Fora do ninho

Em 16 de Janeiro de 2017 às 08:05, por José Carlos Sardinha.

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Em fins de 1972 concluí, porcamente, o último ano do Colegial, no Colégio Arnolfo Azevedo, em Lorena. Chegou o momento de encarar um exame vestibular. E agora José, para onde? Por anos tinha sonhado em ser engenheiro ou arquiteto. Para passar em um dos raros vestibulares da época tinha-se que ser muito bom, e eu não era. Fazer um cursinho pré-vestibular parecia ser o caminho mais sensato para aumentar minhas escassas chances, mas havia um problema …. Deveria me apresentar para o serviço militar obrigatório. Desgraçadamente, meu irmão mais velho, agora capitão do glorioso Quinto Regimento de Infantaria de Lorena, responsável pela convocação dos conscritos, recusou-se peremptoriamente a me dispensar. Alegava que o Exército não poderia contar apenas com os jovens de baixa escolaridade, precisava também dos letrados como eu. Ademais, se o fizesse teria que estender essa benesse para todos os demais colegas de turma. E não se fala mais nisso. Tive que sair de Lorena.

Meu irmão Edmilson (o que desenhava) tinha se graduado em Engenharia no Rio de Janeiro, trabalhado na construção da ponte Rio-Niterói e agora trabalhava na construção de uma usina hidrelétrica, no norte de São Paulo, divisa com Minas Gerais. Numa cidadezinha chamada Icem, município não tributário, onde, portanto, os jovens eram automaticamente liberados de prestarem o serviço militar. Fui para lá, me apresentei e fui dispensado. Ato contínuo, meu irmão me arranjou uma boquinha em um dos setores de engenharia da grande obra. Pelo planejado com ele teria agora que começar a me preparar para o vestibular no final do ano. Mas eis que chega roda viva e carrega o planejado pra lá! Passei a ter dinheiro no bolso. Não sei quanto em valores de hoje, mas certamente era muito mais do que o meu pai tinha ganho em qualquer época de sua vida. Roupas da moda, tênis sofisticado, morando em um hotel com outros peões da obra, sem precisar nem dar água para um passarinho. Caí na gandaia.

Entre janeiro e outubro de 1973 levei um vidão, trabalho leve e gostoso de dia, alimentação farta quatro vezes ao dia. Convívio descompromissado com pessoas de todos os recantos do Brasil. Futebol duas a três vezes por semana; pescarias de bagre e piau nas águas do Rio Turvo e Grande; Bordel nos dias de pagamento. Mas…”o tempo é como um rio, que caminha para o mar. Passa como passa o passarinho…”Chegou o final do ano e minha preparação para um eventual vestibular ficou na promessa. Pior, passei a ter vergonha de meu irmão que tanto tinha se mobilizado por mim. Não podia mais viver à sua sombra. Precisava fazer algo por mim mesmo. E fiz bobagem. Candidatei-me a um novo trabalho na mesma empresa (Construtora Mendes Júnior), só que agora no exterior. Na África. Mais precisamente na Mauritânia, onde a empresa iniciando sua carreira internacional ganhara a licitação para construção de uma estrada de ferro. Tolamente achei que, incompetente que me achava para passar num vestibular, deveria me envolver com algo rentável e/ou exótico. Meus pais não entenderam nada. Não me recriminaram e minha mãe disse que oraria por mim.

Em janeiro de 1974 estava eu em Belo Horizonte, na sede da empresa, para fechar o novo contrato de trabalho. Mesma função, quinze salários em dólares, duas passagens para o Brasil ao ano. Mas ao encontrar outros colegas da hidrelétrica, que também estavam se preparando para a aventura sahariana, descobri que vários deles tinham feito um contrato muito melhor que o meu, e, particularmente um deles com quem tinha uma rixa, seria meu superior, invertendo o status quo anterior. Meu besta orgulho não suportou e desisti. Começando tudo de novo passei a procurar um emprego que me permitisse subsistir e ao mesmo tempo pagar um cursinho pré-vestibular. O vidão tinha se esfumaçado.

sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.

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