e hoje mora em São Paulo. Do Rio chegaram-me duas informações: a primeira dá conta que morava na Zona Norte e que certa vez foi à Zona Sul com seus rebentos, visitou uma tia querida, pediu-lhe que ficasse com as crianças só um instante enquanto resolvia umas pendências, voltou para buscá-las uma semana depois. A segunda, contou-me um contemporâneo que estava a morar no Rio e um dia recebeu sua visita. Geraldo Magella pediu-lhe emprestado uma grana, tipo hot Money (vapt vupt), pra comprar remédios para um dos dois filhos que o acompanhavam. O amigo solidário emprestou. Meses depois recebeu um bilhete com o texto: “Roger, eu deixei com o porteiro do seu prédio um envelope com o seu dinheiro dentro, se por acaso ele te entregar o envelope vazio, é porque o sacana ficou com a grana”.  O meu amigo achou o bilhete tão surreal que o guarda até hoje. O certo é que o acerto ainda permanece em desacerto.

Tenho muita vontade de reencontrá-lo, vê-lo, abraçá-lo, jamais julgá-lo, Magella está acima do bem e do mal, sabe-se lá as agruras pelas quais passou. Fico a imaginar o que é ter tido infância, adolescência e juventude de mimo e fausto e o resto da vida para se virar. Nem sei se continuou os estudos, se graduou, soube que é percursionista profissional nas noites de Sampa. Há quatro anos me emocionei quando ouvi sua voz ao telefone, a mesma, só que acariocada, depois eu perdi o meu telefone móvel e com ele o seu contato.  Magella me arrancou muitas gargalhadas, proporcionou grandes momentos, foi parceiro, sócio, amigo, bancou lanches e campeonatos de eletrobol… Protagonizamos momentos inesquecíveis, fomos felizes, ponha felizes nisso.

Ele tinha brilho de estrela, tão intenso quanto o da estrela que o Roberto Roger imortalizou na sua produção cinematográfica “O Brilho da Estrela”.

Não me importa os conflitos tratados pelos numerólogos sobre a simbologia desse número, importa a minha sorte quando, aos 13, entrei naquele estabelecimento de instrução e fiz amigos tão especiais, tempo em que a rivalidade entre os colégios fazia com que escutássemos dos contrários, quando passávamos fardados: “Colégio Brasileiro entra burro e sai bombeiro”, e respondíamos: “Colégio Estadual entra burro e sai lalau” ou “Instituto de Educação entra burro e sai ladrão” .

 

Égua do tempo pai d’égua!

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sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.