Entrevista com Selma Baçal

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A professora doutora Selma Baçal, atual diretora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Amazonas (Faced/Ufam), fala ao IDD sobre a sua participação no movimento estudantil amazonense nas décadas de 1970 e 1980.

IDD: PROFESSORA, CONTE-NOS UM POUCO DA SUA TRAJETÓRIA EDUCACIONAL.

Selma: Eu nasci em Manaus no dia 29 de março de 1964 e sempre vivi em Manaus. Estudei inicialmente na escola Barão do Rio Branco, depois fui para o grupo escolar Euclides da Cunha. Cursei o ginásio na escola estadual Ruy Araújo e, em seguida, o ensino médio na antiga Escola Técnica Federal do Amazonas. Posteriormente, a graduação licenciatura em Pedagogia na Universidade Federal do Amazonas. Depois, mestrado e doutorado na Universidade de São Paulo. E, atualmente, diretora da Faculdade de Educação.

IDD: QUANDO ACONTECEU SUA PRIMEIRA PARTICIPAÇÃO NO MOVIMENTO ESTUDANTIL?

Selma: Sou fundadora, com outros intelectuais da época, do Projeto Jaraqui. Então eu e meu pai participávamos, na Praça da Polícia, dos diálogos e debates que fazíamos em praça pública. Já como estudante do Ruy Araújo, na década de 70, por volta de 1975 – eu entrei lá como aluna do 5º ano, primeiro ano do ginásio – e já em 75-76 eu era liderança como representante de sala. E lá nós começamos a fazer pequenos movimentos em defesa dos estudantes. Quando eu passei para a Escola Técnica Federal, 1979, nós começamos a participar da organização dos estudantes na escola. E em 1980 eu fui presidente do Centro Cívico Escolar, que à época não era grêmio, era vinculado à direção da escola. Então fui eleita, num conselho de representantes de turmas, presidente do Centro Cívico Escolar. E tive assento no conselho escolar da escola. Em 81, na minha sucessão, eu já organizei eleição direta para que os estudantes participassem. Não seria mais voto pelo Conselho Escolar.

IDD: CONTE-NOS MAIS SOBRE O MOVIMENTO SECUNDARISTA DESSA ÉPOCA?

Selma: Sim. Concomitantemente à minha participação no Centro Cívico da escola, em 1980 eu também ajudei a reorganizar o movimento secundarista do Estado do Amazonas. Os estudantes começaram uma luta pelo movimento universitário e depois – a Uesa ainda não estava organizada – nós começamos a organizar núcleos de estudantes secundaristas. A luta pela meia-passagem fez nos aproximarmos de vários estudantes, sobretudo, das escolas públicas, mas muitos estudantes da Escola Técnica Federal. Aí nós conversávamos com o pessoal do Solon de Lucena, IEA, Benjamin Constant, Estadual, Marquês de Santa Cruz, Estelita Tapajós e várias escolas da Betânia… percorríamos Manaus inteira de ônibus para aglutinar os estudantes.

IDD: ONDE ACONTECIAM ESSAS REUNIÕES?

Selma: Nós nos reuníamos sempre no Diretório Universitário que funcionava na Epaminondas, em frente à antiga Faculdade de Estudos Sociais. Aos sábados à tarde nós reuníamos o movimento secundarista para lutar pela meia-passagem. O debate era o que faríamos para mobilizar os estudantes secundaristas e uma agenda conjunta. Posteriormente, com os universitários, decidíamos os atos públicos que faríamos em defesa da meia-passagem.

IDD: FALE-NOS SOBRE A RECONSTRUÇÃO DA UNIÃO DOS ESTUDANTES SECUNDARISTAS DO AMAZONAS (UESA).

Selma: Em maio de 1980 nós conquistamos a meia-passagem, juntamente com um conjunto de universitários e secundaristas. Posteriormente, em 1981, nós fizemos o congresso de reconstrução da Uesa. À época foi eleito presidente o Vicente Filizzola, que era aluno do colégio Benjamin Constant, e eu me tornei vice-presidente da Uesa. Em 1982, nós fizemos um congresso na Biblioteca Pública do Estado, na rua Barroso, um congresso bastante polêmico. A minha corrente política, à época, a “Viração” do movimento secundarista tinha a maioria dos delegados do congresso, e daí eu fui eleita presidente da Uesa. O Vicente Filizzola, que era então presidente, não aceitou o resultado da eleição. Saiu, dizendo que continuava na presidência.

IDD: HOUVE OUTRA ELEIÇÃO LOGO DEPOIS PARA RESOLVER ESSA DISSIDÊNCIA?

Selma: Nós fizemos eleição direta em todo o Estado do Amazonas para eleger a direção da Uesa. Francisco Sávio foi eleito presidente da Uesa com uma votação extraordinária, mais de 16 mil votos dos estudantes no Estado do Amazonas, e, com isso, nós selamos a liderança da “Viração” no movimento secundarista aqui no Amazonas. O congresso que nós realizamos na Biblioteca Pública caracterizou um racha na Uesa, porque a “Viração” foi vitoriosa e o Vicente Filizzola dizia que não ia deixar a presidência da entidade. O Vicente Filizzola nessa época já estava com o PDT. Mas aí a eleição direta demonstrou que de fato a “Viração” tinha uma expressão muito maior. Michelângelo Botto foi candidato, Vicente Filizzola foi candidato mais uma vez em 82 e o Francisco Sávio era o candidato da nossa corrente “Viração”. Nós ganhamos com uma larga vantagem. A “Viração” era majoritariamente a liderança maior dos secundaristas e dos universitários também.

IDD: COMO FOI SUA PARTICIPAÇÃO NA UNIÃO BRASILEIRA DOS ESTUDANTES SECUNDARISTAS (UBES)?

Selma: Em 1983 fui morar no Rio de Janeiro porque me tornei diretora do Departamento Feminino da Ubes. No outro ano fui diretora do Departamento de Imprensa e depois, em 1985, eu fui presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas. Morei no Rio, em São Paulo, um pouco em Minas também. E em 1985, o país estava vivendo um processo de redemocratização e nós conquistamos a Lei do Grêmio Livre, quando eu fui presidente da Ubes, a 5 de novembro de 1985, com o Sarney na presidência da República e Marco Maciel era o ministro da Educação… depois eu retornei, já vim para a Universidade Federal do Amazonas, em 1987.

IDD: O QUE VOCÊ SE LEMBRA DO SEU TEMPO DE MOVIMENTO SECUNDARISTA EM MANAUS?

Selma: Era uma luta muito viva, presente. Não havia gráfica para fazer panfletos, nós rodávamos de madrugada em mimeógrafos os pequenos comunicados das reuniões que faríamos e rodávamos no Diretório Universitário dos atos públicos que faríamos. E fizemos vários. Houve um memorável que foi o da invasão, em 1981… em 80 nós conquistamos a meia-passagem, mas houve um movimento constante de luta dos estudantes pela unificação do passe. Porque o passe, ele era por empresa. Você comprava a cartela de passe e os passes eram por empresa. Você tinha a empresa Monte Ararat, empresa Ana Cássia… e cada uma tinha o seu vale diferenciado. De 1980 a 81 nós fizemos um levante, vários movimentos, em praça pública quase sempre, para que o passe fosse unificado. E nesse momento, em 81, nós conquistamos o passe único, mas teve muitas batalhas importantes.

IDD: QUAIS OS CONFLITOS QUE VOCÊ SE RECORDA?

Selma: Um deles teve até um problema de ordem diplomática em 81 quando a Polícia Militar… o governo Lindoso disse que não haveria o ato, e nós estudantes… a gente ficou numa luta muito tensa toda semana, todos os dias… O governo dizia que a polícia ia para a rua e que o ato não aconteceria, e nós íamos para os jornais e dizíamos que o ato aconteceria. Esse ato é o da Praça São Sebastião, 28 de setembro se eu não estou enganada, em 1981.

IDD: O EPISÓDIO DA INVASÃO NA IGREJA?

Selma: Sim. Nós estávamos em praça pública e meu irmão, Luiz Sandro Baçal, começou a dirigir o ato, porque a praça estava com duas correntes de policiais militares, impedindo os estudantes de adentrarem a Praça São Sebastião. E o ato começou, dirigido por Luiz Sandro Baçal e Francisco Sávio, que eram da Uesa, à frente da igreja São Sebastião. O policiamento avançou, entrou na Igreja São Sebastião e atirou dentro da igreja para acertar Luiz Sandro Baçal, que estava correndo para não ser pego pela polícia. E ele foi salvo pelos capuchinhos que os acolheram lá. Sávio apanhou muito, chegou a ser preso. Antônio Lira Neto também apanhou muito e foi preso nessa oportunidade, e o Sandro escapou. Mas esse fato de a polícia ter atirado dentro da Igreja São Sebastião causou um problema diplomático do estado brasileiro com o Vaticano, porque a igreja São Sebastião foi invadida pelos policiais.

IDD: A REAÇÃO VIOLENTA DA POLÍCIA OCORREU PORQUE O SANDRO BAÇAL INCITOU A PM?

Selma: Tudo incitava. E Sandro falou muito. Que aquele uniforme, que aquela roupa que os soldados usavam, o salário que eles recebiam era pago pelo povo, portanto, eles devessem tratar… não seguir as ordens dos comandantes, não bater nos estudantes, não agredir o povo que pagava e sustentava a vida deles na condição de militar. Mas já havia uma intenção da polícia, orientada pelo Palácio, pelos chefes do Gabinete Civil e pelo governo do José Lindoso, de impedir que o ato acontecesse.

IDD: VOCÊ ESTAVA NA PRAÇA?

Selma: Começou o ato a ser liderado pelo Luiz Sandro porque eu estava no Palácio com o João Pedro e Vicente Filizzola. Nós conversávamos com o pessoal do gabinete do governador, buscando impedir que a polícia batesse nos estudantes e que não tivesse agressão. Quando nós chegamos já tinha acontecido. Nesse ato eu exercia a função de vice-presidente da Uesa. Nós chegamos e já havia ocorrido o incidente, mas o ato aconteceu assim mesmo. Nós caminhamos para a rua Tapajós, em frente à antiga Faculdade de Educação, que funcionava aonde hoje funciona o Caua, que é o Centro de Artes da Universidade do Amazonas. Em frente à Faculdade, nós subimos num carro, uma Brasília… fizemos de palco, acabamos com o capô de um carro, temos fotos até hoje. Esteve presente o antigo senador Fábio Lucena, que na época era vereador. E nós fizemos o ato ali mesmo com os estudantes, sem adentrar a praça.

IDD: A POLÍCIA MONITORAVA OS COMPONENTES DO MOVIMENTO?

Selma: Nesse período havia certa perseguição aos estudantes. No período da ditadura sempre teve. Nas nossas reuniões tinham policiais infiltrados. Nos centros, nos grêmios, nas escolas tinham policiais observando os nossos movimentos. Nós desconfiávamos de vários deles, informantes do SNI. Até porque a Escola Técnica Federal, onde eu estudava, o diretor da escola era o chefe do SNI do Estado do Amazonas. Em 81 nós fomo presos, mas não necessariamente pela luta da meia-passagem. Em 1981, eu, Sandro, Eron, Tasso e Chrisólogo. O Michelângelo Botto participava comigo na direção do Centro Cívico da Escola Técnica Federal. E o Michelângelo foi diretor da Uesa também quando nós dirigimos. Não chegou a presidir, mas foi diretor.

IDD: ONDE OCORREU ESSA PRISÃO?

Selma: Em 81 nós lutávamos contra a ditadura e militávamos no jornal “Tribuna da Luta Operária”, fazíamos a divulgação das nossas propostas. E teve a nossa prisão em frente ao Mercado Adolpho Lisboa, que já era um outro movimento, secundaristas e universitários, quando nós vendíamos a “Tribuna”, contra a ditadura militar, que tinha uma foto em que o Figueiredo está em cima de um cavalo, dizendo que prefere o cheiro do cavalo ao cheiro do povo. E nós fomos presos, na oportunidade, pelo DOPS, em “camburão” e tudo. Mas é um outro movimento que também tinha a ver com a luta contra a ditadura, pela resistência.

IDD: COMO ERA A PARCERIA ENTRE UESA E DU?

Selma: A luta era conjunta, interessava tanto a universitários quanto aos secundaristas. Cada escola tinha mais ou menos uma liderança, que estava sempre no movimento. Eu me lembro mais do pessoal da Escola Técnica, a Selene Baçal, por exemplo. Do Benjamin Constant vamos ter aí Vicente Filizzola. Tinha um do Antenor Sarmento, um rapaz chamado Wilson. Do Solon de Lucena também tinha o Francisco. Todas as escolas tinham grandes lideranças. Depois nós começamos a organizar os centros cívicos, porque os grêmios eram proibidos. Mas nós organizamos na forma que era possível, que eram os centros cívicos

IDD: VOCÊ JÁ ERA DO PCDOB NESSA ÉPOCA. QUEM LHE RECRUTOU?

Selma: Eu sou do Partido Comunista do Brasil desde maio de 1980 e nós tínhamos, à época, participação na “Viração” que não tinha só membros do Partido Comunista. Aliás, era muito maior do que isso, sempre foi. Nos movimentos, têm pessoas que não querem se filiar a partido nenhum. E elas entram em debate com uma corrente de pensamento, sem necessariamente entrar num partido. Quem me recrutou? Ah, foi tanta gente. João Pedro, Eron… me convidaram para entrar e eu entrei. E continuo até hoje militando no partido, na direção estadual. Quando da luta pela meia-passagem, nós nos reuníamos sempre ali, quando estávamos no Diretório Universitário, num bar que tinha em frente à Faculdade de Estudos Sociais, porque reunia muitos jovens. Era interessante, porque havia muita parceria dos trabalhadores e muita simpatia com o movimento estudantil. Nós não pagávamos ônibus, entrávamos pela frente. Nós pegávamos carona com os motoristas de ônibus. E os cobradores sempre muito parceiros dos estudantes.

IDD: HAVIA ESSE SENTIMENTO DE SIMPATIA DA POPULAÇÃO PELO MOVIMENTO?

Selma: Sim, havia muita alegria. Nós andávamos a cidade inteira sem nenhum problema. Não precisava ter dinheiro para fazer movimento, porque o movimento era tão abraçado pela população e reconhecido como movimento justo e legítimo, que em todo lugar recebia apoio. Se precisasse de um prato de comida, você se identificava como militante do movimento, as pessoas davam prato de comida, lanche, refrigerante, água.

IDD: E COMO ERA A RELAÇÃO DE VOCÊS COM OS ESTUDANTES E PROFESSORES SECUNDARISTAS?

Selma: Nós entrávamos direto nas salas de aula para falar com os estudantes a fim de convidá-los para os atos em geral. Até porque o movimento tinha outras bandeiras. Muitas pessoas não sabem, mas aqui na Faculdade de Educação nós temos um colega que foi secretário de Estado de Educação e, em 1982, quando eu presidia a Uesa, nós fizemos eleição direta para diretor de escola. Todas as escolas do Estado tiveram eleição direta, em plena ditadura militar. O professor Aldo Gomes da Costa era o secretário de Estado de Educação no governo de José Lindoso. Nós pleiteamos, lutamos e conquistamos e fizemos eleição direta para diretor de escola. Foi eleito, por exemplo, Gedeão Amorim como diretor do IEA, e em todas as escolas do Estado houve eleição direta para diretor de escola. Extraordinário para a redemocratização da educação, do diálogo entre os estudantes e as direções das escolas. Já participavam dos centros cívicos, embora não tivesse o grêmio livre. Depois, mesmo que a Lei do Grêmio Livre só viesse em 1985, nós fomos conquistando mais liberdade dentro dos espaços das escolas. Ao invés de organizar centros cívicos, buscávamos organizar grêmios estudantis. Então, o fato de ter eleito diretores de escola facilitou também o processo de redemocratização do diálogo dentro das escolas com os estudantes. Era muito forte a participação estudantil e insidia sobre a direção das escolas, que debatiam o que era melhor para os estudantes e as bandeiras que nós lutávamos.

IDD: VOCÊ É DE FAMÍLIA ATUANTE NOS MOVIMENTOS SOCIAIS E POLÍTICOS DO AMAZONAS. FALE SOBRE ISSO.

Selma: Meu pai foi militante do Partido Comunista do Brasil na década de 1950 e foi militante do movimento secundarista quando foi estudante do Estadual. Então ele participou do Congresso da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas em 69, e ele sempre incentivou todos os filhos a participar. Todos nós participamos. Eu, Sandro, Simone, Selene, quando estávamos na Escola Técnica, todos nós tivemos uma ativa participação e com o apoio dele eu fui morar no Rio de Janeiro – tinha 19 anos de idade – para participar da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas. Não havia represálias conosco, mas nós tínhamos alguns jovens que sofriam problemas dentro de casa, porque os pais tinham medo das possíveis represálias que podiam acontecer em confrontos com a polícia. Então, havia mais era cautela, não oposição que o filho participasse. Era mais um temor à ditadura pelo que a ditadura representou. No Brasil, muitos jovens foram mortos nas décadas de 60 e 70, sumiram, desapareceram. Então os pais tinham as razões deles para terem mais cuidado.

IDD: A FAMÍLIA BAÇAL PARTICIPAVA JUNTA NAS MANIFESTAÇÕES?

Selma: No dia do ato na Praça São Sebastião, o papai e a mamãe estavam presentes lá. E até o nosso irmão mais jovem, que era o Sérgio, criança ainda, ele também estava no ato. A mamãe trabalhava no Centro da cidade, em todas as manifestações ela estava. Ela já participava e estava lá vendo os filhos. Ela trabalhava ali na rua Dez de Julho, então quando os atos iam acontecer, ela já se dirigia para as manifestações e estava sempre com a gente vendo que os filhos estavam todos lá trabalhando.

IDD: COMO ERA A PARTICIPAÇÃO DA UESA NAS ELEIÇÕES DO DIRETÓRIO UNIVERSITÁRIO?

Selma: Na década de 80 nós andávamos bastante com os universitários, mas havia muita militância no movimento universitário e nós tínhamos muitas preocupações com o movimento secundarista. Então nós não íamos para as salas de aula fazer movimento pelos universitários, porque eles também tinham muitas lideranças, muitos centros acadêmicos. Não havia essa necessidade. E nós tínhamos as nossas necessidades de organizar o movimento secundarista. Nosso negócio era estar mais nas escolas mesmo, organizando os grêmios, os centros cívicos onde era possível e levantando as lutas que nós precisávamos dentro de cada escola. Cada situação era diferenciada.

IDD: A LUTA PELA MEIA-PASSAGEM ERA UMA BANDEIRA NACIONAL?

Selma: A UNE foi reconstruída em 1979 e a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas veio a ser reconstruída em 1981. E para unificar o movimento estudantil nacional, a bandeira que unificava tudo era a conquista da meia-passagem. Onde não existia meia-passagem estudantil a luta foi levantada. Eu não saberia dizer qual foi o Estado pioneiro nessa bandeira. Sei que em São Paulo… em todos os lugares teve manifestações de várias ordens. Porque nas cidades grandes, nas metrópoles onde não existia a meia-passagem, os estudantes caminharam com o movimento lançado, inicialmente, pela União Nacional dos Estudantes, que foi reconstruída em Salvador em 1979. E daqui do Estado do Amazonas foi uma delegação para esse congresso.

IDD: QUEM ESTAVA NESSA DELEGAÇÃO?

Selma: João Pedro foi, o Eron, se eu não estou enganada, também. E alguns outros… Lúcia Antony. Depois, quando retornaram para Manaus, teve a luta de manutenção da conquista da meia-passagem no Diretório Universitário. A União Brasileira dos Estudantes Secundaristas foi reconstruída em 1981 – maio ou junho – e a Uesa aqui também, em outubro de 1981. Quando eu retornei a Manaus, eu já estava no movimento universitário. Em 1987 eu entrei para o curso de licenciatura em Pedagogia e trabalhamos muito para o centro acadêmico, o DCE… essas lutas.

IDD: POR QUE, MESMO APÓS TRÊS DÉCADAS DE TER SIDO CONQUISTADA, A MEIA-PASSAGEM ESTUDANTIL AINDA CAUSA CERTA POLÊMICA?

Selma: Os empresários, em geral, eles não respeitam o que é determinado. Eles querem se insurgir. Pode observar que a conquista da meia-passagem está fazendo 35 anos, mas, volta e meia, ainda há tentativas e mecanismos para cercear o estudante de usufruir a meia-passagem, que é um negócio que já deveria ter sido digerido pelo empresariado como absolutamente normal. Mas as empresas querem sugar os mínimos centavos, um negócio absurdo. Não querem compartilhar o ônus da educação popular que é para todos, a educação do povo que é para todos, para uma sociedade melhor… não. Só querem benefícios. E se puder a passagem de ônibus ser R$ 5,00…. Se o estudante não precisar pegar o ônibus para ir à escola, problema do estudante. Então, são formas de perceber o desenvolvimento da sociedade que não agradam. E se não agradam, sempre haverá luta. Porque a luta é a luta de classes.

IDD: COMO VOCÊ VÊ O MOVIMENTO ESTUDANTIL DE HOJE?

Selma: Ele ainda existe, sim. Com características um pouco diferentes da nossa época, mas existe e é forte. Certamente que muitas das conquistas e muitas das formas que hoje o movimento estudantil tem – e a liberdade, sobretudo – foram conquistas da minha geração e de outras gerações que antecederam essa turma que hoje está lutando.

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