Feliz Ano Novo! Tristes tragédias antigas

Em 4 de janeiro de 2017 às 17:10, por Jorge Alvaro.

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Depois de algum tempo sem escrever por aqui, entro no ano novo com certa disposição, pretendendo homenagear pelas teclas algumas figuras amazonenses esquecidas no tempo. São vários personagens que, apesar de terem sido expressivos na sua respectiva época de atuação, sequer são conhecidos pelos que hoje circulam vivos na nossa cidade de Manaus. Entretanto, na noite do primeiro dia do ano, mais do que a lembrança do passado, a realidade nua e crua do nosso dia-a-dia veio à tona, suplantando minha vontade de pretenso historiador. O massacre no COMPAJ, a chacina no IPAT e a fuga de mais de uma centena de presos, ocorridos nos dois primeiros dias do ano novo se constituem em assuntos que merecem abordagem urgente. Segundo informações contidas no site da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária do Estado do Amazonas, a lotação máxima da Cadeia Pública Raimundo Vidal Pessoa, situada próximo ao centro da cidade de Manaus, é de 104 presos provisórios. E para lá que estão sendo transferidos os detentos sobreviventes ao massacre no Complexo Penitenciário Anísio Jobim – COMPAJ e à chacina no Instituto Penal Antonio Trindade – IPAT, ocorridos no primeiro dia do ano. Notícias contraditórias sobre o número de mortos e foragidos inundam as mídias sociais. Mas certamente mais que o dobro de sua lotação será para lá direcionado. Trata-se de transferir o problema de endereço. Não sou e nem pretendo ser um expert em administração do sistema penitenciário, mas de longe se percebe que se houvesse uma fiscalização rigorosa no controle da entrada de armas e aparelhos de telefones celulares nas prisões, muito dessas tragédias teria sido evitado. A imprensa sulista, que não consegue apontar soluções para problemas similares que ocorrem diariamente nas prisões de lá, prefere tergiversar politicamente a respeito, esquecendo-se que é uma das incentivadoras do crime, seja através de suas histórias novelesca da televisão, em que o criminoso até mesmo funciona como herói ou mocinho, seja através do jornalismo barato que evidencia o crime nas tardes diárias que invade o lar dos brasileiros pelos aparelhos de televisão. Aliás, tais programas, muitas vezes utilizados para eleger algum candidato que assuma o slogan “bandido bom é bandido morto”, serviram até como modelo por estas bandas, para, mediante associação de apresentadores ao crime, eleger vereadores e deputados. Tudo isso com o aval dos líderes políticos tidos por muito tempo como caciques da taba. No interior do Estado, há municípios em que a disputa política-eleitoral é feita entre as chamadas facções do crime, cabendo ao eleitor escolher o criminoso “melhor” para administrar a sua cidade. Um profissional médico, servidor da área de Saúde, que certamente fez o juramento de Hipócrates, está preso por ter pretensamente desviado dinheiro público destinado à compra de medicamentos e equipamentos médicos para o seu próprio bolso. No vizinho Estado de Roraima, até dias atrás, o Deputado/Presidente da Assembleia Legislativa despachava de dentro da cadeia, já condenado em última instância pela Justiça. Vários prefeitos do interior estão sendo processados criminalmente, alguns deles já presos, por desvio de dinheiro público em proveito próprio. Essa é a nossa realidade. E algo precisa ser feito com urgência. As crianças crescem e se tornam jovens desesperançados. Sem perspectiva de uma vida melhor e encantados pelo que o capitalismo pode oferecer aos ricos e mais remediados, assimilam a ideia de que o caminho do crime compensa, mesmo que seja curto esse caminho. As fotografias dos presos recapturados e dos massacrados ou chacinados mostram jovens, entre 18 e 30 anos, na sua maioria. Todos sem esperança alguma no semblante ou no olhar. Imaginam que a luta pela sobrevivência só pode estar na prática criminosa, seja o furto, o roubo, o narcotráfico, o latrocínio, ou no interior das verdadeiras masmorras que são as prisões deste Brasil, cada qual tentando ser superior ao seu semelhante na tragédia da vida. Vi, ouvi e li várias reclamações, de todas as direções, reclamando do que possa ter ocorrido ao longo do ano de 2016.

E este ano de 2017? Alguém acha que será melhor?

sobre o autor

Articulista-Jorge-AlvaroGinasiano do Colégio Estadual, de 1969 a 1975, tímido para ser líder, somente em 1996 presidiu a associação dos juízes trabalhistas da Região, por dois anos. De Manaus, onde pretende morrer, ouve música e assiste filmes, indiscriminadamente. Mais leitor que escritor, afinal ser o segundo é para poucos. Aceita desafios.

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