A explosão da caldeira da Santa Casa de Misericórdia

Em 23 de dezembro de 2016 às 07:00, por Lúcio Menezes.

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O Bar Caldeira de propriedade da Dona Maria, viúva do Seo Antonio, e do seu irmão, Adriano, sempre teve um público cativo, são boêmios, biriteiros, artistas, intelectuais, aposentados e tantos outros assíduos clientes que por nada deixam de diariamente bater ponto. O Bar foi palco de memoráveis eventos, um desses foi a ilustre presença do saudoso Vinicius de Moraes, o Vininha. Recentemente o Caldeira foi arrendado e repaginado, ganhou espaço midiático e, na esteira dessa visibilidade, está a conquistar um novo público, atraído pela proposta mais ousada e mais arrojada do seu atual proprietário. O que a maioria dos novos frequentadores desconhece é a razão do nome do Bar e a tragédia que esse nome guarda.

A paisagem que eu vislumbrava diariamente ao sair de casa ou ao me debruçar nas suas janelas – exceto pela fumaça de uma chaminé e pelos raros transeuntes – era estática, o enorme paredão de pedras da Santa Casa de Misericórdia. Paredão que ganhava vidas ao aninhar pombos e outros pássaros menores, ilustres inquilinos das frestas que encontravam entre as pedras que o compunham. É curioso, estou eu a relembrar aquela paisagem, quase uma pintura de natureza morta e dela sentir saudade, é como se eu, menino passarinho, dela também tivesse sido inquilino.

No dia quatorze de janeiro de mil novecentos e setenta, Lolô (Heloísa) e Cadinho (Liz Ricardo), meus irmãos, estavam em gozo de férias em Parintins. Eu ficara em Manaus a resmungar a prisão domiciliar imposta pela minha mãe, decorrente de uma súbita febre que me acometera. Estava eu desolado por imaginar meus irmãos a se divertir na Ilha e por saber-me proibido de me juntar aos amigos Humberto Breval (Bebeto), Camilo Gil (Came)l, Mário Garcia, Fausto Biváqua (Faustinho) e Luiz Afonso (Lulinha), reunidos na esquina da Rua Lobo d’Almada com José Clemente.

Os meninos estavam a praticar a mais nova “brincadeira”: atirar clips em alvos móveis (gatos, cachorros e, principalmente, pessoas) através daquelas ligas de empacotar dinheiro. Partia-se o clips, engatava-se a peça partida na liga posicionada entre o dedo indicador e o polegar (como se fosse uma baladeira), puxava-se até onde desse e depois o soltava. O “projétil” ganhava velocidade e o alvo, se atingido, sentiria uma dor daquelas.

A prodigiosa memória do Lulinha resgata o instante de lucidez do Bebeto, ao sugerir: “é melhor pararmos com isso, vamos acabar indo parar no juizado de menores”. Imediatamente após esta frase, exatamente às dez horas da manhã, a primeira de uma sequência de três explosões ensurdecedoras ecoou. Gritos, pânico, desespero era o que se via e ouvia. A primeira pareceu um terremoto, a segunda lançou pedaços de dois corpos e pedras, a terceira, a mais forte, fez tremer o prédio do então Tribunal de Justiça e dezenas de casas dos arredores. Chovia pedras, tijolos e madeiras, os fios elétricos quedavam-se arriados em frente à minha casa – se o inferno existe ali estava a se instalar a sua sucursal.

A enorme pressão no interior da velha caldeira, em decorrência do entupimento da válvula de escape e o excesso de lenhas colocadas pelos foguistas, foi a causa daquela explosão.

Lulinha quando viu o Bebeto caído no chão tentou levantá-lo puxando-o pelos cabelos, mas nesse instante foi atingido por uma pedra nas costas que o deixou sem andar por quase um mês e por pouco não fratura sua bacia. Atingido e atônito deixou o amigo Bebeto e procurou salvar-se – quando acionado, o instinto de sobrevivência sobrepõe-se a solidariedade. Foi nesse instante que eu e a minha mãe saímos de casa desesperados a buscar resposta para aqueles pavorosos estrondos. Não sabíamos o que era mais seguro, ficar em casa ou ir para a rua. Dona Marina, mãe do Lulinha, entrou em desespero ao se deparar com o filho a se arrastar e a deixar na calçada rastros de sangue.

Bebeto foi o menos afetado, Camilo perdeu o baço, Mario Garcia sofreu diversas escoriações e o Fausto, o mais atingido, após inúmeras intervenções cirúrgicas passou a usar uma bota especial para compensar os centímetros perdidos de uma das suas pernas. As elevadas dosagens de anti-inflamatórios que por anos foi obrigado a ingerir condenaram-no a carregar irreversíveis sequelas por toda a sua vida.

Nunca pensei que pudesse qualificar como bendita a sempre indesejável febre, jamais esquecerei aquele cenário de pavor, as cenas que guardo na minha memória se parecem com as dos filmes catástrofe de Hollywood, a diferença é que são reais, sem duble, sem diretor, sem direito a cortes ou cenas refeitas, com protagonistas e coadjuvantes. Esse episódio deixou marcas indeléveis, talvez por isso, sem combinação prévia, quando refizeram a calçada da Santa Casa apressamo-nos em registrar nossos nomes. Os meninos da minha rua têm a sua própria calçada da fama.

Pela dimensão catastrófica foi um milagre não ter sido pior. Às vezes fico a me perguntar: estaria a resposta no singelo detalhe de que o hoje Bar Caldeira antes se chamava Bar Nossa Senhora dos Milagres?

A explosão da caldeira da lavanderia da Santa Casa vitimou de forma fatal três pessoas: dois foguistas da caldeira e uma senhora que pela rua passava.

sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.

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