“Fica o que significa”…

Em 19 de janeiro de 2018 às 08:58, por Hélio Dantas.

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Venho escrevendo nas últimas semanas sobre essas questões da memória, do autobiográfico, e acabou que semana passada fui assistir a um filme, ainda em cartaz, chamado Viva – a vida é uma festa (Coco, 2017, Walt Disney Pictures/Pixar Animation Studios). O longa de animação é uma bela história de família, acerto de contas e de perdão, ambientada durante o Dia dos Mortos no México. Não vou aqui resenhar o filme, apenas vou me ater a alguns detalhes da trama que me fizeram pensar em várias coisas.

Miguel, o protagonista, é um garoto de 12 anos apaixonado por música e sonha em ser um violonista famoso, mas se vê às voltas com sua família que é totalmente contra a ideia. Vovó Inês é sua bisavó, a única parente que lhe dá ouvidos, pois ainda lembra de seu pai, o músico que abandonou a esposa e filha e fez com que a música fosse banida da família, apesar de sua memória estar em declínio. No momento mais singelo e emocionante do filme, Miguel lembra a música especial que o pai de vovó Inês cantava para ela quando ainda menina, o que traz de volta as lembranças mais profundas de vovó Inês, de maneira quase mágica.

“Fica o que significa”... Durango Duarte

Miguel canta para sua bisavó e desperta suas lembranças. FONTE: The Disney Wiki

Inevitável foi, para mim, não pensar, nesse momento, no clássico livro de Ecléa Bosi, Memória e Sociedade: lembranças de velhos, publicado pela primeira vez em 1979. O seminal trabalho reunia depoimentos de idosos sobre suas experiências de vida na cidade de São Paulo e as modificações na cidade percebidas por eles ao longo dos anos. Em certa altura do livro, Bosi interroga e responde algo que pode muito bem condensar o espírito do filme acima citado: “qual a função da memória? Não reconstrói o tempo, não o anula tampouco. Ao fazer cair a barreira que separa o presente do passado, lança uma ponte entre o mundo dos vivos e o do além, ao qual retorna tudo o que deixou à luz do sol. Realiza uma evocação: o apelo dos vivos, a vinda à luz do dia, por um momento, de um defunto”.

O filme e suas conexões com a obra de Bosi, também ativaram em mim muitas emocionantes lembranças. Me fizeram pensar no meu avô materno que nunca conheci, nem sequer em uma fotografia… apenas nas descrições e nas lembranças da minha mãe, o suficiente para me siderar pela vida inteira com a presença fantasmática dele: Armílio Liberato da Costa, cearense, soldado da borracha, morto tão jovem por causa do álcool nas várzeas do Uarini. Lembrei-me de minhas duas avós, que partiram há alguns anos e das quais guardo muitas histórias contadas nas longas noites da infância e da adolescência. Pensei em meus pais, ainda vivos, e dos muitos relatos de família por eles lembrados nos encontros e reencontros, já fruto da curiosidade de um filho formado em História.

Por fim, fiquei a refletir no nosso papel de salvaguarda da memória de nossas famílias, de não deixar que essas histórias, que essas pessoas, com suas experiências e trajetórias caiam no esquecimento. Paul Thompson, em A voz do passado, alerta para uma necessidade: “instigar os historiadores a se indagarem sobre o que estão fazendo e por quê. A reconstrução que fazem do passado baseia-se na autoridade de quem? E com vistas a quem ela é feita? Em suma, de quem é a voz do passado?” Ainda que tais experiências possam ser insignificantes para muitos, elas possuem um valor inestimável. As pessoas ditas importantes e célebres têm seus rastros e experiências guardados em museus e centros de memória. O que nós temos guardado de nossos familiares e antepassados que não gozam do mesmo status? Ecléa Bosi pondera que, na memória dos velhos, “fica o que significa”. O que dizer de nós? O que vai ficar? O que vamos guardar?

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sobre o autor

Articulista Hélio DantasProfessor de História em Manaus há 11 anos. Coordenador do Centro de Documentação do Colégio Amazonense D. Pedro II. Historiador, atuando na Secretaria de Estado da Cultura do Amazonas na Gerência de Patrimônio e Museu do Teatro Amazonas. É autor do livro Arthur Cézar Ferreira Reis: Trajetória Intelectual e Escrita da História (Paco Editorial, 2014). Tem particular interesse pela História dos Intelectuais e da Educação no Amazonas.